The Americans e fazer uma série sobre espiões russos nos anos Trump: “O plano não era este”

A última temporada da série sobre a era Reagan estreia-se quando o drama da Rússia já está a dar na TV americana. Série estreou-se sexta-feira no FoxCrime. Washington olha para si mesma, para as notícias e para o espelho.

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Sabemos que vivemos tempos estranhos quando numa ponta da Pennsylvania Avenue, em Washington, o Presidente dos EUA está a ser notícia por ter dado os parabéns ao Presidente russo, Vladimir Putin, por uma vitória numa eleição de fachada, e noutro lugar na cidade várias investigações centram-se no que os antigos inimigos da Guerra Fria andam a fazer nos EUA. Entretanto, mesmo no meio desse eixo, uma estreia com passadeira vermelha de uma série que é suposto ser um drama cheio de estilo sobre a espionagem russa nos anos 1980 e que parece… bem, demasiado familiar.

Joe Weisberg, o criador e produtor executivo da série (e um ex-agente da CIA), passava entre os muitos jornalistas e fotógrafos alinhados para a estreia da sexta e última temporada da última temporada de The Americans, do canal FX e que em Portugal passa no FoxCrime. Estava claramente pouco entusiasmado com o facto de que as histórias cuidadosamente delineadas da série estarem a colidir com as manchetes e com os oráculos caóticos dos canais de notícias.

“O plano não era este”, disse Weisberg sobre a ideia de fazer uma série sobre a intromissão russa nos EUA, numa altura em que a América está focada na intromissão russa nos EUA. 

Mas qual é o problema de linhas narrativas que parecem arrancadas dos noticiários? Bom, é suposto que The Americans seja uma ficção sobre a era Reagan, não um comentário aos anos Trump. “O nosso medo que é o público tenha a sensação de que a série está a ser moldada pelo Presidente o que, para nós, quebra a autenticidade da série”, disse. “Rompe com a ideia dramática de que vivemos no passado e que trabalhámos muito para a criar.”

Keri Russell, que interpreta um dos membros do casal russo que se faz passar por um casal suburbano do estado da Virgínia, diz que a série é um olhar próximo sobre os humanos envolvidos na espionagem – na altura, mas também agora. “É sempre bom que nos lembrem das pessoas que habitam uma notícia”, disse. Mas também parecia contente com o fim da série, depois de seis anos, e com o facto de que isso significa que acabem as comparações com os acontecimentos da actualidade. “Fico contente que saiamos agora. É uma altura complicada, por isso ainda bem que já acabou.”

O actor Matthew Rhys, o marido de Russell no ecrã e fora dele, fez notar que ao menos os argumentistas estão a ver o lado positivo deste regresso do tema ao noticiário. “Acho que, de certa maneira, eles se sentem validados porque na primeira temporada alguns jornalistas questionaram – e até ridicularizaram – se o interesse da Rússia nos EUA ainda era relevante”, disse. “Por isso eles agora estão [a dizer]: ‘bem vos dissemos!’”.

Noah Emmerich, que interpreta um agente do FBI na série, defendeu mesmo que embora The Americans já não vá ter muitos mais novos episódios o elenco formado por Trump-Putin-Mueller-Manafort vai preencher o vazio. “Parece parte da nossa série, mas da sequela”, disse com um riso sardónico sobre o drama da vida real. “Talvez seja o spinoff - É The Americans, Parte Dois."

E não seria uma boa mistura de uma série passada em Washington com a vida real da cidade sem mesclar mesmo os dois mundos. Na estreia estava o congressista democrata Scott Peters, da Califórnia, que se declarou um grande fã da série – vê a série de seguida nos voos para casa. The Americans pode ser educativo, até para um membro do Congresso. “É tão interessante que a série seja tanto sobre como nos protegermos e como a Rússia se está a meter nas nossas vidas”, disse. “E, numa perspectiva macro, suscita preocupações sobre se actualmente estamos a fazer o suficiente. E teme-se que não.”

Por seu lado, Noah Emmerich assinalou quão novo lhe parece este fenómeno de aproximação entre políticos e uma estreia de uma série. “É como uma realidade invertida – estou habituado a vê-los na TV, e agora aqui estou a falar com eles”, disse. “E acho que eles estão habituados a ver-nos na televisão - é um espelho.”

Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post