Opinião

Coisas da bola

Dada a óbvia atractividade do futebol enquanto mercado global, diversas empresas decidiram apostar na comercialização de dispositivos e sistemas que permitem adquirir informação sobre o desempenho, físico e técnico, de jogadores, tanto em contexto competitivo como de treino.

Uma ou duas vezes por semana – ao longo de todo o ano, com excepção de parte do período estival – sou possuído por uma febre rubra que deixa os meus vizinhos em sobressalto. O fenómeno agrava-se quando os jogos não são na catedral, dado que entre o momento do lance e o impropério espaçam 40 segundos (uso o mesmo link do Inácio). As mãos suam, a garganta seca, sem grande proveito além daquele que somente os que comigo partilham a doença percebem.

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No tempo que me sobra, além das aulas que vou dando e de ir contando mentalmente quanto tempo falta até esta hora e meia voltar a acelerar o meu coração, estudo e desenvolvo (juntamente com uma equipa fixe) “sistemas embebidos”.

O objectivo é implementar dispositivos que permitem captar grandezas físicas (como a temperatura ou a humidade, por exemplo) e digitalizar os seus resultados. Hoje, estes dispositivos, ou “coisas”, estão conectados entre si e, em geral, com a internet, dando lugar ao que se convencionou chamar a Internet das Coisas (Internet of Things).

Estes dispositivos situam-se numa fronteira entre o “mundo real” (de onde retiram informação e a padronizam) e o “mundo digital”. Dispositivos que podem ser desenhados com dimensões muito reduzidas de modo a poderem ser implantados no corpo de animais, e mesmo de seres humanos, ou incorporados em wearables (entre outros, peças de vestuário, revestimento de bancos, relógios, pulseiras, etc.). Não se pense que é uma tarefa fácil. São inúmeros os desafios que se apresentam à sua aplicação, como, por exemplo, os relacionados com a autonomia energética, a segurança, a fiabilidade e a escalabilidade (isto é, a capacidade para lidar com um número crescente de dispositivos).

A informação relativa a grandezas físicas, “reais”, capturada pelo dispositivo é digitalizada e enviada para um Coordenador, regra geral, através de um sistema de comunicação sem fios. Este Coordenador funciona com um gateway capaz de receber e enviar informação para centenas de outros dispositivos. Mais, como este gateway está ligado à internet, a informação recolhida por todos estes aparelhos pode ser reunida e catalogada em bases de dados alojadas na famosa “Nuvem” (Cloud). Aqui, algoritmos de Inteligência Artificial (Machine Learning) podem ser usados para processar toda a informação recolhida e identificar padrões e, consequentemente, extrair modelos de interpretação e estabelecimento de causalidades. Estes processos permitem um contínuo acompanhamento da evolução do(s) fenómeno(s) ou conjunto de fenómenos que estão a ser monitorizados e, assim, alertar para situações anómalas ou variações inesperadas.

Ou seja, os dispositivos possibilitam a codificação digital de grandezas físicas. Permitem ainda implementar a componente física dos sistemas ciber-físicos. Trocando por miúdos, estes sistemas são todos os dispositivos e aplicações que permitem transmitir de e para a “Nuvem” a informação, processá-la e, após um processo de tomada de decisão baseado na informação armazenada, desencadear acções que incidem sobre o “mundo real” (coisas tão “simples” quanto ligar uma lâmpada ou alterar a concentração de cloro na água). Estes processos constituem o âmago da Transformação Digital que enforma a nova revolução industrial (a Industry 4.0, que se traduz nas dinâmicas crescentes de digitalização da informação considerada relevante, com origem no mundo “físico”).

É aqui que este meu part-time se revela de alguma utilidade para aquilo que realmente importa. Dada a óbvia atractividade do futebol enquanto mercado global, diversas empresas decidiram apostar na comercialização de dispositivos e sistemas que permitem adquirir informação sobre o desempenho, físico e técnico, de jogadores, tanto em contexto competitivo como de treino. Para o caso de se terem perguntado antes: é isso que explica os “soutiens” (os tais wearables) usados pelos jogadores do Benfica. Não tenho resposta para o facto inexplicável de não serem vermelhos.

Estas pequenas “maquinetas” permitem adquirir a mais variada informação sobre cada um dos “artistas” do desporto-rei. O batimento cardíaco do Jonas, a velocidade média do Pizzi, o número de passos e toques na bola do Krovinovic e a posição absoluta (GPS com serviços de correcção) da dupla Jardel-Rúben, por exemplo. À medida que decorre o treino ou o jogo, esta informação é digitalizada, catalogada e armazenada na “Nuvem”. Posteriormente, aplicações de software especificamente desenhadas para o efeito fazem o tratamento de toda a informação recolhida e permitem à equipa técnica aferir o desempenho de cada um dos jogadores. A informação pode ainda ser cruzada com dados obtidos por outras vias, como resultados de análises clínicas, permitindo à equipa médica aferir o estado físico dos jogadores e adequar o seu plano de treinos individual (não me parece que esteja a resultar no Glorioso mas a culpa não é da engenhoca).

Dito isto, ninguém me tira da cabeça que, durante os referidos, e “sagrados”, 90 minutos, os adversários do Glorioso correm muito mais do que contra outros adversários. Em breve, poderemos ter acesso a dados que comprovam que esta convicção é apenas uma consequência nefasta da deliciosa febre rubra contra a qual a ciência nada pode. Mas, fazendo um esforço para ser (parecer) neutro, poderemos também chegar à conclusão que a reacção contra a tecnologia aplicada ao futebol é uma luta contra moinhos de vento.

Até porque, para ver Coisas antigas, basta ir à sala de troféus de um certo adversário.