Opinião

À espera da próxima crise?

A relação entre as taxas de juro de curto e longo prazo parece antecipar o regresso do “urso” aos mercados financeiros.

As crises e as situações de “exuberância irracional” nos mercados financeiros não são fenómenos recentes. Com efeito, desde a famosa “Tulipomania”, no século XVII, passando pelas perturbações bancárias do século XIX até à Grande Depressão de 1929, as crises têm surgido como fases de ajustamento violento a grandes tensões que se vão acumulando sobre os mecanismos de funcionamento dos mercados, provocadas por comportamentos mais emotivos por parte de alguns agentes que acabam por ter um efeito catalítico sobre os restantes, em imprevisíveis comportamentos de massa. 

Sobre a História que nós próprios, como protagonistas, estamos a escrever, olhemos para aquilo que mais recentemente marcou o processo em que emergiu a mais recente crise, aparentemente já ultrapassada.

De entre os elementos premonitórios dever-se-á salientar a adoção de políticas monetárias acomodatícias por parte dos principais bancos centrais, com efeitos significativos ao nível das taxas de juro e, consequentemente, sobre a liquidez nos mercados financeiros internacionais e sobre os preços dos ativos reais e financeiros (i.e. bolha no mercado imobiliário e mercado financeiro).  

De igual forma, importa salientar o papel desempenhado pelos produtos financeiros complexos, assentes, nomeadamente, no risco de crédito (i.e., SIV’s, CD0’s, MBS’s, etc.) aos quais foram atribuídas notações de rating claramente acima dos fundamentais e que permitiram uma excessiva transferência do risco de crédito das instituições financeiras originadoras de crédito para as instituições gestoras das poupanças dos pequenos aforradores.

Por fim, a excessiva desregulamentação das atividades nos mercados financeiros, associada a uma alavancagem da atividade dos bancos para níveis históricos máximos num quadro de diluição das diferenças entre a atividade da banca de investimento e da banca comercial, que reforçaram os canais de transmissão entre estas duas áreas de atividade com consequências severas na atividade económica mundial.    

Sendo certo que ao longo destes dez anos foram tomadas diversas medidas que visaram, por um lado, estabilizar os mercados financeiros e, por outro, reforçar a robustez do sistema financeiro em geral e do sistema bancário e segurador em particular, também é verdade que outros fatores de risco (ou alguns dos antigos mas com outras “roupagens”) parecem emergir “corroendo” de forma “silenciosa” o período de alguma estabilidade em que vivemos.

De entre estes fatores destaca-se os impactos assimétricos que uma eventual descida/subida acentuada dos preços do petróleo poderão ter em algumas das grandes economias; ii) as fragilidades do mercado de trabalho e o reduzido crescimento potencial na Europa; iii) os riscos de bolha imobiliária na China e o eventual credit crunch; iv) bem como o potencial impacto negativo que as regras de Basileia III/Solvência II colocam à existência de um mercado concorrencial bem como aos investimentos de longo prazo.

De igual forma, persistem sinais de uma reduzida perceção dos agentes económicos face ao risco de mercado (i.e. Índice Dow Jones registou uma valorização de cerca de 58,1% nos últimos dois anos), bem como ao risco de crédito (i.e. a República do México colocou recentemente a sua primeira emissão de divida a 100 anos denominada em euros e na Europa os custos de financiamento continuam a ser negativos para algumas das economias).

Por outro lado, o “apetite” dos investidores por ativos financeiros menos convencionais parece ter assumido contornos de dimensões imprevisíveis (entre 17 de novembro e 16 de dezembro de 2017 a Bitcoin valorizou 153%, tendo desvalorizado 66,9% desde essa última data até 6 de fevereiro de 2018). 

Por fim, e talvez não menos relevante, importa analisar com algum detalhe o comportamento de duas variáveis financeiras. Por um lado, a volatilidade do mercado acionista, representada pelo índice VIX, tem-se situado nos últimos meses, e tal como na véspera da crise de 2007, em valores mínimos históricos. 

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Por outro lado, a relação entre as taxas de juro de curto e longo prazo, traduzida no comportamento recente da curva de rendimentos da dívida pública norte-americana (i.e., Treasuries), parece antecipar o regresso do “urso” aos mercados financeiros.

Na realidade, todas as grandes crises económicas foram precedidas por um declive da curva de rendimentos (i.e., diferencial entre as taxas de juro a dez anos e as taxas de juro a dois anos) próximo de zero ou negativo (i.e., taxa a dois anos maior do que taxa a dez anos).

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Não sendo esse valor negativo, o certo é que o declive da curva de rendimentos norte-americana assume atualmente valores muito próximo de zero (0,56 pontos percentuais em 31 de janeiro de 2017), em linha com o observado nas vésperas das crises de 1987, 2000 e 2007. 

Em face do anterior, não será difícil afirmar que as palavras de Phil McGraw (Dr. Phil do The Oprah Winfrey Show) estão mais atuais do que nunca: “Don’t wait until you’re in a crisis to come up with a crisis plan.”

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico