O fato sóbrio de Zuckerberg frente ao Senado

O mundo está habituado a vê-lo de t-shirt e calças de ganga, mas para responder às questões do Senado Zuckerberg apareceu com um fato sóbrio, simbólico da sua postura em relação ao escândalo da Cambridge Analytica.

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Reuters/AARON P. BERNSTEIN
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O New York Times chama-lhe o "I’m Sorry Suit" (fato das desculpas). Refere-se ao fato que Mark Zuckerberg usou, esta terça-feira, frente ao Senado dos Estados Unidos, para ser ouvido sobre o funcionamento do Facebook.

Seria expectável que o multimilionário fundador da rede social, que liga dois mil milhões de pessoas à volta do mundo, desse um dia de descanso à t-shirt e ao casaco com carapuço e calças de ganga que se tornaram uma espécie de imagem de marca e um símbolo para milhares de sonhadores de Silicon Valley. Nem foi a primeira vez que o mundo o viu de fato e gravata: para além de alguns poucos eventos oficiais, chegou a usar gravata durante 2009 inteiro, para simbolizar o quão "sério e importante" esse ano era para o Facebook – explicou-o no seu mural.

Ainda assim, são raras as ocasiões em que deixa a t-shirt. De acordo com a Entrepreneuras estas são feitas à medida pelo designer italiano Brunello Cucinelli e custam entre 300 e 400 dólares (258 e 344 euros). O próprio Zuckerberg já explicou o porquê da escolha: "Queria organizar a minha vida e fazer o mínimo de decisões possíveis sobre tudo, excepto como melhor servir esta comunidade [o Facebook]". 

São precisamente essas decisões que estão agora em causa. À parte das quase cinco horas de respostas às perguntas de dezenas de senadores, a apresentação de Zuckerberg teve em si uma mensagem própria, que suscitou a análise de diversos meios de comunicação.

Zuckerber poderia ter usado qualquer fato, mas usou um "tão sóbrio que não destoaria num funeral", escreve a Slate. "Era tanto um comunicado visual de renúncia e respeito como qualquer pedido de desculpa verbal", acrescenta o New York Times. "Dizia para os legisladores desconfiados: Estou na vossa casa e vou aceitar as vossas regras. Dizia OK, talvez nós em Silicon Valley não saibamos mesmo mais do que toda a gente. Dizia: Eu reconheço a responsabilidade que tenho e levo isto a sério."

Já uns dias antes, o conselheiro económico do presidente dos Estados Unidos, Larry Kudlow, questionado sobre se o Facebook deveria ser regulado, respondeu aos jornalistas presentes divagando sobre aquilo que o empresário iria vestir: "Será que vai usar fato e gravata e uma camisa branca? Essa é a minha maior questão. Será que se vai comportar como adulto, como o líder de uma grande corporação?", atirou.

A conformidade com o protocolo de uma audição do Senado é simbólica de uma mudança de paradigma do próprio Zuckerberg: de jovem inovador a adulto que se assume responsabilidade. O próprio Facebook já não é um simples divertimento entre amigos, mas sim uma empresa gigante que liga cerca de dois mil milhões de pessoas e cuja informação que lá circula pode ter sérias consequências no mundo, afectando eleitorados e promovendo genocídios.

"Um fato é tudo aquilo que Zuckerberg e os seus amiguinhos das gigantes de tecnologia têm resistindo à medida que vão crescendo", escreve a Vogue. "Zuckerberg e a sua empresa tornaram-se demasiado globais e impactantes para casacos com carapuço, t-shirts e sandálias. Quer goste quer não, ele é um homem de fato agora, que irá enfrentar o derradeiro teste de responsabilidade corporativa", resume ainda a revista.

Durante anos, a roupa descontraída era uma mostra tangível daquilo que o separa – bem como muitos outros de São Francisco – do mundo corporativo. O fato e gravata (azul, da cor do Facebook) "retirou um dos significantes da diferença entre a velha e a nova guarda e substituiu-a por similaridade", aponta o New York Times. Zuckerberg tem mantido a atitude pateta e divertida de um homem de negócios muito menos feroz do que ele próprio. Na sala da audição, forçado a usar roupa de adulto, essa imagem murchou", remata ainda a Slate.