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Adjany, a exploradora, e outros heróis do planeta Terra

A segunda edição da National Geographic Summit realiza-se a 11 de Abril, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. A exploradora angolana Adjany Costa é uma das oradoras na sessão que junta seis especialistas em diferentes áreas, desde a biologia marinha, ao espaço, passando pela fotografia, com uma missão em comum: falar sobre a importância de preservar o planeta Terra.

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Adjany Costa a recolher amostras no Rio Cubango numa expedição em 2017 Pete Muller/National Geographic
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Adjany Costa a carregar as canoas para o arranque da expedição ao rio Cubango Pete Muller/National Geographic
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Adjany Costa junto às margens do rio Cubango, em 2017 Pete Muller/National Geographic

A exploradora angolana Adjany Costa tem uma história para contar sobre uma parte do nosso planeta que até há pouco tempo era um quase um segredo. Aliás, tem muitas histórias. É directora em Angola do Projecto Okavango da National Geographic que está a estudar uma vasta área de território inexplorado que abrange vários países, desde o Botswana, a Angola, Namíbia e Zâmbia. Foi a única mulher na equipa da primeira expedição que partiu em 2015 à procura da nascente do Rio Cuito. Voltou diferente. Moldada por um rio e uma terra com poucas pessoas e muita vida selvagem, invadida por sons, cheiros e imagens que quer ajudar a preservar acima de tudo. Adjany Costa assume que agora pertence ao Okavango. Esta quarta-feira vai partilhar o palco do Coliseu de Recreios, em Lisboa, com outros cinco corajosos e inspiradores oradores convidados para a National Geographic Summit 2018 que convida os portugueses para “uma viagem arrebatadora e extraordinária à volta do planeta”.

Adjany Costa está descalça num palco a falar sobre o Projecto Okavango desenvolvido no Sudeste de Angola. É assim que vemos a jovem e bonita exploradora angolana da National Geographic num vídeo publicado na Internet no final de 2016 que dura 18 minutos e acaba com uma plateia a aplaudir de pé. Isto depois de a ouvir contar o que viu, sentiu, cheirou na incrível viagem em que conheceu, pela primeira vez, a “mãe Cuito”. Isto depois de a ouvir defender de uma forma desarmante a preservação daquela área selvagem inexplorada, literalmente minada por uma guerra civil e abandonada durante décadas, onde encontrou aldeias que não recebiam gente de fora há 40 anos. Adjany assume que agora pertence ao Cuito e a tudo o que envolve e alimenta a bacia do Okavango, no Botswana. “Ter? Qualquer um pode ter. Mas o que podemos ser? Só sendo, só pertencendo, é que podemos fazer”, defende.

Ao telefone, numa conversa com o PÚBLICO, sentimos a mesma força, coragem e convicção da mulher de vestido preto, cabelos ao vento e pés descalços que vimos no vídeo. O único momento em que nos parece insegura é quando falamos sobre os seus parceiros no palco do Coliseu dos Recreios. “Quando descobri que ia partilhar o palco por exemplo com a Sylvia Earle, quase tive um ataque cardíaco”, confessa. Além de Sylvia Earle que, no programa da conferência que tem o PÚBLICO como media partner, é apresentada simplesmente como “a mais conceituada bióloga marinha do planeta”, haverá ainda a presença do astronauta como maior número de dias consecutivos no espaço, Terry Virts, o “ultrapremiado” fotógrafo especializado em vida selvagem, Charlie Hamilton James, a activista norte-coreana Hyeonseo Lee e a jornalista da casa “Nat Geo” Mariana van Zeller.

Sabendo um pouco das aventuras que Adjany Costa viveu nos últimos anos, rodeada de crocodilos do tamanho da sua canoa, atravessando áreas repletas de minas deixadas pela guerra, mordida por escorpiões, empurrada por hipopótamos e com muitas noites e dias na “solidão acompanhada” de uma região selvagem em Angola, é difícil acreditar que o seu coração acelere por causa de uma conferência em Lisboa. “Tenho muito mais medo da sociedade do que da vida selvagem”, explica. É fácil perceber porquê. A vida selvagem já faz parte dela. Ou, como ela prefere dizer, já lhe pertence.

