Torne-se perito

Como ficcionar a memória usando veludo vermelho

Paula Diogo, Sónia Baptista, Mariana Ricardo, Estelle Franco e Masako Hattori convocam para o Teatro Maria Matos fragmentos de reflexão em torno da memória. Sobre Lembrar e Esquecer coloca-nos diante do abismo e da relação entre memória e identidade.

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Iva Toguri d’Aquino foi condenada, em 1949, por crime de traição contra a pátria. Nascida em Los Angeles, estava no Japão de visita a uma tia doente quando rebentou a II Guerra Mundial e por lá ficou retida. Começou então a trabalhar para um programa radiofónico intitulado Zero Hour, em que se desdobrava em números de comédia e pequenas sínteses informativas. Ficou conhecida como Tokyo Rose (figura que se veio a provar nunca ter existido, na verdade) e foi acusada de usar a rádio como meio de propaganda anti-americana, com programas apontados para desmoralizar as tropas dos Estados Unidos. De regresso ao seu país, foi julgada, cumpriu um terço da sentença que lhe impunha dez anos de encarceramento, teve de lutar contra a deportação para o Japão e, finalmente, em 1977, o Presidente Gerald Ford concedeu-lhe o perdão por parte do Estado.

A história de Tokyo Rose intromete-se no espectáculo Sobre Lembrar e Esquecer, criado por Paula Diogo, Sónia Baptista, Mariana Ricardo, Estelle Franco e Masako Hattori – Teatro Maria Matos, Lisboa, entre 3 e 7 de Abril –, a partir da recuperação da gravação de um dos programas de Aquino. “Ela tinha um discurso absolutamente humorista, mas que era supostamente de propaganda anti-americana”, recupera Sónia Baptista. “Usamos um excerto transcrito de um programa dela num tom jocoso, mas que não é traição coisíssima nenhuma.” O caso interessa-lhes porque só passados quase 30 anos sobre a condenação a memória da sua suposta traição foi rectificada. Numa peça construída por vários quadros encadeados em torno da ideia de memória, cada trecho pode funcionar como uma espreitadela pela fechadura para uma zona distinta do que significa lembrar e esquecer. Do que significa querer lembrar e também querer esquecer.

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Essas pistas tanto levam as cinco na direcção de filmes como Vertigo, de Alfred Hitchcok, ou Hiroshima, Meu Amor (mais uma ligação à II Guerra Mundial), de Alain Renais, assim como de notas deixadas para uso próprio na luta contra a erosão da memória, através de lembretes constantes como “não me posso esquecer de que prefiro chá verde a café” ou “tens pai e mãe, gostas de dançar”, numa tentativa de retardar que a identidade se apague ao mesmo tempo do que os pormenores biográficos. De certa maneira, foi por aí que o encontro entre as criadoras começou. Nos últimos cinco anos de vida, enquanto a sua saúde se deteriorava, a avó de Paula Diogo foi registando num caderno aquilo que se recordava ainda da sua vida, pequenos dados como se fossem galhos a que se pudesse agarrar para contrariar o esvaziamento biográfico que se anunciava.

“Esse é o ponto de partida para o nosso encontro”, confirma a actriz. “Queria trabalhar com elas e, na altura em que comecei a tentar levantar este espectáculo, estava envolvida noutros dois projectos. Comecei a achar que os três se relacionavam porque, na minha cabeça, falavam sobre a mesma coisa, embora de perspectivas diferentes. Depois, quando resolvi falar com elas, falei-lhes desse caderno.” Esse relato real, de umas poucas páginas escritas em que a avó de Paula escrevera onde e quando tinha nascido, que profissão desempenhara durante a vida, onde tinha morado ao longo da vida ou os nomes dos filhos, serviu sobretudo como desbloqueador criativo, um estímulo para que, a partir desse momento, cada uma se sentisse livre de lançar para a mesa qualquer ideia sobre a memória e o seu desaparecimento.

Aos poucos, continua Paula Diogo, com a conjugação das ideias que reuniam o entusiasmo colectivo, ao mesmo tempo que descartavam outras tantas possibilidades e assim iam afinando o tom do espectáculo, foi sendo traçado “um mapa de identidades que não era exclusivamente autobiográfico, mas que reflectia como estas cinco pessoas se relacionam com o mundo”.

E que se prendem, muitas vezes, com medos do que está por vir, mas também com o confronto com quem se foi. Estelle, por exemplo, apresenta-nos em palco uma árvore genealógica pejada de casos de Parkinson e de Alzheimer, ela enquanto última peça de um dominó que parece tombar cada elemento da família com um de dois fins degenerativos. Sónia, por outro lado, tenta despertar em palco uma coreografia há muito adormecida em si. “É uma coreografia de 2012 e não a ensaio porque quero mesmo ter dificuldade em lembrar-me. Assisti ao vídeo para ver o que fazia, mas é uma memória do corpo. As coisas estão cá dentro mas às vezes não saem. É um bocadinho angustiante, porque sei que o corpo sabe, mas não consigo aceder quase nada a esse saber. Estou a criar a minha própria ficção, o meu ‘veludo’ [o veludo explica-se no parágrafo seguinte] em relação ao movimento.”

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A casa

Sem terem recorrido a regressões para desenterrar as memórias mais antigas, as quatro apontam no sentido de Estelle no que toca à fabricação ou adulteração das próprias memórias. Gémea de um rapaz, Estelle diz lembrar-se exactamente do dia em que nasceu. “É uma história que a minha mãe contava e acho que é uma lembrança que tenho”, clarifica. “Tenho um irmão que nasceu mesmo antes de mim, eu ainda estava na caverna, ele agarrou-me e disse-me ‘Há muita gente à tua espera, vem comigo’. Lembro-me de tudo à volta – dos tapetes, das cores, do veludo vermelho.”

O veludo vermelho, é impossível não reparar, parece um prenúncio da sua vida de palco. E neste, em que decorre Sobre Lembrar e Esquecer, o cenário formado por placas amovíveis parece construir um lugar de protecção e de intimidade dentro do qual as memórias e, por consequência, a identidade de cada um poderá estar a salvo da predação do tempo. “A casa como sítio a partir do qual criamos a nossa identidade e nos relacionamos com o mundo”, propõe Paula Diogo. Ou enquanto “sítio do qual é muito difícil abrir mão”, acrescenta Sónia Baptista.

A casa, defendem, é o lugar simbólico de uma vida que ainda comporta normalidade e humanidade, algum controlo sobre os dias. Depois de ser abandonada, é como se um corte profundo com o passado rasgasse o contacto com a ordem e restasse pouco mais do que um imenso abismo. “Aqui não é bem uma casa”, compara Sónia, “mas acho que convida ao sonho de um espaço onde se deixam, onde se perdem ou onde se encontram as coisas.”

Um espaço carregado de memórias. Reais, adulteradas, sofridas, indecifráveis.

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