Opinião

Clubismo, tribalismo, nacionalismo: a mesma lógica

O demagogo nacionalista e o seu congénere clubista são parecidos porque, tal como qualquer líder tribalista, eles são feitos do mesmo “molde” cognitivo.

Há coisas que parecem evidentes e não o são. Há coisas que são evidentes mesmo que se neguem as aparências. Durante séculos houve gente a olhar para o mapa de África e da América do Sul e a notar que as formas desses continentes encaixavam uma na outra. E durante séculos houve gente a negar, dizendo que era certamente por acaso. Afinal não era acaso. As formas de África e da América Latina encaixam porque, por assim dizer, saíram do mesmo molde.

Da mesma forma, salta à vista a semelhança entre a atitude de um Trump, por exemplo, e de um conhecido dirigente desportivo português (omitamos o nome do clube porque, para o argumento que nos interessa, isto poderia passar-se - e passa-se - em qualquer clube português ). Algumas pessoas dirão que aparências são aparências e que esta é certamente uma coincidência. Estão erradas. O demagogo nacionalista e o seu congénere clubista são parecidos porque, tal como qualquer líder tribalista, eles são feitos do mesmo “molde” cognitivo. O clubismo, o tribalismo e o nacionalismo — entendidos como perversão do amor ao clube, à tribo ou à pátria — têm a mesma lógica. Os demagogos de cada uma destas estirpes usam e abusam dos mesmos argumentos. Estes incluem a ideia de que a tribo (ou a nação) é uma “comunidade de história e de destino” com características especiais e separadas do resto, a insistência na noção de que o mundo exterior é insolidário, a obsessão com a necessidade de vingar o coletivo pelas humilhações e desrespeitos passados e a supremacia do interesse próprio.

Tomemos o exemplo da supremacia do interesse próprio. O tribalista diz estar exclusivamente empenhado no interesse dos seus porque, alega, isso é que é natural: cada família ou clã cuida dos que lhe são próximos. E claro que este é, sim, um sentimento natural. Mas mal estaríamos se a civilização fosse só feita de emoções pré-políticas. Claro que eu gosto mais da minha família do que da família do meu vizinho. Mas para o bem da minha família (e da civilização como um todo), tanto eu como o meu vizinho temos interesse em que ambas as famílias e as famílias de toda a gente sejam tratadas com a mesma civilidade, numa equidade social e política tão perfeita quanto possível. Se eu achar que a minha família tem de ganhar a todo o custo, o mais certo é fomentar essa atitude nos outros, e assim perdem todas as famílias. O tribalismo é o contrário daquilo a que poderíamos chamar sentimento republicano (o nacionalismo é o contrário da necessária emergência de um “sentimento republicano” à escala global).

O projeto do demagogo tribalista é sempre, ao contrário do que ele proclama, um projeto de poder individual feito às custas da entidade coletiva que ele diz abraçar. Em geral, isso só se entende quando — tal como com o líder nacionalista que leva o seu país para a guerra e acaba por arruiná-lo — o demagogo tribalista leva a um colapso da civilidade e, ao fazê-lo, acaba por prejudicar os interesses que alegava defender, matando assim a sua galinha dos ovos de ouro.

Quando se começa a perceber que o seu projeto de poder é individual e interesseiro, o demagogo tem dificuldade em aguentar-se no poder. Aí chega o momento da chantagem emocional: eu só fiz isto porque amo a tribo (ou o clube, ou a nação) mais do que tudo. Como o demagogo defende que não pode haver mal em amar a tribo acima de todas as coisas, a sua sugestão é que aqueles que estão contra ele não amam verdadeiramente a tribo. Os seus adversários são maus patriotas, ou maus adeptos. Provavelmente são até traidores a soldo dos inimigos. E assim se conseguem silenciar, pelo menos temporariamente, as vozes que alertam contra a deriva tribalista.

O mais curioso de tudo isto é que, tal como os argumentos nacionalistas se aplicam ao clubismo e ao tribalismo, também o nacionalismo não tem mais densidade do que o tribalismo ou o clubismo. A única coisa que tem é mais exércitos e, logo, mais capacidade de fazer mal. Mas não há nenhum argumento a favor do nacionalismo que não se consiga usar ipsis verbis para o clube ou a tribo, como para a raça ou a seita religiosa. O que é extraordinário é ter havido, ainda há pouco tempo, tanta gente a dar prestígio intelectual e apoio público a estas derivas.