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Adajany Costa e Steve Boyes, director do projecto Okavango, durante a expedição ao rio Cubango Pete Muller/National Geographic

Como é que isto aconteceu? Recuamos a 2014 quando Adjany Costa tinha 25 anos. A bióloga marinha, nascida e criada em Luanda, já sabia que não queria ficar “fechada laboratório a trabalhar”. Assistia-se a uma grande mudança na biodiversidade e no fluxo de água que entrava no delta do Okavango, no Botswana. Era preciso perceber o que estava a causar estas mudanças, para além do Botswana e do delta. A investigação tinha de chegar a áreas desconhecidas que poderiam estar relacionadas com estas alterações no Okavango. Sabia-se que aquela água vinha de Angola, dos rios Cubango e Cuito. Adjany, já especializada em impactos ambientais e consultoria ambiental, foi desafiada a (literalmente) embarcar numa aventura que tinha como missão chegar à nascente do rio Cuito, em Angola, e descer as águas em canoas até ao delta do Okavango, no Botswana. “Disse logo que sim, não hesitei”, lembra, sublinhando que mais do que os seus medos teve de ultrapassar a resistência dos pais que nunca aprovaram estas viagens que colocam a sua vida em risco. Principalmente o pai, recorda, que tinha estado naquela zona durante a guerra civil. Mas era demasiado tarde para a demover.

Lições da “mãe Cuito”

Chegou a sítios onde nunca ninguém terá estado antes. Adormeceu ao som de insectos, sapos e outros rugidos animais – “quem acha que na floresta encontra o silêncio está muito enganado, há muito barulho e sobretudo à noite” – acordou com a agitação dos pássaros numa tenda com vista para um rio que alguns dizem ser verde e outros vêem azul-turquesa. Mergulhou nessas águas com uma caneca na mão para saborear uma água que jura que é diferente de todas as outras. “Sabe a pureza.” De caneca na mão e todos os sentidos em alerta, para detectar crocodilos ou outras ameaças. Teve medo, muitas vezes. E avançou, sempre. Foi, lembra, junto ao rio Cuito que percebeu que pertencia àquele lugar. Conta que fechou os olhos e conseguiu “ver” o que estava à sua volta com todos os outros sentidos, o cheiro, o som. O búfalo que se escondia num arbusto, o bebé elefante ao longe. “Chorei.”

E, nesse momento, sentiu que já era filha da “mãe Cuito”, uma mãe que nunca mais deixou de a chamar para junto dela. E ela volta sempre, apesar dos protestos dos “outros” pais, lá longe, na cidade de Luanda. “A ‘mãe Cuito’ é uma daquelas mães angolanas, de amor duro, que nos ensina que temos de passar por muito e mostrar que mereces para receber uma recompensa.” Adjany Costa está a falar de um rio. Entre as “lições de vida” desta mãe-natureza, confirma que aprendeu que devemos sempre contar com o inesperado, que a vida é (como um rio) feita de curvas e contracurvas e “há sempre que respeitar os donos da casa”, neste caso, “os guardiões do rio”, as pessoas e animais que ali vivem.

Adjany Costa foi a única mulher na equipa do Programa Okavango da National Geographic que realizou a primeira expedição em 2015. A missão que deveria durar 83 dias, afinal prolongou-se por 121. O projecto soma actualmente oito expedições e há já uma nova viagem marcada para Abril, rumo ao rio Zambeze e ao seu afluente Cuando, para confirmar se também estas águas desaguam no delta do Okavango. Adjany Costa participou em todas as expedições realizadas até agora, umas por água (nos rios Cuito e Cubango) e outras por terra (de bicicleta e de carro) para estudar lagoas e outros territórios.

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Adjany Costa durante uma expedição em 2017 Pete Muller/National Geographic

Desde que o projecto começou, foram identificadas mais de mil espécies, entre mamíferos, aves, peixes e répteis. “Entre outras coisas fantásticas, percebemos, por exemplo, que um cão selvagem angolano que se julgava extinto continuava ali e encontrámos populações de chitas naquela área, o que foi totalmente inesperado”, conta, adiantando que entre o milhar de espécies identificadas estão “24 novas espécies potencialmente novas para a ciência”. Entre o que viu de novo, a bióloga marinha destaca uma árvore que se adaptou de forma invulgar ao ambiente e às ameaças e que se virou ao contrário, ou seja, explica Adjany: “Cresce para dentro do chão.”

Além dos resultados científicos, há ainda o que chama “frente geográfica e comunitária” do projecto. “Não gosto de dizer que descobrimos, mas já conseguimos as coordenadas de mais de 16 nascentes de diferentes rios, a maior parte são lagoas enormes, uma torre de água.” São pedaços de água ligados por um solo que funciona como uma esponja, que “guarda” água e permite a estabilidade do sistema, por exemplo, numa situação de diminuição de precipitação, esclarece.

