Opinião

Por favor encarem o problema de frente

Não é possível conter o aquecimento global sem uma rápida mudança da dieta humana.

Com uma frequência que é cada vez maior, os políticos vão referindo publicamente as alterações climáticas que nos atormentam nos dias de hoje. Umas vezes fazem-no a propósito, outras vezes nem tanto, ficando a impressão de que é cool tocar no tema.

Que se aborde tão grave temática, faz todo o sentido. Em curto espaço de tempo vemos o nível dos oceanos a subir — por enquanto apenas devido a expansão térmica — e assistimos a mudanças cada vez mais percetíveis do clima, sobretudo na frequência e intensidade dos chamados “eventos extremos”, e nas perturbações do ciclo da água, com crescente diminuição das precipitações em muitas regiões, desde logo aquela em que nos encontramos. Outro preocupante problema com a água, embora menos mediatizado mas intimamente ligado ao aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera, é a acidificação dos oceanos. Por funcionarem como um enorme sumidouro de dióxido de carbono, as águas oceânicas têm um pH cada vez mais baixo, o que ameaça seriamente o equilíbrio das formas de vida marinha.

A maioria das figuras notáveis que publicamente apontam este problema costuma bradar para que se utilize a energia com mais eficiência, para que se aposte cada vez mais nas energias alternativas, etc., etc.. Tais recomendações são úteis, mas sejamos sinceros de uma vez por todas: não é possível conter o aquecimento global abaixo dos 2ºC conforme acordado em Cancun em 2010 sem uma rápida mudança da dieta humana. A produção de carne, de lacticínios e de ovos é responsável pela emissão total de 7,1 Gt de CO2e (Gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente) em cada ano. Ou seja, a pecuária contribui hoje tanto ou mais para o aquecimento global que todos os automóveis, aviões e barcos, no seu conjunto. E o maior de todos os problemas nem sequer é a emissão de metano pelos ruminantes, embora seja uma ameaça importante. O maior de todos os problemas causados pela pecuária é a brutal emissão de dióxido de carbono gerada pela desflorestação em busca de novas áreas para se instalarem monoculturas, especialmente soja e milho, destinadas à alimentação animal. Isto acontece sobretudo na América Latina, onde está a ser destruída floresta de alta biodiversidade para se semear milho e soja, o que converte a pecuária na principal causa de perda de biodiversidade, ao mesmo tempo que muitas centenas de milhares de pequenos agricultores são expulsos das terras onde praticavam tradicionais formas de subsistência. A produção destas culturas que conquistam terreno à floresta é principalmente exportada para países onde se consome muita carne. Observe-se que a União Europeia no seu conjunto, apesar de utilizar dois terços da sua área fértil para a atividade pecuária, mesmo assim necessita de milhões de hectares fora da Europa para satisfazer os altíssimos níveis de consumo de carne que atingiu, especialmente em certos países como Portugal, onde o nível de consumo é já um absurdo, atingindo os 112,3 kg per capita em 2016.

Estamos também perante um problema ético que consiste numa injusta competição entre os consumidores mais ricos que querem consumir muita carne e portanto muitos recursos naturais, desde logo terra, com os consumidores mais pobres, que mesmo necessitando de poucos recursos vêm a sua sobrevivência ameaçada em consequência da voracidade por proteína animal dos primeiros. Os tais pequenos agricultores expulsos das terras que exploravam na América Latina são um dos tipos de vítimas do desenfreado apetite por proteína animal nos países ocidentais, e agora cada vez mais nas chamadas economias de “transição”, com destaque para a China e o Brasil. Acresce que estas culturas destinadas à alimentação animal são fortes consumidoras de fertilizantes químicos e de fitofármacos, cujas produções são intensas consumidoras de energia, e portanto fortes emissoras de dióxido de carbono.

