Crítica

Adriana Calcanhotto numa noite de feliz renascimento

O concerto-tese de Adriana Calcanhotto, retomando em Portugal e no século XXI A Mulher do Pau-Brasil, foi um momento mágico num CCB cheio. Há muito que não a ouvíamos assim.

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Adriana Calcanhotto no CCB CATARINA HENRIQUES
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Adriana no violão, Ricardo e Gabriel nos pianos CATARINA HENRIQUES
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Adriana Calcanhotto, num momento de voz e violão CATARINA HENRIQUES
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Adriana (nos tambores, Ricardo) CATARINA HENRIQUES
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Adriana e Gabriel nas guitarras eléctricas CATARINA HENRIQUES
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Adriana (Gabriel no mpc) CATARINA HENRIQUES
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Os agradecimentros finais: Ricardo, Adriana e Gabriel CATARINA HENRIQUES

A estreia de A Mulher do Pau-Brasil não podia ter sido mais auspiciosa. Num espectáculo vibrante e coeso, envolvente do primeiro acorde ao descer do pano, Adriana Calcanhotto esteve ao nível dos seus melhores espectáculos dos últimos anos, Olhos de Onda (2013) e Loucura (2014), mostrando uma versatilidade e uma clareza vocal notáveis. Foi um feliz renascimento, para palco, de uma das cantoras e compositoras mais marcantes no Brasil das últimas décadas. Apresentou quatro canções novas (compostas em Portugal, onde continua a leccionar, até Maio, na Universidade de Coimbra), cantou duas que nunca cantara (Outra vez, de Isolda; e Tigresa, de Caetano) e seduziu o público que esgotou o Grande Auditório do CCB na noite de 10 de Abril com um espectáculo hipnótico, bem concebido (do cenário às luzes), empolgante e eficaz. Foi um prazer vê-la e ouvi-la assim.

E se A dor tem algo de vazio, como diz o poema de Emily Dickinson que ela cantou na admirável versão portuguesa de Augusto de Campos e Cid Campos (foi a segunda canção da noite), Adriana soube encher esse vazio de uma força plena, deixando ecoar a dor em subtilezas mas trazendo para primeiro plano palavras e gestos de resistência. A mulher do pau-brasil, uma das novas canções, com a qual abriu o espectáculo, é um bom exemplo disso. Autobiográfica, é também um manifesto artístico afirmativo (“Nasceu no sul/ Foi para o Rio/ (…) Pró além-mar onde emergiu”). Adriana começou a cantá-la ainda deitada numa rede montada no palco, erguendo-se lentamente, como se despertasse de um estado letárgico, para imergir neste outro “além-mar” envolta no som eléctrico de três guitarras (a dela e as de Gabriel Muzak e Ricardo Dias Gomes, no baixo). Depois da dor de Dickinson, a Mortal loucura de Gregório de Matos, que ela já cantara em Das Rosas (2017) mas que aqui teve novo enquadramento. Daí Esquadros, a seguir (aplaudida aos primeiros acordes), num alinhamento perfeito com Onde andarás (Ferreira Gullar musicado por Caetano Veloso) e a Noite de São João de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa na versão de Fred Martins (bem mais densa do que a de Vítor Ramil, que a musicou de forma festiva). O que me cabe, mais uma das canções novas, nasceu de uma frase que Adriana ouviu a Gabriel Muzak, quando o encontrou por acaso em Lisboa e soube que ele se instalara na capital portuguesa. “Vim pra ver”, disse Gabriel. E ela não resistiu a fazer disso uma canção onde a palavra dor também entrou (“dói a felicidade”).

