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Abram-lhes as portas das escolas e podem nascer Futuros Presidentes

Luís Mileu e Ricardo Henriques percorreram o Norte de Moçambique em busca dos "futuros presidentes" do país. Nas imagens e textos deles está a possibilidade do sonho: "Se estas crianças tiverem acesso à educação podem ser tudo". Assembleia da República recebe a exposição a partir de dia 11 de Abril

Em macua, idioma falado no Norte de Moçambique, a palavra futuro não existe. E isto é todo um tratado sobre um país. Luís Mileu e Ricardo Henriques evocam o pormenor do dicionário ao falar dos meninos e meninas moçambicanos que conheceram durante a sua viagem de 11 dias pelas províncias de Cabo Delgado e Nampula. Que sonhos são possíveis quando o futuro é uma ideia extraterrestre? Ricardo Henriques recorda-se bem do olhar de estranheza de um menino quando lhe perguntou se não pensava em viajar e conhecer outros países. Do sonho de uma menina da segunda classe que queria ser professora da primeira. Das respostas mil vezes repetidas à pergunta “o que queres ser quando fores grande?”. “A falta de referências marcou-me muito”, conta o escritor e ilustrador, a lamentar o mundo de horizontes curtos a que as crianças são ali votadas.

Por encomenda da Big Fish, agência que trabalha a comunicação da Organização Não Governamental (ONG) Helpo, a dupla portuguesa viajou em Fevereiro até ao país africano para ali desenvolver um trabalho para uma exposição. A Futuros Presidentes — que estará na Assembleia da República (AR) a partir de 11 de Abril — carrega consigo uma mensagem de esperança: “Se estas crianças tiverem acesso à educação podem ser tudo, inclusive presidentes”, explica Ricardo Henriques, ao telefone com o P3. E Luís Mileu, fotógrafo e designer, acrescenta: “Esse mote definiu a ambição do projecto. É um lado aspiracional e serve para mostrar que tudo é possível. Queríamos levar esse princípio do sonho às comunidades”.

Foram 20 as comunidades rurais que visitaram em duas das províncias moçambicanas onde actua a Helpo, associação que apoia populações desfavorecidas e chega a mais de 19 mil crianças. Luís tinha a missão da imagem, Ricardo a das palavras. À chegada a Moçambique, esperava-os Carlos Almeida, coordenador da ONG no país e cicerone dos portugueses nos mais de dois mil quilómetros que percorreram. Pediram-lhe a “maior diversidade possível”: meninos e meninas, histórias diversas, religiões distintas. Muitas vezes, eram os próprios professores das escolas que visitavam que seleccionavam os mais despachados para serem fotografados e entrevistados. “Mas o à vontade deles é relativo”, conta Ricardo Henriques, 41 anos, a lembrar a timidez dos pequenos.

Alguns factores jogavam contra a dupla que já tinha trabalhado em conjunto no projecto Americans 45. A cor da pele diferente, a língua das etnias que não dominavam. E, mais importante, as referências tão distantes como os dois países. Quando Ricardo Henriques perguntava às crianças o que queriam ser quando fossem grandes, ouvia quase sempre a mesma resposta: professor, médico, enfermeiro, polícia. Ao verem alguns dos alunos tímidos, os professores tentavam desbloquear a conversa, dando-lhes precisamente estas hipóteses. Um dia, Ricardo Henriques interferiu: “Deixe-o escolher, não condicione. Ele pode querer ser astronauta.” Mas não podia: “Ele não sabe o que é ser astronauta”, respondeu-lhe um professor a chamá-lo à realidade.

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Era um outro mundo. Ricardo Henriques tinha estado em Moçambique antes, mas na capital — e “Maputo é Nova Iorque como dizem os próprios moçambicanos”. Luís Mileu, 45 anos, já sabia ao que ia: em 2011 tinha percorrido parte do país mais esquecido num projecto para a Fundação Gonçalo da Silveira. “Algumas das entrevistas eram feitas nas bibliotecas das escolas. Uma pessoa pensa que o saber está ao alcance deles, que havendo livros é fácil. Talvez seja. Mas a verdade é que há uma certa deferência em relação aos livros que faz com que mesmo estando ali eles não lhes peguem”, procura explicar Ricardo.

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"Uma imaginação subnutrida"

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A “ideia romântica” que temos em relação à imaginação prodigiosa das crianças é ali uma utopia: “Precisam de uma base para isso, se não tiverem dificilmente podem desenvolver”, lamenta Ricardo, autor de alguns livros infantis. Num dos textos que escreveu para o diário da viagem que foram alimentando cita O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro: “Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.” Mas ao entender a genética do país percebeu que o poema do heterónimo de Pessoa ganhava ali outro significado. “Há poucos meninos e meninas que vêem além da encruzilhada mais próxima. Têm uma imaginação subnutrida.”

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Na ilha de Moçambique cruzaram-se com algumas excepções. Crianças com um discurso mais estruturado, como um deles que lhes confidenciou que não queria ser presidente porque “dava muito trabalho”, mas que pensava em ser arquitecto. E um outro que, numa escola onde havia uma linha de caminho-de-ferro próxima, tinha o sonho de ser maquinista.

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Nestas zonas, “está praticamente tudo por fazer”, lamenta Ricardo: “Nem imagino como seria se não houvesse uma ONG como a Helpo a ajudar.” Em 38 comunidades rurais e 52 centros de intervenção, a associação constrói escolas, bibliotecas, creches, centros de nutrição, cantinas escolares, sistemas de aproveitamento de águas pluviais, dá formação comunitária, educação para a saúde, assistência e formação contínua. 

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É um encargo complexo. “Os moçambicanos são um povo muito simpático, vivem para o dia-a-dia”, aponta Luís Mileu, um dos mais populares instagramers portugueses. Mas se isso os torna especiais também acarreta complicações extra: “Tem implicações em coisas tão simples como ir à escola: se tiverem outras coisas para fazer se calhar já não vão”, aponta. Em Nampula, Luís viu a Helpo fintar o problema com estratégias engraçadas: uma vez por semana, oferecem um lanche especial, mas nunca dizem em que dia vai ser. “É uma forma de os incentivar a ir à escola”, diz. “Numa altura em que tantas ONG são postas em causa é interessante ver que há ONG que funcionam.”

A exposição que agora chega à AR, com o patrocínio do Presidente da República, é também um pedido de apoio da Helpo, que financia as suas actividades com um programa de apadrinhamento de crianças, donativos livres e projectos financiados por agências internacionais e empresas. Neste mês de Abril, os contribuintes podem ajudar também consignando 0,5% do IRS à associação.

Nas paredes do Parlamento português vão estar 20 histórias, rostos de futuros presidentes talvez. Olhares especiais. É que, apesar da timidez, aqueles meninos e meninas “têm uma dignidade no olhar que é transversal a todos e é incrível”, aponta Luís Mileu, que já fotografou um pouco por todo o mundo e garante nunca ter visto nada igual. “É diferente até do resto de África. Há nestas crianças uma intensidade desconcertante.”