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Ilustrar os sonhos de uma mulher

O escritor Eduardo Galeano quis vingar-se da pobreza das suas noites e contou com a ajuda de um poeta de imagens, Isidro Ferrer. Os Sonhos de Helena podem ser vistos no Museu da Farmácia, em Lisboa, até 30 de Junho.

De altas camas de ferro branco pendem molduras com os sonhos de Helena, mulher do escritor Eduardo Galeano. “Helena humilha-me todas as manhãs, ao pequeno-almoço, contando-me os seus sonhos prodigiosos”, começa por escrever o autor do livro Los Sueños de Helena (edição da Libros del Zorro Rojo). E prossegue dizendo que ela entra na noite como numa sala de cinema e que tem sempre um sonho novo à sua espera.

Depois, descreve: “Enquanto ela conta, eu tomo o meu café em silêncio. Mais vale ficar calado. Os poucos sonhos meus de que me consigo recordar são de uma estupidez embaraçosa.” E confessa: “Para me vingar, escrevo os sonhos que ela voa.”

Coube a Isidro Ferrer ilustrá-los. “Quando me fizeram a proposta, tive um choque de adrenalina. Fiquei eufórico, disse logo que sim. Dois dias depois, entrei em pânico total”, contou o designer durante a conferência que se seguiu à inauguração de Os Sonhos de Helena e a que chamou “Al pan, pan, y al vino, pan”. Título que haveria de explicar mais tarde ao P2. Faremos o mesmo. Aguarde.

O Museu da Farmácia inicia com esta mostra “uma nova dimensão do espaço cultural” da sede, que, nas palavras do presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), Paulo Cleto Duarte, pretende “integrar outras artes, outros conhecimentos, outros saberes e outro tipo de experiências”, além de divulgar a profissão de farmacêutico. A exposição Os Sonhos de Helena são uma parceria entre a Ilustrarte – Bienal Internacional de Ilustração para a Infância e a área cultural da ANF, tendo como curadores Ju Godinho e Eduardo Filipe.

O projecto expositivo é assinado pelos arquitectos Pedro Cabrito e Isabel Dinis, que, segundo Eduardo Filipe, criaram “uma instalação que faz a ligação poética ao ambiente do sonho que o livro traduz e ao mesmo tempo à componente desconcertante que todos os sonhos têm”.

E, afinal, com que sonha Helena? Com casas que não queremos abandonar e a que pomos rodas e trazemos pela mão (Casa que viaja); com o avô de uma amiga que há muito tempo não sonha e a quem empresta sonhos de algodão, de ar ou de asas para voar enquanto dorme (Juana); com uma dança feliz que termina mal e que a faz cair noutro país e noutro tempo (El baile); com a casa dos nomes, a que acorrem pessoas, bichos e coisas, ficando-lhes prometidos nomes sonantes (Nombres); com o querer fechar uma mala de viagem e nunca o conseguir (El fin del exilio/1).

“Quero ser sempre os outros”

Na conferência, Isidro Ferrer recordou um outro trabalho muito importante no seu percurso, o Libro de las Preguntas, de Pablo Neruda (edição Media Vaca). Trabalhou sobre ele durante três anos, leu tudo o que havia para ler do poeta e visitou as diferentes casas que habitou, “para o conhecer, saber por onde andara, o que vira, o que coleccionara, eu quero ser sempre os outros, retiro deles tudo o que posso”, contou ao PÚBLICO em 2009, quando esse trabalho esteve exposto na Biblioteca de São Domingos de Rana, no encontro Farol de Sonhos (fica-lhe bem a palavra “sonhos”). “O livro era para sair no centenário do nascimento do poeta [2004], mas saiu dois anos depois, porque entrei em colapso, bloqueei por completo”, lembrou agora, em Março, no auditório do Museu da Farmácia.

Sobre Galeano — que neste livro reúne textos de outras obras e um inédito, Casa que viaja — Isidro diz ter lido uma parte importante da sua obra e gostar “da forma como trabalha o popular, como estabelece a relação entre o sublime e o mais próximo, e também o onírico”.

Mas inquietou-se com o trabalho: “Neruda estava morto e não podia dizer: ‘Não gosto.’ Já Galeano estava vivo e eu não queria defraudar um dos meus ídolos. Estive alguns meses bloqueado. Custou-me muito a projectar e a realizar. Até que encontrei o tom, que me dá uma leitura de aproximações circundantes e perfeitas, não em linha recta, mas pela periferia.”

O ilustrador, que foi atleta na adolescência e actor na juventude, explicou como chegou às ilustrações destes sonhos de Helena: “Os sonhos produzem-se no subconsciente e afloram quando os agarras pela manhã ou quando estás consciente deles e os tentas capturar para que permaneçam. Mas eles ocorrem fragmentariamente, um sonho nunca se apresenta da mesma maneira. Então, tens de reconstruir o sonho a partir dos fragmentos, tens de os recompilar.”

Só depois de os reorganizarmos, conseguimos dar-lhes sentido e convertê-los em discurso, verbalizá-los. Para Isidro Ferrer, “o sonho move-se para lá da linguagem. Não há linguagem que espelhe um sonho”. Ou seja: “Quando contas qualquer coisa, tens de a dominar, domar, para que seja possível, para a converteres em linguagem. Essa construção, essa translação do domínio do sonho, da consciência à verbalização, requer uma transfiguração. Há uma literatização do sonho.”

Tentando concretizar: “Helena conta o sonho, que não é o sonho, mas a recordação do sonho. Eduardo literatiza o sonho de Helena. Pega em algumas partículas do sonho e converte-as em literatura. Há uma evolução do sonho, que deixa de o ser, para se converter numa coisa diferente.”

Jorge Luis Borges entra no raciocínio: “Ele dizia que a memória funciona assim: só se recorda uma vez. Alguns estudos neurológicos concluem que só se recorda a primeira vez que se recorda. A partir da primeira recordação, recorda-se a recordação da recordação. Por isso a memória está sempre viva, modifica-se e evolui.”

Isidro Ferrer juntou estas ideias e decidiu fazer o seguinte: “Ler o livro de uma forma muito intencional e deixar que passasse um tempo. Deixei que passasse um ano, para voltar aos sonhos. Mas já não voltei ao livro nem a ler os sonhos, só à memória que deles ficou a partir dos títulos. Durante esse ano, deixei que os sonhos evoluíssem na minha cabeça, da mesma forma que evoluíram os sonhos de Helena na voz de Eduardo Galeano, com o qual há um jogo similar com a construção gráfica que se estabelece com a construção literária dos sonhos de Helena.”

Foi este o processo que escolheu para construir as ilustrações, que diz conterem elementos dos seus próprios sonhos, como a luz. “Os meus sonhos são muito luminosos. Há sempre uma luz branca, quase como uma névoa.” Transferiu-a para os sonhos de Helena e iluminou-os ainda mais.

“Ser espectador não serve”

Expliquemos então o nome da conferência. Em Espanha, há a expressão “al pan, pan, y al vino, vino”, o equivalente ao nosso “pão, pão; queijo, queijo”, ou seja, chamar as coisas pelos nomes. O mesmo é dizer “esta é a realidade”, lembra Ferrer. Mas “a poesia funciona de outra maneira. Na poesia, as palavras derivam para outro território. A poesia trabalha com a metáfora, que é a ressignificação da palavra. Dar-lhe um novo significado: al pan, pan, y al vino, pan”, sugere. Na expressão portuguesa seria “pão, pão; queijo, pão”.

Propõe o ilustrador: “Porque não ressignificar as palavras e os objectos? Criar entidades novas para todos aqueles objectos que já por si configuram uma entidade única? Há que estar atento e activo, ser espectador não serve, há que actuar sobre a realidade para a transformar minimamente.”

No Museu da Farmácia pode ainda ser vista, também do designer, a Funny Farm, um conjunto de esculturas que nasceu para ser a campanha de comunicação da empresa de iluminação LZF Lamps e que resultou numa colecção de personagens produzidas artesanalmente, todas em madeira.

Alguns dos trabalhos de Isidro Ferrer com mais visibilidade são ilustrações para o diário espanhol El País, separadores para o Canal Plus, a imagem gráfica do centenário de Luis Buñuel e o anúncio televisivo para o New Beetle, da Volkswagen.

Licenciou-se em Teatro em Saragoça e interessou-se por cenografia por ser diferente da arquitectura, mas “só” realizou três obras cenográficas. Durante um ano viveu em Paris para aprender mimo. Depois afastou-se do teatro. “Foi uma renúncia terapêutica, digamos assim”, contou ao PÚBLICO no Farol de Sonhos. E explicou: “O teatro usa a mentira e a sedução em benefício próprio. Depois de algum tempo, já não és a pessoa nem a personagem. Não quero isso para mim.”

Na altura também disse que não gostava que lhe chamassem “artista”. “Sou designer, pai, ilustrador, faço cartazes, desenho em cadernos, sou amigo, curioso, artesão.” Mais: “Eu não crio nada, recrio.” E lembrou: “A palavra ‘recriar’ em espanhol remete para ‘brincadeira’ [recreio, em português]. É isso que eu faço, brinco. Deus é que cria.” Mas não acredita nele. “Os princípios religiosos são bons. Levam-nos a pensar no bem, no mal. Isso é positivo. Gosto de acreditar numa força dentro de nós, nunca acima.” Seja.