Porque dor, luto e luta foram as palavras que Adriana escolheu para compor este concerto-tese, resultado da sua residência artística (também a dar aulas) na Universidade de Coimbra. E se todas estiveram presentes, nas letras das canções ou na atitude com que em palco foram cantadas, a estrutura do concerto foi tudo menos académica ou enfaticamente didáctica (excesso que afectou, por exemplo, o promissor Das Rosas, estreado na Gulbenkian em Fevereiro de 2017). E isso foi patente no alinhamento do espectáculo e na forma como fluíram as canções, sem tempos mortos e sem aquela sensação de estarmos à espera de algo que não surge. A sequência seguinte, com dois temas de Adriana que integraram a novela A Lei do Amor (Não demora e Era pra ser, esta gravada por Maria Bethânia), separados apenas por uma conversa de teclas, a dois pianos, entre Gabriel Muzak e Ricardo Dias Gomes, traçaram uma linha divisória no espectáculo. Se na primeira parte Adriana surgira com um sobretudo escuro, de que depois se desembaraçou, na segunda (onde esteve algum tempo sozinha com o seu violão em palco) veio vestida de vermelho vivo, num daqueles vestidos largos que bem podia ter sido usado numa performance modernista do século XX. Outra vez, da cantora e compositora paulista Isolda (muitos atribuem erradamente esta canção a Roberto Carlos, por ter sido ele a dar-lhe maior fama) e Metade, do repertório de Adriana, antecederam o único momento da noite em que ela contou uma história mais extensa. Mas só esse pequeno momento teria valido o espectáculo. O que contou Adriana? Que, convidada para falar em Oxford de bossa nova, achou que faria mais sentido falar ali de Vinicius de Moraes, já que ele antecedera a bossa nova (basta lembrar Orfeu) e, além disso, estudara em Oxford, por ter obtido uma bolsa do British Coucil. O que descobriu Adriana, através de depoimentos e cartas? Que Vinicius estivera lá, mas só entrava à noite no colégio, à hora de dormir (obrigatória à meia-noite), para depois sair sorrateiramente pela janela, agarrado à canalização, e ir ter com a namorada, com quem viria a casar em breve, Beatriz Azevedo de Mello, mãe de Susana Moraes (1940-2015, com quem Adriana casou, vivendo juntas durante 26 anos). Vinicius escreveu, então, numa carta, que em Oxford havia “muita realeza e nenhuma realidade.” E foi essa a realidade dele em Inglaterra.

A história serviu de intróito a Nature boy (de AdenAhbez, 1947), a canção do repertório anglo-americano que mais fascinava Vinicius e que teve centenas de versões em todo o mundo, incluindo a dele próprio. Adriana cantou-a delicadamente, fazendo ecoar a memória de Vinicius na sua voz, e dela partiu para Devolva-me (mais aplausos da plateia), Flor encarnada (outra canção nova, bem inspirada) e Vamos comer Caetano, numa versão feérica e vigorosa, alimentada a teatralidade e samplers. Entrados na fase manifesto, veio Caravanas, do mais recente disco de Chico Buarque, tema que liga estigmas e medos do presente (as favelas, os refugiados) ao peso do passado (a escravatura). E depois Ogunté, mais uma canção nova que, no seu estilo quase declamatório, entre o rap e a spoken word, lembrou a força de Navio negreiro de Castro Alves, incluído por Caetano em Livro). Exposta a catarse, um apaziguamento: Vambora. Memórias de Adriana, a fechar.

Mas só até ao bis, ou ao encore, como preferirem. Muitos aplausos, de pé, e um regresso com Tigresa, de Caetano, que Adriana nunca cantara (e lá estava, outra vez, a tal palavra-mote: “muito prazer e muita dor”), para fechar em definitivo com a eterna Fico assim sem você (que, na sua aparente puerilidade, esconde também a dor de uma insistente e forçada ausência). Do que se ouviu, e do que Adriana foi capaz de mostrar em palco, este foi um feliz renascimento. Raramente a presença da cantora em palco pareceu tão convicta, sustentada talvez por uma carga emotiva que a engrandeceu na ribalta em lugar de a diluir num frágil recolhimento. Proporcionou, assim, um espectáculo imperdível, que oxalá venha a marcar os seus próximos passos, na música e no resto.

Depois desta bem-sucedida estreia em Lisboa, A Mulher do Pau-Brasil segue para Ponta Delgada (Teatro Micaelense, dia 21) e Porto (Coliseu, dia 24). Com Adriana (voz e guitarras), dois notáveis músicos: Gabriel Muzak (guitarra, mpc e voz), e Ricardo Dias Gomes (piano, baixo e voz).

P.S.: A lembrar um azarado concerto de Adriana no Coliseu, em 2008 (onde às 23h, muito depois de começar, ainda havia gente a entrar na sala) também no CCB se verificaram enormes filas para entrar no auditório, o que raramente ali acontece e francamente se estranhou. Talvez o motivo estivesse no lento acesso ao bengaleiro, já que era dia de chuva (embora na altura nem sequer chovesse). Mas que não tenha sido encontrada solução, a tempo, para minorar tal falha é que parece estranho. Muita gente com bilhete ainda estava no exterior, em filas que se alongavam, quando o espectáculo começou. E isso, por mais explicações que possam ser dadas, não devia ter acontecido.