Entrevista

“Sucesso eleitoral da oposição venezuelana não lhe trouxe poder”

Michael Coppedge, especialista em Política Comparada na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA), analisa algumas das eleições deste ano na América Latina.

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Manifestação da oposição venezuelana com cartazes de Leopoldo López em Julho de 2017 Andres Martinez Casares/NARCH30/REUTERS

As instituições cubanas são fortes e não dependem assim tanto dos Castro como se achava, diz Michael Coppedge, que não prevê grandes mudanças quando Raúl Castro se aposentar.

As presidenciais venezuelanas parecem decididas à partida. Como vê a fragilidade da oposição?

A oposição está dividida, numa posição fragilizada e é compreensível que esteja a debater se participa ou não nas presidenciais. Teve momentos de grande unidade, como quando obteve uma maioria de dois terços nas legislativas de 2015 ou nas últimas presidenciais [2013]. Mas depois ficou compreensivelmente desmoralizada, quando o Governo criou a Assembleia Constituinte para assumir a competência legislativa. Percebeu-se que o sucesso eleitoral não trouxe à oposição qualquer poder. É difícil argumentar que a oposição deve concorrer, sabendo-se que as eleições não serão justas nem livres. Por outro lado, também é compreensível que se defenda a participação, por ser a única opção que resta à oposição.

A Colômbia acolherá as primeiras presidenciais desde o processo de paz com as FARC. A eleição será um voto favorável ou contrário ao acordo de paz?

O processo de paz foi um dos acontecimentos mais promissores das últimas décadas na América Latina. Mas depois assistimos a perseguições violentas aos candidatos das FARC, que comprovam que o eleitorado permanece dividido. Ainda assim, penso que o resultado do referendo ao acordo de paz [2016] não foi totalmente representativo da opinião pública. Muitas pessoas que eram a favor da paz assumiram que o compromisso seria ratificado e não foram votar – tal como aconteceu com o referendo do “Brexit”. Por isso acredito que a maioria é favorável aos acordos de paz. Mas é claro que existe uma minoria muito descontente, que acredita que os ex-guerrilheiros deviam ter sido punidos de forma mais severa e que o acordo foi muito generoso. [Álvaro] Uribe está neste grupo e continua a ser um líder influente.

Podemos adivinhar grandes transformações políticas com o fim da ‘dinastia’ Castro, em Cuba?

Há 20 anos muitos acreditavam que quando Fidel Castro morresse tudo iria mudar em Cuba. E ainda acreditam que acontecerá o mesmo quando Raúl Castro largar o poder. Parece-me, no entanto, que se moderaram as expectativas e que se começa a entender que não é provável que o sistema político se altere demasiado. As instituições que governam Cuba não dependem assim tanto de quem as lidera, ou pelo menos não tanto como que se achava. São bastante fortes e por isso não prevejo grandes mudanças.