Crítica

Poesia, política e tropicalismo

Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, conta a história do Cinema Novo brasileiro através de um prodigioso exercício de montagem de arquivos.

<i>Cinema Novo</i>: uma polaroid à flor da pele de uma geração de cineastas
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Cinema Novo: uma polaroid à flor da pele de uma geração de cineastas

Num momento em que o novo cinema produzido no Brasil volta a estar no centro das atenções graças a nomes como Kleber Mendonça Filho (Aquarius, O Som ao Redor), Gabriel Mascaro (Boi Neon) ou Juliana Rojas e Marco Dutra (As Boas Maneiras), já sem falar de cineastas que deram o salto para a produção internacional como José Padilha ou Walter Salles, é importante dar um passo atrás e recordar a “explosão” internacional do movimento revolucionário a que se chamou Cinema Novo. Curiosamente, Cinema Novo, estreado em Cannes em 2016, chega a Portugal na sequência do magnífico filme de João Moreira Salles sobre o Maio de 1968, No Intenso Agora, e faz sentido. O filme de Eryk Rocha funciona na mesma lógica de documentário ensaístico montado exclusivamente a partir de material de arquivo, e recusa-se igualmente a seguir uma lógica cronológica de narrativa histórica, preferindo-lhe um mergulho sensorial no período, uma colagem de imagens de época sem narração convencional. O que torna Cinema Novo ainda mais significativo é a tocante dimensão de homenagem que assume, com os filhos a recordarem os pais: Eryk Rocha é um dos cinco filhos de Glauber Rocha (1939-1981), o farol do movimento, e duas das suas irmãs são co-produtoras do filme; os herdeiros de dois outros nomes chave do movimento, Gustavo Dahl (1936-2011), crítico e realizador argentino naturalizado brasileiro, e Leon Hirszman (1937-1987), são também co-produtores.

Tudo isto para explicar que o maior trunfo de Cinema Novo — a sua ligação orgânica ao movimento que nos deu O Pagador de Promessas, Terra em Transe, Os Fuzis, Macunaíma ou Deus e o Diabo na Terra do Sol — é também o seu principal defeito. Quem nunca ouviu falar de Glauber, Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Hirszman, Ruy Guerra ou Nelson Pereira dos Santos parte em desvantagem para desfrutar ao máximo de Cinema Novo, porque o filme não oferece detalhes, raramente identifica filmes, não coloca datas. Em vez disso, temos um exercício avassalador de montagem Eisensteiniana que pretende fazer passar ao espectador a dimensão revolucionária deste cinema que ia buscar a sua inspiração aos grandes movimentos internacionais (o neo-realismo, a Nouvelle Vague, o cinema directo, o construtivismo russo) para tentar construir algo de único e de especificamente brasileiro. Um cinema indígena para um país em construção mas onde se adivinhavam já as fracturas sociais que explodiriam com a ditadura militar que chegou em 1964.

Cinema Novo é um filme “solto”, cuja ideia-chave é deixar que sejam os próprios cineastas que fizeram o movimento a contar a sua história — toda a voz-off é dos próprios e por entre os excertos de filmes Eryk Rocha integra excertos de entrevistas de época feitas aos seus autores (magnífico aquele momento de um programa francês onde vemos Marco Bellocchio, Edgar Morin e Jean Rouch ao lado de toda a geração brasileira). E o que sai daqui, mais do que a história oficial de um movimento, é uma polaroid à flor da pele de uma geração de cineastas que, parafraseando o que Maio de 1968 mais tarde diria, “eram razoáveis e pediam o impossível”. Que dizem que o Cinema Novo não foi tanto um movimento como um grupo de amigos que gostavam dos filmes uns dos outros. Que procuravam um cinema que (para citar a Terra em Transe de Glauber) fosse ao mesmo tempo político e poético, uma síntese caleidoscópica de um Brasil moderno que foi interrompido pela chegada da ditadura militar. Cinema Novo-filme faz isso em relação ao Cinema Novo-movimento: um olhar para o que foi, para o que podia ter sido e para o que nunca chegou a ser.