Editorial

“Uma surpresa” é um desplante

A Cultura podia não trazer muitos votos, mas era uma flor — que com facilidade pode ir para a lapela do Bloco ou do PCP. Na luta por uma maioria, às vezes, uma flor faz a diferença.

E no princípio eram “músicos, escultores, arquitectos, escritores. Eram duas centenas de personalidades do mundo da cultura, numa acção de campanha para as primárias do PS. António Costa estava lá para receber o apoio de todos. E fez-lhes uma promessa: “A cultura tem de ter uma posição central [na sociedade], mas não basta dizer que precisa de um ministério. Sim, precisa. Mas precisa de mais: precisa de uma visão sobre qual a centralidade que tem no futuro do nosso país.”

Passaram quase quatro anos sobre esse encontro, onde Costa lhes pedia para “multiplicarem o apoio por muitos e muitos apoios”. Passaram dois anos e meio desde que Costa chegou a São Bento. E o que se multiplica hoje são críticas: “inaceitável”; “descalabro”; “incompetência”; “desnorte”; “desilusão”.

Ontem, com o circo a arder, António Costa chamou de urgência o ministro e secretário de Estado da Cultura para uma reunião. A fonte da notícia, “oficial”, diz que o primeiro-ministro foi “apanhado de surpresa” com a polémica. 

“Uma surpresa” é um desplante. Há ano e meio que o ministério anda a prometer um novo quadro de apoio às artes que resolveria os problemas. Há meses que o sector reclama mais dinheiro e outros critérios. Há semanas que o Governo anda a acrescentar, milhão a milhão, mais uns pozinhos para tentar acalmar a tempestade (um dos quais anunciado pelo próprio primeiro-ministro).

O problema, para Costa, é o de sempre: o aperto de cinto não acabou. Contas feitas, o orçamento da Cultura vale 0,2% do PIB, poucochinho para entregar “uma centralidade”.

O problema, para Costa, é também o de um ministério que empurra, decide a medo e reage sem critério — como se viu com o ministro, na RTP, a garantir que “não deixará cair estruturas que, quer pela sua história, quer pela renovação que têm sabido fazer, merecem apoio”. Se é assim, para que é que serviu o concurso?

O problema, para Costa, é que o sector da Cultura é especialmente sensível. Pode não dar muitos votos, mas é o suficiente para fazer muito ruído. Podia não trazer muitos votos, mas era uma flor — que com facilidade pode ir para a lapela do Bloco ou do PCP. Na luta por uma maioria, às vezes, uma flor faz a diferença.

A verdade, se quisermos ser irónicos, é que António Costa cumpriu a promessa que fez àquelas duas centenas de personalidades que o apoiaram há quatro anos. “A Cultura precisa de uma visão.” Pois, é o que sobra. 

Até podia acrescentar o célebre “palavra dada, palavra honrada”. Mas alguém podia achar que era uma piada sobre o nome do secretário de Estado, aquele que apareceu sozinho na conferência de imprensa de ontem à noite. Se acabar demitido, chamem-lhe uma surpresa.