Entrevista

“Teólogos, políticos, jornalistas, médicos e serviços psicológicos dependem do nosso pavor”

A professora britânica Joanna Bourke escreve sobre o medo e a sua evolução ao longo dos séculos. Quais são os nossos medos?
Foto
Joanna Burke é autora de vários livros de história DR

Joanna Bourke é professora de História no Birkbeck College da Universidade de Londres. É também fellow da Academia Britânica. Autora prolífica sobre tópicos como a violência sexual, a guerra e as emoções, publicou Fear: A Cultural History (2005), What It Means To Be Human (2011) e The Story of Pain (2014).

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

PÚBLICO –O seu trabalho tem sido fundamental para demonstrar a importância do estudo das emoções como material empírico para compreender a história e a sociedade. Pode explicar porquê? 
Joanna Bourke – O estudo histórico das emoções estava na sua infância quando escrevi Fear: A Cultural History (2005). O medo, o ódio, a alegria e o amor estão no centro da experiência histórica, mas tendiam a ser desvalorizados na historiografia. Eu tinha escrito uma série de livros sobre a guerra e a mortandade e tinha a consciência de que não estava, na verdade, a captar as experiências das pessoas propriamente ditas. As minhas histórias eram “emocionais”, mas nunca questionaram o que é a emoção. Como é que as pessoas apreciaram as respostas emocionais na altura? Que linguagens estavam disponíveis para que elas comunicassem o que estavam a sentir? O que as pessoas chamavam “medo” nos anos de 1970 era a mesma coisa que nos de 1870? Basicamente, o que é o “medo”?

O medo é inerente à condição humana. É moldado por condições históricas que condicionam as suas variações “políticas” e “psicológicas”. Em que medida é que uma abordagem histórica do medo pode melhorar os modos como pensamos sobre a vida social, passada e presente?
Uma das coisas que me entusiasmaram quando comecei a trabalhar sobre as emoções – e o medo em particular – foi o modo como variavam significativamente ao longo do tempo. Costumavam dizer-me que o medo da morte é uma constante humana. Não é. No que diz respeito ao medo, a secularização da morte é o aspecto mais importante. No período moderno, a eficácia dos apelos aos moribundos de que deviam temer a omnipresença e a omnipotência de Deus, acompanhados por avisos de existência literal do fogo do inferno, diminuiu. Hoje em dia, menos pessoas invocam uma divindade quando procuram lidar com a morte inevitável. O medo do julgamento divino foi substituído pela metáfora da viagem rumo a um abismo desconhecido, um “nada” aterrador.

Mudaram muitas outras coisas...
Neste vazio, surge o médico de bata branca. Enquanto em meados do século XIX menos de um décimo das mortes ocorria em hospitais, hoje mais de metade das pessoas morre numa cama de hospital. Paradoxalmente, a mudança do acontecimento da morte das casas próprias para os hospitais tornou-o um episódio crescentemente privado e assustador. Ao ser negado o acesso à intimidade do leito de morte doméstico, menos pessoas testemunham a morte de outrem em primeira mão. Ficaram crescentemente inseguras quanto ao modo de se comportar perante a morte ou sobre que “regras de sentimento” se devem aplicar. O guião da morte tornou-se misterioso e, como consequência, mais atemorizante.

E quanto à preferência sobre o tipo de morte?
Há uma mudança muito importante. No passado, uma morte lenta era preferida, pois permitia ao moribundo a purificação da sua alma antes de encontrar Deus. Não podia ser mais afastado do sentido contemporâneo da morte, no qual, para muita gente, a morte súbita é a opção favorita. Mas, pelo contrário, os transplantes de órgãos, os sistemas de suporte de vida, a alimentação intravenosa, a diálise e as técnicas de ressuscitação prolongaram de modo dramático o processo da morte. O medo do prolongamento excessivo da vida ou o de ser obrigado a ficar vivo depois de todo o prazer ter desaparecido tornou-se mais predominante do que o medo da morte em si mesmo. A “qualidade de vida” sobrepõe-se às vantagens que poderiam ser obtidas pela purificação da alma.

