Partir ou ficar? Em Gaza não é fácil crescer mulher, diz Monique Jaques

A fotojornalista brasileiro-americana, na exposição Raparigas de Gaza que pode ser visitada ao ar livre no Parque das Nações, em Lisboa, abre-nos as fronteiras de Gaza.

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A fotojornalista Monique Jaques, na Alameda dos Oceanos, local da exposição. SEBASTIÃO ALMEIDA
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Montagem da exposição que será composta por oito cubos com 22 fotografias na rua. SEBASTIÃO ALMEIDA
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A disposição dos cubos obriga o espectador a percorrer a rua. SEBASTIÃO ALMEIDA
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Gaza Girls Book MONIQUE JAQUES
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Gaza Girls Book MONIQUE JAQUES

Nas fotografias de Raparigas de Gaza, projecto de longa duração da fotojornalista Monique Jaques, há sempre uma estranha sensação de alegria e tristeza no rosto das pessoas fotografadas. São jovens mulheres que vivem num dos territórios mais controlados do mundo, segregadas e rodeadas de pobreza numa sociedade extremamente conservadora. Apesar de todos os obstáculos com que se deparam, estas raparigas encontram na prática de surf ou em namoricos secretos a resiliência e ânimo para acreditarem que um dia tornarão os seus sonhos realidade.

Monique Jaques mostra como é crescer e ser mulher na Faixa de Gaza: a pobreza e a violência estão presentes, mas também há sonhos e esperança nas raparigas que um dia serão mulheres. A exposição que explora as vidas de jovens mulheres nesta região tumultuosa do Médio Oriente, Raparigas de Gaza, pode ser visitada ao ar livre na Alameda dos Oceanos, no Parque das Nações, até 30 de Abril. Está inserida na programação do Abril em Lisboa, da EGEAC, que neste ano se volta a centrar nos direitos humanos e traz para a rua um trabalho que tem a ambição de chegar ao maior número de pessoas possível.

Num café junto ao local onde a exposição começa a ser preparada, Monique Jaques, em conversa com o PÚBLICO, revela que não é a primeira vez que visita Lisboa. Enquanto fala vai observando com atenção a montagem das estruturas de metal que em breve ganharão a forma de oito cubos que serão revestidos com 22 fotografias do seu projecto. “É uma outra forma de mostrar ao público um trabalho diferente daquilo que normalmente se vê sobre Gaza”, conta a fotojornalista brasileiro-americana que em 2012, quando chegou à Faixa de Gaza para cobrir o conflito armado entre o exército israelita e o Hamas, se deparou com um cenário conturbado.

Depois de fazer fotografias do conflito, Monique Jaques, 33 anos, apercebeu-se que era apenas mais uma jornalista entre outros tantos que registam fotografias de violência e repressão. Foi durante essa primeira viagem que se cruzou com a ideia de uma realidade diferente daquela que tinha experienciado até então. A tradutora que acompanhou a jornalista nos primeiros tempos garantiu-lhe que a vivência da cidade e dos seus habitantes nem sempre era essa, assombrada por bombardeamentos e conflitos incessantes. “Isto só acontece de dois em dois anos. De resto, as pessoas têm vidas normais”, conta Monique, parafraseando as palavras que a seduziram a ficar e descobrir a “verdadeira Gaza”.

Monique quis fugir do lugar-comum de violência e repressão que povoa o imaginário da maioria das pessoas quando pensam na Faixa de Gaza e dar voz às raparigas e mulheres que lá vivem. A cidade revelou-se algo totalmente diferente daquilo que o Google lhe mostrava quando procurava informações ou imagens da região. “As raparigas que conheci eram pessoas muito interessantes que estavam a apenas a tentar descobrir quem eram num mundo em constante mudança.”

Aos 16 anos, a vida muda

A certeza da necessidade de contar as histórias das raparigas de Gaza tornou-se urgente para a fotógrafa e assim começaram as visitas quase mensais ao território, ao longo de cinco anos. De início, Monique encontrou alguma resistência por parte das famílias que assumiam uma postura muito protectora em relação às suas filhas. Mas percebeu que estas raparigas que se deixavam fotografar eram iguais às de qualquer outro país, não fosse o facto de viverem numa terra da qual não podem sair.

Monique apercebeu-se que as histórias destas mulheres nunca eram contadas: “Estas raparigas não entendiam o porquê de querer contar as suas histórias. Dizer-lhes que as suas vidas  importavam era algo que nunca tinham ouvido”, assegura ao PÚBLICO. Uma das raparigas que seguiu durante mais tempo, Yara, tem agora 15 anos. Conheceu-a quando tinha sete anos e acompanhou-a durante o início da sua adolescência. “Eu vi-a mudar como rapariga, a deixar de ser uma menina inocente e a ganhar consciência das opções que tem à sua volta. De se questionar se se querer ou não casar e das coisas que lhe iam interessando à medida que crescia”, acrescenta a fotojornalista.

Sabah, uma jovem de 14 anos, costuma ocupar o seu tempo a praticar surf nas praias de Gaza. O problema, segundo Monique, é que “quando as raparigas chegam a uma determinada idade e se começa a pensar no casamento, a família acredita que certas coisas não deverão ser feitas e que as raparigas têm de manter uma postura reservada”. Aos 16 anos a vida muda para as adolescentes de Gaza. A pressão do casamento e o controlo imposto pelas famílias funcionam quase como uma segunda ocupação. Ser-se mulher em Gaza é difícil e guardar um segredo ainda mais, afirma a jornalista. Esta realidade contrasta com alguns indicadores: os níveis de literacia em Gaza são dos mais elevados do mundo. Quase toda a gente vai para a universidade, “mas um dos motivos para isso acontecer é o facto de não haver muito mais para fazer”, esclarece.

Monique Jaques conseguiu encontrar no dia-a-dia uma realidade que muitas vezes passa despercebida a quem olha para Gaza de fora. A fotógrafa, cujos trabalhos são regularmente publicados em jornais como o The New York Times ou o The Guardian, procurou contar histórias sobre o que é crescer mulher e a auto-descoberta de perceber como é a vida adulta. Fê-lo recorrendo às entradas dos diários que as jovens fotografadas escreveram ao longo de cinco anos. Não é a sua história, reconhece. E a única coisa que tinha a dizer, expressou-a através das fotografias que deram origem ao livro Gaza Girls: Growing Up in the Gaza Strip, publicado no início do ano. Os desejos de menina estão lá, afinal de contas em Gaza a infância e adolescência também existem. “Eu quero voltar a casa, mas também quero ver o mundo”. Ouvir uma rapariga a dizer isso, afirma, traduz-se no discurso de qualquer outra criança da mesma idade. “Os pensamentos e sentimentos que elas têm são iguais às de todas as outras raparigas no mundo”.

E por estas raparigas serem como todas as outras, a atenção em relação ao que se passa à volta delas está sempre presente. Monique e as raparigas trocam mensagens quase todos os dias e falam bastante sobre o que se está a passar na região. “Elas não vão às manifestações, mas fazem uso das redes sociais para erguerem as suas vozes e contarem ao mundo aquilo que se passa”, confessa.

Ser-se mulher numa prisão a céu aberto como Gaza não é fácil, mas as raparigas que preenchem as telas dos cubos instalados numa das avenidas mais movimentadas do Parque das Nações, tornam-no mais possível. Serão elas, um dia, as vozes de uma geração que ficou com o mundo por ver, mas que o vai criando à sua maneira dentro dos limites físicos e psicológicos que lhes são impostos.

Texto editado por Isabel Coutinho