Opinião

Crise russa: reposicionamento do PS e fiabilidade do PSD

O Governo andou mal, muito mal. E isso não pode nem deve ser menorizado. Terá de ser corrigido, assim que possível.

1. A posição do Governo na crise russa constitui um precedente em mais de 40 anos. Esta “nova” posição causa perplexidade aos nossos aliados: mina e abala a relação de absoluta confiança que tem sido o penhor da nossa política de defesa. Os aliados tomaram “boa nota” da inércia, hesitação e ambiguidade do Estado português. Esta deriva para a neutralidade contradita a nossa escala de valores políticos, o nosso alinhamento histórico e até os imperativos básicos da nossa condição geopolítica. Esta querela não apaixona a opinião pública, mas consubstancia uma questão de princípio num eixo fundamental para a nossa segurança externa e até para a segurança interna.

Portugal devia ter-se juntado, no primeiro momento, aos seus aliados que, concertadamente resolveram expulsar pessoal diplomático das representações russas. Teria sido proporcionado ter expulsado um – e só um – desses funcionários. Ou, ao menos, ter chamado o embaixador em Moscovo em perfeita sintonia com o movimento de expulsões. O Governo andou mal, muito mal. E isso não pode nem deve ser menorizado. Terá de ser corrigido, assim que possível. Quanto mais rapidamente, melhor.

2. Não intercede aqui nem russofobia nem nenhum preconceito contra a Rússia. Seja neste espaço, seja como deputado europeu, são várias as ocasiões em que discordei da política europeia face à Rússia. Não posso estar mais convicto de que a Rússia faz parte da Europa: a cultura e a civilização europeias não seriam o que são sem o contributo russo. De resto, a globalização tem posto em relevo os traços comuns e faz da cultura russa uma das culturas europeias ou até mesmo “ocidentais”. Nada me move contra a Rússia e, muito pelo contrário, penso que a União Europeia deve buscar um modus vivendi são e construtivo com a Rússia.

Esta disposição não nos pode fazer esquecer que a actual liderança russa tem infringido gravemente princípios elementares da ordem internacional (sanciona o uso de armas químicas na Síria; ocupa ilegalmente território georgiano, ucraniano e moldavo; reprime na Tchechénia) e fomenta activamente a instabilidade nos países ocidentais, em constante ingerência nos assuntos internos de cada qual (financiando os partidos de direita e de esquerda radical; interferindo em actos eleitorais e referendos; apoiando secessionismos). O governo russo tem estado num processo de escalada, parecendo querer, a cada momento, testar e romper novos limites. Esta ofensiva de agressões e de provocações em progressão geométrica tem de ser travada e contida. Foi essa a lição do envenamento de Skripal.

3. É justamente por isto que não se compreende a ambiguidade do Governo. Nenhum dos argumentos esgrimidos convence. Primeiro, disse-se que tudo se jogava na frente bilateral, como se o conjunto de expulsões não tivesse sido acordado entre os aliados. É alarmante olhar para o mapa da Europa ocidental e ver o mais atlântico dos Estados do continente só e isolado. Depois, veio a história da paga pela eleição de Guterres, como se o Reino Unido, os EUA ou a França – todos com direito a veto – não tivessem sido tão decisivos como a Rússia. Idêntico raciocínio, embora sob regras diversas, vale para a candidatura de Vitorino: não se indispõe a Rússia, mas cria-se um enorme desconforto no bloco de aliados ocidentais. Brandiu-se ainda a dimensão da embaixada em Moscovo: a expulsão de um só funcionário seria objecto de simétrica retaliação e isso desfalcaria a representação. Eis um argumento infantil: a chamada a Lisboa do embaixador, ainda que transitória, decapita a embaixada num momento grave. Tudo mesmo incompreensível: Portugal não ganha nada junto da Rússia e perde muito junto dos seus aliados de sempre. Em Moscovo, ninguém estranha que Portugal seja o mais atlantista dos Estados europeus; em Londres, Washington ou Paris, ninguém percebe esta vocação “neo-não-alinhada”.

4. Foi precisamente pela falta de argumentos credíveis que alvitrei a hipótese de se tratar de uma concessão ao Bloco e ao PCP, sustentáculos parlamentares do Governo. Ao contrário do que para aí muitos escreveram e disseram, a hipótese era plausível e provável: Bloco e PCP são ferozmente anti-NATO e abertamente anti-UE. Mais: o PCP defende sistematicamente as posições russas e o Bloco, com a sua retórica anti-ocidental, tolera-as frequentemente. Mas se Santos Silva jura a pés juntos que estas posições em nada influenciaram o Governo do PS, nada me custa aceitar a sua jura. Fico, todavia, imensamente mais preocupado. Se não foi por pressão dos parceiros da esquerda radical, então o PS rompeu com uma visão atlantista e europeia de mais de 40 anos! A tese do condicionamento da extrema-esquerda era benigna para o PS, pois deixava incólumes as suas credenciais euro-atlânticas…   

5. Estranhamente, e tirando o Presidente da República – cuja intervenção foi interpretada em sentidos diversos –, só o PSD foi claro e inequívoco na condenação da posição do Governo. O CDS manteve-se tímido e discreto, à espera de explicações que ainda não vieram. O PSD, diferentemente, foi fiel à opção geopolítica e geoestratégica que garante a nossa defesa e segurança. Assim mostrou aos portugueses e aos aliados ser absolutamente confiável – coisa de que o PS agora não dá mostras. Confiável no melhor da sua tradição, tradição que aqui, num magnífico artigo, Teresa de Sousa parece ter esquecido. O governo Sá Carneiro reagiu energicamente à invasão do Afeganistão e o primeiro Governo Cavaco caiu por defender expressamente o não reconhecimento da anexação da Estónia pela URSS. Foi, aliás, injusta com o europeísmo de Cavaco, que, apesar de sermos neófitos na adesão, ainda assim, conseguiu a Secretaria-Geral da UEO para o embaixador Cutileiro (que teria depois um papel relevante na tentativa de solução do drama jugoslavo). Sintomaticamente, veio pela mão de um Governo PSD, um primeiro compromisso europeu na área da defesa. Com um interesse nacional essencial não se brinca, nem se joga.

Sim

Tropas portuguesas na RCA. O Presidente visitou-as e motivou-as. O sentido de missão de que deram prova no domingo, em condições muito arriscadas e adversas, é um exemplo para todos nós.

Não

Governo israelita. Por mais tensa que seja a situação na fronteira da faixa de Gaza, não pode tolerar-se a morte indiscriminada de manifestantes. A legítima defesa de Israel não justifica tudo.