Opinião

O racismo idiomático de cada dia

O racismo está vivo e certas expressões podem reforçar o sentimento de opressão que muitas pessoas carregam dentro de si.

As palavras contêm depósitos com significados históricos, muitos deles pejorativos. O que significa “nega fulô” (expressão usada no Brasil)? E “mercado negro”? “Trabalhar como uma negra”? Há alguma relação entre estes termos? São racistas? Ou são apenas palavras que expressam algo oculto, obscuro ou até beleza ou afeto, como no caso de “mulata” e “nega fulô”? Para respondermos a estas perguntas precisamos antes de dissecar historicamente a palavra “negro”.

“Negro” é um adjetivo que significa em português e espanhol a cor “black” em inglês. Em português, pode-se também dizer “preto” ou “preta” para se referir à cor “black”. Em espanhol, embora a palavra “preto/a” exista no dicionário, é a palavra “negro” que é extensivamente usada. Dito isto, resumimos que na língua portuguesa há duas palavras comummente usadas para se referir à cor que em inglês se diz “black”, as quais são: “negro/a” e “preto/a”.

De acordo com o historiador americano Anthony T. Browder, os portugueses foram os primeiros a escravizar pessoas levadas de África para as Américas e, como tal, foram também os primeiros a chamarem aos africanos escravizados “negros”. Os espanhóis entraram no negócio de tráfico de pessoas posteriormente e também usaram a palavra “negro” para descreverem os africanos feitos escravos. Foi antes do tráfico transatlântico de escravos, a partir de 1444, com o início do comércio de escravos, na Europa, que a palavra “negro” se transformou num substantivo para nomear povos escravizados.

Foi neste contexto também que a palavra “negro” foi introduzida na língua inglesa, no século XVI, porque os portugueses usavam a palavra especificamente para denominar escravos, não só da África, como também nativos indígenas no Brasil, usados nas plantações de cana-de-açúcar. Estes últimos eram chamados “negros da terra”. Os investigadores John Thornton e Linda Heywood, ambos professores de História Afro-americana na Universidade de Boston, EUA, dizem que a palavra “slave”, “escravo” em inglês, raramente aparecia em documentos relacionados com a escravidão em 1640. Africanos escravizados levados para os Estados Unidos nos barcos portugueses eram documentados como “negroes”, palavra esta que absorveu então o sentido português de escravidão, uma das razões pelas quais a palavra é abolida socialmente nos EUA. E daí advém o sentido pejorativo atribuído a “nigger”. Ao consultar a palavra “nigger” no site dictionary.com, verifica-se que a explicação do termo contém um “alerta de uso” juntamente com a nota: “O termo ‘nigger’ é hoje provavelmente a palavra mais ofensiva na língua inglesa.”

Dada esta herança linguística, as línguas portuguesa e espanhola estão recheadas de expressões idiomáticas que carregam na sua história a escravidão, e que estão intrinsecamente carregadas de sentidos negativos e opressores. Há quem pense que a palavra “negro” usada nestas expressões faz jus ao sentido oculto, de não-clareza, quando na verdade a palavra “negro” remete para escravidão. Algumas destas expressões são idênticas nos dois idiomas: “mercado negro”, “dinheiro negro”, “trabalhar como um negro”. Em espanhol, ainda se chama a um ghostwriter um “negro”, uma alusão clara ao conceito de escravo, aquele que trabalha sem ter recompensas ou méritos pelo trabalho que desempenha.

Mas esta herança linguística torna-se complexa quando usada pelas pessoas automaticamente, sem nenhum exercício de distanciamento. Há uns dias uma amiga publicou no Facebook algo sobre mim dizendo: “Que saudades desta nega fulô!” Quando lhe perguntei o que significava aquela expressão, ela disse que não sabia, mas disse-me que estava tentando ser afetuosa. Se dissecarmos “nega fulô”, assim como dissecamos a palavra “negro”, vamos chegar ao mesmo resultado. “Fulô” era a forma popular da palavra “flor” usada por escravos. A expressão “nega fulô” referia-se a uma escrava flor, escrava bonita, geralmente assediada e forçada a ter relações sexuais com o senhor da “casa grande”, o colonizador. A expressão foi popularizada num poema do poeta brasileiro Jorge de Lima (1895-1953). Dito de outra forma, “nega fulô” talvez outrora foi sim um elogio dirigido às mulheres negras, e bonitas, feitas escravas. No entanto, não é esse o efeito que essa expressão causa em mim. Pelo contrário, “nega fulô” ativa em mim, de imediato, o sentimento de desconfiança, natural em pessoas conscientes da sua identidade negra.

Outro exemplo é a palavra “mulata”, muitas vezes usada pelos portugueses para expressar o orgulho que têm da suposta miscigenação “harmoniosa” no Brasil, entre pretos e brancos. Tal como para os falantes da língua portuguesa, a palavra é também usada pelos espanhóis para denotar mestiçagem. No entanto, a origem deste vocábulo remete ainda para mula, filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua, que representa no mundo animal uma espécie de hierarquia racial.

É importante dizer que as pessoas que usam as palavras e expressões mencionadas não querem necessariamente expressar racismo. No entanto, como a língua não sobrevive isoladamente, mas num contexto histórico e social específico, os seus falantes herdam-no. E tal como existe a linguagem sexista, produto de uma sociedade patriarcal, também existe linguagem racista, de tal ordem enraizada nas culturas portuguesa e espanhola, entre outras, que se torna difícil eliminar do discurso corrente. Porém, há que exercitar a tomada de consciência do nosso legado linguístico para nos darmos conta do quanto podemos estar a ofender alguém sem qualquer intenção.

O racismo está vivo e certas expressões podem reforçar o sentimento de opressão que muitas pessoas carregam dentro de si, desde logo expresso na cor da pele. Uma vez que o racismo está vivo, o uso dessas palavras aumenta o desconforto emocional de quem enfrenta discriminação racial no dia-a-dia. Outra forma de lidar com isto é autoquestionar-se sobre o significado de expressões que são revestidas de sentido racial e rever o uso das mesmas.

Embora haja quem diga que usar etimologia é algo exagerado ou despropositado, penso na sua utilidade para provocar reflexão e, consequentemente, mudança social. Como o escritor afro-americano James Baldwin escreveu em 1970 numa carta: “Já que vivemos numa era em que o silêncio não é só criminoso, mas também suicida, tenho feito o máximo de barulho que consigo.” Este artigo tenta fazer o mesmo. Fazer barulho para despertar a consciência
das pessoas.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico