A liberdade tem muitas perguntas

Uma mini-conferência a desafiar as crianças, no mês em que o tema se impõe. Manuel António Pina, José Jorge Letria, Grândola Vila Morena, Liberdade e Malala estão lá. Também o menino sírio de Idlib.

Gabriela Trevisan
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Gabriela Trevisan Nuno Ferreira Santos

“Como sabemos que somos livres?”, “Um adulto é mais livre do que uma criança?”, “E um boneco?”, “Somos mais livres quando somos felizes?”, “Podemos imaginar ser totalmente livres?”, “Quando temos menos liberdade?”.

Tantas perguntas que a liberdade tem. Umas atrás das outras, as perguntas desfiam-se e interpelam um grupo de crianças sentadas numa quase meia lua de pufes na sala-estúdio do Teatro Maria Matos. Vieram com os pais à primeira de seis mini-conferências sobre a liberdade com Gabriela Trevisan, investigadora em cidadania e participação infantil. É o mês em que o tema se impõe, depois dos ciclos da Utopia e do Racismo.

Nesta mini-conferência, por ser para crianças, o cenário é do tamanho delas. Cadeira, mesa, cartão, é tudo mini. Gabriela Trevisan, que vai guiando a conversa, ou melhor as perguntas, diz-lhes que a preparar o encontro, para o que contou com o dramaturgo José Maria Vieira Mendes, procurou definições de liberdade nos livros para a infância. A de José Jorge Letria é que “a liberdade é um caracol a brincar com o sol” e “um gato apaixonado pela lua”. Manuel António Pina e o seu “Tesouro” vêm à conversa para evocar o que acontece onde não há liberdade. É o “país de pessoas tristes” de que ele escreveu.

Gabriela confessa-se uma estreante em mini-conferências para crianças, embora elas sejam a maior parte do seu mundo de investigação. Estudou o namoro e o amor nas crianças, as cidades e as crianças, “porque não a liberdade?”

Depois de mais umas perguntas em jeito de conversa e de umas respostas que começam a sair tímidas e hesitantes, um dos miúdos sentados à frente volta à ideia do gato. “Afinal,  o gato pode gostar de quem quiser”, isso é liberdade. Estava aberto o diálogo, com mais voluntários para a troca de ideias. O mais crescido deles não tem mais de 11 anos.

Um som de fundo, de crianças a falar, entra também no debate. A mini-audiência vai dando ideias para o tema e as circunstâncias, para chegar à conclusão de que a imaginação, o conhecimento e o cérebro são fundamentais para criar “uma história do nada”. A conversa prossegue e entram novos sons. São meninos inquiridos sobre a liberdade. Dizem que “é fazer o que se quiser sem magoar os outros”, mas também será “poder aproveitar as oportunidades que a vida dá” e talvez mesmo “estar ao pé da estátua da Liberdade”.

Ora, sintetizava Gabriela, a liberdade é “os gatos poderem apaixonar-se pela lua, pelo sol e pelas estrelas e as pessoas terem muitas opiniões sobre o que é a liberdade”.

Então esta surge como um direito, ao ouvirem um excerto da Declaração dos Direitos da Criança. “E se é um direito, não existirá para todas as crianças e tem de ser conquistada”, anuncia Gabriela, logo com uma pergunta. Onde será que isso acontece? Poucas dúvidas houve no grupo de que era “na Síria, porque há guerra”, “na Coreia do Norte, porque não se pode falar livremente”, e “em qualquer sítio onde há escravatura”.

É o momento da jovem Malala e do seu livro “Eu, Malala”, no qual narra a sua luta “pela liberdade de todos os meninos e meninas irem à escola, lerem livros e serem livres”, três direitos que lhe tinham sido roubados e que ela resgatou.

Malala ensina que não só pensou e falou sobre a liberdade, como a “conseguiu pôr em prática todos os dias”, um exemplo de “conquista” da liberdade.

A marcha do início de Grândola, Vila Morena de Zeca Afonso começa a ouvir-se e é logo reconhecida como a música que marca o momento em que “voltámos a ser livres”. Um menino levanta o braço, conta que “as pessoas não eram livres em Portugal quando Salazar estava no Governo” e sabe que o 25 de Abril é feriado “porque a partir deste dia as pessoas foram mais livres”.

Fazem caretas de espanto ao ouvirem que “no país das pessoas tristes os meninos e meninas não podiam ouvir músicas, ver filmes nem ler os livros que quisessem, não podiam beber coca-cola, os meninos e meninas tinham de andar em escolas e recreios separados, as raparigas não podiam vestir calças nem andar sem meias e os rapazes quando cresciam eram enviados para horríveis guerras em sítios muito longínquos”.

A conferência está a terminar e um dos meninos anuncia que é sírio. De que sítio? “Não sei”. A mãe portuguesa, no fundo da sala, esclarece: “Idlib”, lá onde os meninos morrem na guerra e não têm direito à liberdade.