As Nações Unidas são seguramente uma das instituições que mais informação tem sobre esta realidade, pelo que surpreende muito ver o seu secretário-geral falar tantas vezes em alterações climáticas — como aconteceu há escassas semanas em Lisboa — mas sem abordar o mais barato, mais eficaz e por isso mais urgente passo a dar, que é inevitavelmente reduzir os consumos de carne e de lacticínios. Mas o silêncio não se fica por aqui. Seria expectável que os governos dos países onde se registam os maiores consumos de carne e de lacticínios tomassem posição sobre o assunto, quando mais não fosse para defesa da saúde dos seus cidadãos.

Um deles é claramente Portugal, com um dos maiores consumos per capita de carne da Europa, e consequentemente do mundo. Em média, cada cidadão residente em Portugal consome mais do dobro da carne recomendada pelas principais instituições de saúde, nomeadamente a Organização Mundial da Saúde. Os governos temem a reação dos cidadãos a eventuais políticas para diminuição do consumo de alimentos de origem animal, mas sobretudo temem a reação do conjunto de interesses que vive do consumo excessivo de alimentos de origem animal, e que é vasto, incluindo empresas farmacêuticas, produtores de fertilizantes químicos, produtores de equipamento agrícola, produtores de alimentos compostos para animais, grandes transportadoras, grandes redes de distribuição retalhista, etc..

Por outro lado, é obvia a tradicional “atenção” dos governos para com os agricultores nos países mais desenvolvidos. Embora com grande diferença entre países, a verdade é que no conjunto dos países da OCDE os subsídios à atividade pecuária representam ainda 19% do rendimento bruto dos criadores de animais. Estas ajudas públicas começam a ser uma indisfarçável perversidade num mundo onde o aumento da população e a exiguidade de recursos apontam cada vez mais o incremento da pecuária como um desperdício.

Perante o medo dos governos em tocar no assunto, a chamada sociedade civil está, na Europa e não só, a andar muito mais depressa que o poder político. A Alemanha é um caso proeminente de aumento da consciência coletiva no que toca a sustentabilidade alimentar. Os cidadãos mais jovens e mais instruídos deram origem a uma autêntica revolução alimentar que está em curso. Neste momento, 1% dos alemães são veganos. Cerca de 11% da população total da Alemanha é vegetariana. Mais surpreendente é o facto de 52% da população da Alemanha — mais de metade da população do país mais populoso da Europa — ser aquilo a que a literatura científica designa por flexitarian, ou seja, propositadamente não come carne durante pelo menos três dias por semana. Apesar de o consumo per capita de carne ser na Alemanha inferior ao que se regista em Portugal, consumir muita carne naquele país é cada vez mais identificado como um hábito das classes sociais menos instruídas. Este movimento faz o seu percurso um pouco por toda a Europa, com destaque para o Reino Unido, os Países Baixos, a Suécia e a Finlândia, entre outros. Na Áustria, um tradicional grande consumidor de carne, 9% da população já é vegetariana. Um caso que chama a atenção fora da Europa é sem dúvida Israel, onde 13,5% da população é neste momento vegetariana.

A procura atual de carne impõe a produção global de quase 300 milhões de toneladas por ano, o que significa o abate anual de 70 biliões de animais, para só quantificar os terrestres. Para produzir esta quantidade de carne, está a ser usada mais de 70% de toda a área utilizada para a produção de alimentos, ou seja, cerca de 30% da superfície emersa da Terra. Se nada for feito para inverter esta tendência, e considerando o aumento de consumo de proteína animal, especialmente por parte das crescentes classes médias das chamadas economias “emergentes”, em 2050 seria necessário produzir o dobro da carne que se produz hoje. Por maiores que possam vir a ser os aumentos de produtividade proporcionados pelo avanço tecnológico, o Planeta não tem recursos para satisfazer tamanha voracidade por proteína animal. Não há outro caminho que não seja o da redução do consumo de alimentos de origem animal. Por várias razões, mas também para contrariar o aquecimento global, claro está!

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico