Opinião

Da telenovela à tragédia brasileira

O que se impõe agora perante os nossos olhos é o monstro político – e eventualmente, em contraponto, judiciário – em que se tornou o Brasil.

O Brasil criou a telenovela, um dos mais populares formatos ficcionais de televisão que exportou para todo o mundo – directamente, para Portugal ou países de expressão portuguesa, ou indirectamente, para os restantes, inspirando os ingredientes de muitas séries e folhetins de carga melodramática e criminal produzidos a partir de então. Basta ver o que se passou entre nós, desde os velhos tempos de Gabriela (1975), para perceber até que ponto o imaginário telenovelesco impregnou a nossa vida quotidiana e se tornou não só a forma de narrativa dominante como também o espelho virtual da própria sociedade (com os seus dramas e intrigas passionais, familiares e, finalmente, políticos). Foi tanta a influência das telenovelas que, muitas vezes, cedemos à tentação de ver a realidade através das suas lentes ou, mais ainda, vimos desaparecer literalmente a fronteira entre realidade e ficção sempre que os acontecimentos o proporcionavam – desde os meros “fait-divers” do dia-a-dia aos chamados factos políticos e judiciais (de que o caso Sócrates será o principal expoente).

Se, entre nós, passámos a viver com frequência em clima telenovelesco (veja-se, por exemplo, o inenarrável caso do Sporting, com o seu presidente saído directamente de uma telenovela, que se desenvolveu ontem nos noticiários em paralelo com o caso Lula), que se poderia esperar do Brasil, o país onde não por acaso, certamente, nasceram as telenovelas? No momento em que escrevo, depois das cinco da tarde de sábado, e na sequência de episódios absolutamente telenovelescos, Lula anunciava por fim ir entregar-se à polícia (coincidindo em Portugal com a aparente e inevitavelmente precária pacificação do ambiente no Sporting). Só que a telenovela político-judicial brasileira envolvendo o seu antigo Presidente escondia há largo tempo um outro género: a verdadeira tragédia em que se tornou o Brasil. Uma tragédia que não se resume a Lula e à discussão apaixonada sobre a sua culpabilidade ou não culpabilidade num caso – ou vários casos – de corrupção, à coexistência ou à metamorfose de duas personagens aparentemente saídas de uma novela latino-americana: herói popular e bandido. De qualquer modo, Lula tornou-se o símbolo maior dessa enorme tragédia em que se converteu a terra prometida, o País do Futuro de Stefan Zweig (que, no entanto, acabaria por ali suicidar-se).

A 3 de Abril, o jornalista Juan Arias escrevia no site do El País-Brasil: “A política enlouqueceu? A Justiça perdeu a bússola? A sociedade está doente? Estamos todos drogados pelo veneno da irracionalidade? Como compreender que uma personagem messiânica como o ex-Presidente Lula, que foi o orgulho do seu país, se tenha transformado subitamente num homem a abater, capaz de desencadear os piores instintos?” A tragédia brasileira tem que ver com a perplexidade que estas questões levantam e a dificuldade de encontrar respostas racionais para elas. Para além da perspectiva telenovelesca, o Brasil é simultaneamente o país que Lula contribuiu para fazer sair da miséria material e aquele onde lhe são hoje cobrados os dividendos da miséria moral com a qual pactuou.

O que se impõe agora perante os nossos olhos é o monstro político – e eventualmente, em contraponto, judiciário – em que se tornou o Brasil, esse país onde a corrupção passou a ser o meio normal de fazer funcionar a máquina do poder, perante a abdicação e a cumplicidade da generalidade da classe política, da esquerda à direita. É a suposta fatalidade dessa engrenagem infernal e trágica que tem de ser superada e destruída para que o Brasil possa libertar-se dos monstros que o aprisionam e das paixões mortíferas que o condenam ao desespero.