Junto das (raras) populações que encontraram a viver naquele território, identificaram necessidades, costumes, hábitos, crenças e os mecanismos de dependência dos recursos que ali existem. Esta é uma terra que depois de povoada com minas durante a guerra foi abandonada e onde ficou muito pouca gente, lamenta Adjany Costa, que insiste que ainda há muitas pessoas que pensam que no seu país só Luanda importa, só Luanda é Angola. “Não é”, assegura. Na sua primeira expedição, Adjany passou por algumas aldeias com poucos habitantes (variavam entre 50 e 350) e a esmagadora maioria desligada do mundo exterior. “Numa das aldeias, percebemos que aquelas pessoas nos últimos 40 anos só viram gente a partir e não tinham tido ainda nenhuma visita, ninguém a chegar”, conta.

Proteger os “guardiões do rio”

E agora, o que fazer com tudo o que viram, ouviram, registaram nas expedições? “A ideia é combinar todos os dados e trabalhos que temos feito para efectivamente proteger aquela área. Queremos enquadrar tudo isto em programas nacionais de conservação já existentes para abranger aquela área e beneficiar a biodiversidade, o ecossistema, as comunidades e o país”, diz. Adjany Costa sublinha que, no meio de todas as acções que podem ser pensadas, é essencial referir a “necessidade de colocar a comunidade no centro de tudo”. Todos os planos de gestão devem ser focados na comunidade e nos seus hábitos. “Eles é que vão fazer conservação. Eles não são só os guardiões daquela área. São os donos. Eles é que decidem”, avisa.

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Adjany Costa e Paul Skelton (director científico e especialista em biodiversidade aquática) a recolher amostras do rio Cuito James Kydd/National Geographic

Assim, o plano passa por “usar os seus hábitos, tradições e o conhecimento extremo que eles têm daquela área, acrescentar elementos de ciência e sustentabilidade e dar-lhos para que possam ter alternativas de vida mais ligadas à conservação, dar-lhes literalmente o benefício da conservação nas suas vidas”. São comunidades onde não existem escolas, acesso a cuidados de saúde, empregos, alerta a bióloga.

Nas expedições que fazem, os exploradores vão deixando algumas pistas para um futuro diferente. Por exemplo: “Ficámos em aldeias, onde dormimos, pagámos pelos serviços, alimentação, acomodação, visitas guiadas à floresta, pagámos uma quantia extra por animais ou pegadas que vimos… Para que eles comecem a ver que as condições de vida deles podem melhorar se aproveitarem a biodiversidade e olharem para ela como uma riqueza, um investimento.” Adjany garante que, apesar de ser uma das suas principais fontes de rendimento, “eles não gostam de caçar”. “Caçam para poder comprar sal, óleo, sabão, roupa, para pagar um livro para que um vizinho ensine o seu filho a ler… coisas básicas.”

Assim, apoiados na conservação e sustentabilidade, os cientistas do Programa Okavango propõem alternativas. “O meu doutoramento é sobre isso. Passa por identificar essas possibilidades para melhoria de condições de vida destas pessoas.” Eles querem? “Muito! Sabem que a exploração insustentável que agora estão a fazer do ambiente está errada. Eles é que o dizem. Pedem alternativas.”

Adjany Costa reconhece que o facto de terem chegado até estas zonas desertas e remotas abriu caminho a outros que, agora, podem aproveitar estas novas rotas para explorar a região. Já há, por exemplo, camiões a chegar a algumas aldeias para ir comprar mel, o que pode incentivar as populações a explorar mais a floresta. “Mas para proteger aquele lugar, tínhamos de chegar lá. É o efeito negativo de uma acção necessária para uma mudança positiva. Temos de saber gerir isso.”

Adjany Costa sabe que vai ser preciso investir “tempo, dinheiro, pensamento, esforço” durante vários anos para que essa mudança positiva se torne uma realidade. Mas essa meta no horizonte nem sequer existia “ontem”, em 2015, quando a equipa de exploradores chegou pela primeira vez às margens do rio Cuito. Foi duro e, cada vez que volta, será duro. Mas, Adjany Costa assegura que vale a pena. Passou por vários momentos de inferno, para conhecer o paraíso. “A minha mãe humana educou-me até chegar a um ponto e a minha ‘mãe Cuito’, a mãe-natureza, moldou-me e mudou a visão que tenho da vida.”