Violência no desporto: legislação há, é preciso é aplicá-la

A incontinência verbal dos dirigentes clubísticos e os excessos dos comentadores televisivos são os grandes inimigos do futebol nacional. Conferência parlamentar sobre a violência no desporto abordou o tema.

Bruno de Carvalho esteve na Assembleia da República
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Bruno de Carvalho esteve na Assembleia da República LUSA/MÁRIO CRUZ

Não será por falta de legislação que a violência no desporto, e no futebol em particular, não é, definitivamente, erradicada em Portugal, apesar de ter de haver espaço para melhorias, especialmente na sua aplicação. Mais complicado é controlar a incontinência verbal dos dirigentes dos principais clubes e os excessos dos comentadores desportivos televisivos, que estão na génese do crescente clima de crispação.

Não é, exactamente, uma novidade, mas foi uma das conclusões do debate Violência no Desporto, que decorreu esta terça-feira na Assembleia da República. Uma discussão que contou com as presenças dos presidentes do Benfica e Sporting. E se Luís Filipe Vieira optou pelo silêncio, Bruno de Carvalho partiu para o ataque, lembrando que os clubes “são o único garante de o futebol ainda ter adeptos”.

Desdramatizando o efeito das declarações públicas dos dirigentes clubísticos para uma escalada da violência no futebol, Bruno de Carvalho preferiu apontar o dedo ao que chamou de “lixo tóxico” produzido pelos programas desportivos televisivos.

“Mais importantes do que os jogadores e os treinadores são os clubes, que são o único garante para o futebol ainda ter adeptos, porque as entidades que regulam o futebol estão a afastá-los”, defendeu durante o primeiro painel do debate, intitulado “A violência no desporto vista pelas organizações do fenómeno desportivo”.

Visados durante a manhã, os órgãos de informação televisiva defenderam-se na sessão da tarde, no painel “Violência no desporto: que papel para a comunicação social”. E se Bruno de Carvalho desdramatizou o efeito das suas palavras nas águas agitadas do futebol português, os representantes das três principais estações de televisão também chutaram para canto a sua quota-parte de responsabilidade.

Cláudia Lopes, editora de Desporto da TVI, admitiu o papel das audiências para a existência dos polémicos programas de debate dedicados ao futebol. Mas justificou esta opção pela falta de acesso às imagens dos jogos, exclusivos dos canais por assinatura que têm o exclusivo da transmissão das partidas. “Temos de fazer programação sem elas. Por isso discutimos o tal lance, porque é isso que prende as pessoas e é muito difícil de fugir”, explicou.

A jornalista admitiu que terá de ser reforçada a diferenciação entre jornalistas e comentadores (que Bruno de Carvalho diz escapar à maioria dos cidadãos), já que os segundos não estão condicionados com um código profissional.

Do lado da SIC, Ricardo Costa, director de informação do canal, aproveitou para criticar a nova lógica comunicacional que norteia os clubes, que passaram a usar os seus próprios meios comunicacionais para produzirem informação. “Não faz sentido que esses canais próprios se transformem em veículo único de comunicação das próprias estruturas dos clubes”, referiu, sublinhando que esta realidade impede um verdadeiro trabalho jornalístico, que está limitado às conferências de imprensa.

Um trabalho jornalístico que é ainda mais dificultado pela falta de condições dadas pelos clubes aos profissionais de informação, como salientou a presidente do Sindicato dos Jornalistas.

“Inúmeras situações de risco iminente, tentativas de agressão, limitações e constrangimentos, condições de trabalho precárias, ameaças graves, tentativas de impedir o trabalho dos jornalistas, conferências de imprensa com adeptos que interferem no trabalho jornalístico, violência verbal e insultos, agressões, ataques recorrentes e cada vez mais inflamados”, enumerou Sofia Branco, citando um relatório elaborado pelo organismo que lidera e que já foi enviado ao Parlamento, à Procuradoria-Geral da República, ao Ministério da Administração Interna e às entidades policiais.

Um pouco antes desta intervenção, no painel “Justiça e a violência no desporto”, ficou a saber-se que os adeptos de sete clubes foram responsáveis por 98% dos incidentes verificados pela PSP na temporada transacta. Não é preciso muito para adivinhar: Benfica, Sporting, FC Porto, Sp. Braga, V. Guimarães, Boavista e Belenenses.