Sobrevivente do Daesh veio pedir que Portugal reconheça o genocídio dos yazidis

Farida Khalaf tem um sonho: levar o Daesh a tribunal. Para isso precisa que os Estados reconheçam o genocídio dos yazidis. Foi isso que veio pedir aos deputados portugueses.

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Os yazidis são uma minoria iraquiana que tem sido perseguida pela violência do Daesh Reuters/UMIT BEKTAS

Farida Khalaf é uma jovem da minoria curda yazidi que sobreviveu ao cativeiro do Daesh e conseguiu fugir para contar a história. Esteve em Portugal pela segunda vez nesta quarta-feira para falar aos deputados da Assembleia da Republica e pedir-lhes que reconheçam e condenem o genocídio dos yazidis pelo Daesh. No fim do seu discurso, a posição dos deputados portugueses era unânime: é urgente aprovar uma resolução conjunta que reconheça o genocídio desta minoria religiosa curda.

"Atacaram-me, à minha família e aldeia. Destruíram todos os sonhos que tínhamos", recordou Farida nesta quarta-feira no Parlamento, com a ajuda de um tradutor. O seu sonho agora é "ver os militantes do ISIS em tribunal" e “que seja reconhecido o genocídio” dos yazidi, cita a Lusa.

A história de Farida Khalaf não é totalmente desconhecida dos portugueses. A jovem yazidi já tinha estado em Portugal uma vez, em 2017, no Centro de Congressos do Estoril, para a contar. Com uma plateia lavada em lágrimas pelo relato de uma violência extrema, a jovem afirmou a necessidade de levar o Daesh a tribunal. Agora, em 2018, repetiu a mensagem. Mas levar o o grupo terrorista ao Tribunal Penal Internacional (TPI) só será possível se um grande número de Estados reconhecer e condenar o genocídio dos yazidis às suas mãos. Foi isso que Farida veio pedir aos deputados portugueses que a receberam e ouviram, no âmbito de duas comissões parlamentares - a dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e a dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas. E a resposta foi unânime: é necessário reconhecer este genocídio.

“Tudo faremos para podermos consagrar ao nível da totalidade da Assembleia da República que seja aprovada uma posição para reconhecer estes crimes como crimes cometidos contra a Humanidade, como um genocídio”, disse José Cesário, deputado do PSD e coordenador da comissão de negócios estrangeiros e das comunidades portuguesas, citado pelo Expresso.

“De nós podem esperar todo o apoio. Em Portugal não fazemos política quando se trata de liberdade e de direitos humanos. Estará para muito breve uma resolução sobre o genocídio e o reconhecimento da perseguição do povo yazidi”, prometeu a deputada Vânia Dias da Silva, do CDS-PP, citada pelo mesmo jornal.

Portugal tenciona juntar-se a outros países, como o Reino Unido, França e Canadá, que reconheceram formalmente o genocídio yazidi.  Assim, fica mais próximo de se cumprir o sonho de Farida e da Organização Yazda, com a qual trabalha num programa de consciencialização dos Estados estrangeiros: pressionar o Conselho de Segurança da ONU a remeter o caso para o TPI.

De Lisboa, Farida ruma até Braga, onde vai estar no 5.º Congresso de Investigação Criminal. Depois disso, o destino é França, onde vai estar para repetir o pedido aos deputados.

Farida Khalaf não é o nome verdadeiro da jovem que discursou nesta quarta-feira no Parlamento. Usa um nome fictício por questões de segurança – não quer que os membros do Daesh que a torturaram a reconheçam. Actualmente vive na Alemanha, onde tem estatuto de refugiada. Foi uma das jovens que conseguiu escapar à violência do radicais. O pesadelo de Farida começou em 2014, quando o então denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante atacou a sua aldeia, Kocho, na zona de Sinjar, Iraque.

Farida pertence a uma minoria religiosa curda, os yazidis. Por serem considerados “adoradores do diabo” pelos fundamentalistas islâmicos, os yazidis são perseguidos e torturados. No ataque a Kocho, em 2014, o Daesh separou um grupo de homens e outro de mulheres – matou o primeiro e sequestrou o segundo. O pai e o irmão de Farida estavam no grupo dos que morreram. E Farida viveu, apenas para ser vendida num mercado de escravos em Raqqa, Síria, espancada e violada quando tinha apenas 17 anos.

A rapariga que derrotou o Estado Islâmico é o livro que conta a história de Farida Khalaf, editado pela Asa, em 2016. Uma história semelhante à de milhares de outras meninas e mulheres que ainda estão nas mãos do Daesh. Ao todo, foram raptados ou executados pelo grupo extremista cerca de dez mil yazidis. Estima-se que 3200 yazidis ainda estejam nas mãos do Daesh. com Lusa