Trump volta a atacar imigrantes e ameaça o México

Depois de a Fox News ter mostrado imagens de uma "caravana" de imigrantes ilegais que tentavam chegar aos EUA, Trump volta a criticar o DACA e insta os republicanos no Congresso a passar “leis duras" contra a imigração.

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Trump atribui a entrada de imigrantes sem documentos às autoridades fronteiriças mexicanas Reuters/YURI GRIPAS

Não há acordo para legalizar o estatuto dos dreamers, os imigrantes sem documentos que entraram nos EUA durante a infância. Quem o diz é Donald Trump, numa nova leva de tweets, neste domingo. O Presidente norte-americano insta os republicanos no Congresso a activar a “opção nuclear” e passar “leis duras [para os imigrantes sem documentos]”. Trump acusou ainda o México de fazer “pouco, se não nada” para impedir a entrada ilegal de imigrantes pela sua fronteira com o Norte e ameaçou acabar com o NAFTA (o acordo de comércio livre com o México e o Canadá) se os mexicanos não apertarem o controlo fronteiriço.

O Presidente dos EUA voltou a salientar a sua oposição à legalização de imigrantes não documentados ao abrigo do programa Deferred Action for Childhood Arrivals (conhecido como DACA), criado em 2012, durante a era Obama. Trump tentou pôr fim ao programa em Setembro de 2017, dando seis meses ao congresso para arranjar uma alternativa para os dreamers. A verdade é que Março chegou, mas no Orçamento aprovado pelo Congresso não havia referência aos dreamers. O programa tenta proteger migrantes sem documentos que chegaram ao país durante a infância, atribuindo-lhes vistos de estudo ou trabalho.

Trump tentou chegar a um acordo com os democratas, garantindo-lhes a continuação do programa em troca de fundos para construir o muro na fronteira com o México, uma das suas promessas eleitorais. No entanto, Trump tem rejeitado todas as propostas sobre imigração dos congressistas democratas ao longo dos últimos meses.

“Os agentes de controlo fronteiriço não podem fazer o seu trabalho em condições por causa de leis liberais (democratas) ridículas de 'deter e libertar'. É cada vez mais perigoso. As caravanas estão a chegar”, escreveu Trump, no domingo. “Estes grandes grupos de pessoas estão a tentar aproveitar-se do DACA”, declarou o Presidente.

Os tweets referiam-se a “caravanas” de mais de 1200 pessoas que chegavam maioritariamente das Honduras e que tentavam passar a fronteira com o México, com destino aos EUA, onde iriam tentar conseguir asilo. As imagens foram divulgadas durante o programa Fox & Friends, um dos preferidos de Trump. As “leis ridículas” a que se refere são as libertações dos imigrantes detidos, por não serem vistos como potencialmente perigosos pelas autoridades norte-americanas.

Aparentemente Trump acredita mesmo que a imigração ilegal se deve ao DACA. Repetiu-o em declarações aos jornalistas, antes de entrar para a missa pascal, em Mar-a-Lago, a sua casa de férias na Florida. “Muita gente entra porque quer tomar partido do DACA, e nós vamos mesmo ter de rever isso”, disse, citado pela BBC. “Tiveram uma oportunidade, os democratas acabaram com tudo”.

As suas declarações mostram desconhecimento sobre o DACA e sobre quem se pode inscrever para ser abrangido pelo programa. Lembra o Washington Post que, para se candidatarem, os migrantes têm que cumprir cumulativamente três regras: devem estar no país desde 2007, terem chegado antes dos 16 anos de idade e terem menos de 31 anos de idade até Junho de 2012. Ninguém que entre depois dessa data no país se pode candidatar. Só os que já têm direito aos vistos no âmbito do programa é que se podem candidatar a uma renovação. Aproximadamente 800 mil pessoas estão protegidas actualmente pelo DACA.

Trump culpa o México de “fazer muito pouco, se não nada”, para impedir que os migrantes entrem pela sua fronteira com o Norte. “Eles [os mexicanos] riem-se das nossas leis de imigração estúpidas”, escreveu o Presidente. “Têm que parar com as entradas em massa de pessoas em droga, ou eu vou ter que acabar com a vaca leiteira deles, o NAFTA”, ameaçou Trump, referindo o acordo de comércio entre os países da América do Norte.

Críticas vindas do Sul e dos dois lados do Congresso

O México prepara-se para escolher o seu próximo presidente a 1 de Julho e está, neste momento, a renegociar o NAFTA em conjunto com a administração norte-americana. Tanto o actual Governo como os dois principais candidatos à Presidência já reagiram às declarações de Trump.

Luis Videgaray, ministro dos Negócios Estrangeiros, lembrou no Twitter que o México e os EUA trabalham juntos na questão da imigração: “Uma cobertura noticiosa imprecisa não devia questionar esta cooperação tão forte. Defender a dignidade e os direitos humanos não se contrapõe ao Estado de Direito. Páscoa Feliz!”

O candidato de esquerda, Andrés Manuel López Obrador, prometeu uma atitude mais dura para com os EUA se for eleito: “O México e o seu povo não vão ser a piñata de nenhum governo estrangeiro”, disse, citado pela Reuters, num discurso em Juaréz. “Não é com muros nem com o uso da força que se resolvem problemas sociais”.

Já o candidato conservador Ricardo Anaya Cortés desafiou Trump a lidar com as questões de segurança no seu lado da fronteira. “Percebemos que o Governo dos EUA esteja muito preocupado com a migração sem documentos para os EUA, mas também estamos muito preocupados com o comércio de armas dos EUA para o México”, disse, citado pela BBC.

Nos EUA, as críticas vieram do seu próprio partido. O seu rival nas primárias, John Kasich, governador do Ohio, escreveu no Twitter que “um líder a sério preserva e dá esperança, não tira esperança a crianças inocentes que chamam lar à América”.

“Vezes sem conta, o Presidente afasta propostas de ambos os partidos que são exactamente o que ele pediu”, disse Drew Hammill, um porta-voz da líder da minoria democrata Nancy Pelosi. “Quando se chegar a um acordo para proteger os dreamers, vai ser posto em prática mesmo que o Presidente não queira, em vez de ser sob a sua liderança”, disse, citado pelo Washington Post.

“Caravanas” vindas das Honduras e Guatemala

Organizadas por uma associação de voluntários chamada Pueblos sin Fronteras, mais de 1200 pessoas percorreram três mil quilómetros a pé para fugir da pobreza e dos desacatos que se sucederam à reeleição de Juan Orlando Hernandéz, nas Honduras, no ano passado. Estes migrantes passam pelos países de forma ilegal, e, na passagem pelo México, as autoridades locais não fizeram nada para os deter.

"A maioria das pessoas aqui estão a fugir de violência criminal e política dos seus países, e isto permite-nos salvar vidas”, disse, a representante do grupo Pueblo Sin Fronteras, Gina Garibo, à Reuters, reiterando que o objectivo desta caravana é proteger pessoas vulneráveis.