E qual foi o efeito dessa “medicalização”?
A medicalização da morte mudou as ideias sobre se a morte era (ou devia ser) intimidante. Para muitos teólogos do início do século XX e de períodos anteriores, era considerado apropriado temer a morte. O medo é a pedra sobre a qual Cristo construiu a sua igreja. Pelo contrário, os médicos assumiram uma tarefa distinta: a da tranquilização.

Fear recupera inúmeras experiências de medo que hoje parecem risíveis. Em que sentido é que as sociedades modernas transformaram as categorias e as experiências do medo?
É esse o foco do meu livro, em vários sentidos. Alguns capítulos centram-se em espaços que são particularmente assustadores – traumas externos como desastres, terrorismo e guerras e traumas internos como fobias e pesadelos. Outros capítulos tratam de temas aterrorizantes na história de todos os indivíduos, como a vulnerabilidade, o corpo decadente e a morte. Em todos os casos, o choque entre a subjectividade individual e as normas sociais definiu o que significa ter medo. 

Há um argumento, avançado por exemplo por Jean Delumeau no seu clássico Le Péché et la Peur (O Pecado e o Medo, de 1983), que afirma que a ascensão da razão e da ciência, e o associado declínio da magia, conduziu a uma redução substancial do medo. Discorda. Porquê?
Eminentes historiadores como ele, na sua magistral história das emoções europeias no período moderno, pretendiam que nós acreditássemos que o declínio da magia no século XVIII, associado à expansão da ciência e do pensamento racional, devia ter levado, nos últimos dois séculos, à redução proporcional do medo. A sua convicção estava errada. Reflectia uma sensação de optimismo que caracterizou o século XX. Para muitos contemporâneos, o medo tinha sido conquistado devido aos avanços tecnológicos e científicos. O mundo estava sob controlo. A prosperidade e a segurança estavam disponíveis para todos. Não precisávamos de ter medo.

E hoje em dia?
No século XXI, essa convicção parece tristemente desajustada. Podemos viver num mundo mais seguro e afluente, mas estamos obcecados com o medo. Espaços de segurança tornaram-se profundamente perigosos: a superbactéria staphylococcus aureus surge nas alas dos hospitais. Somos atacados de todos os lados por inimigos invisíveis e desconhecidos. A radiação “vaza” silenciosamente para o meio ambiente. Quando nos sentamos para tomar o pequeno-almoço, os nossos cereais podem conter quantidades perigosas do pesticida EDB (ethylene dibromide), a bactéria clostridium botulinum pode estar no nosso iogurte de avelã, a salmonela pode estar nos nossos ovos. O nosso café pode causar cancro no pâncreas. Apesar do decréscimo dos níveis de criminalidade, o medo do crime é galopante. As alterações climáticas não só mudam insidiosamente o meu mundo como ameaçam a sobrevivência futura dos nossos filhos e netos. Muitas pessoas sentem que já não temos nenhuma forma realista de calcular a seriedade das ameaças provocadas pela energia nuclear, a poluição ambiental ou o terrorismo. O perigo parece estar em todo o lado.

Níveis mais altos de esperança de vida e melhores condições de vida, para lá da mera subsistência, são características dos nossos tempos, apesar de tudo. Como é que esta evolução condicionou os modos como as pessoas lidam com os seus medos?
Os nossos medos voltaram-se para dentro. Há uma distinção útil que podemos fazer: entre “medo” e “ansiedade”. De acordo com a definição mais comum, a palavra “medo” remete para uma ameaça imediata e objectiva. “Ansiedade” diz respeito a uma ameaça antecipada e subjectiva. Desde meados do século XX, os povos europeus experienciaram um declínio nas ameaças externas à sua existência. Em sentido contrário, as ameaças subjectivas aumentaram exponencialmente. Os terrores dos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial já não nos apavoram. Em vez de recear a fome, as pessoas estão mais preocupadas com o empobrecimento relativo, por exemplo, serem forçadas a vender a sua casa ou o seu carro, ou com a ansiedade provocada pela perspectiva de sofrerem um enfraquecimento da sua auto-estima. Não é por acaso que a palavra “ansiedade” se tornou mais popular.

E o que pode explicar isso?
Os nossos medos foram convertidos em ansiedade em razão da revolução terapêutica. Enquanto no passado o indivíduo amedrontado podia recorrer ao conselho e conforto da comunidade ou da instituição religiosa – dinâmica que envolvia frequentemente um “outro” maléfico –, com o progredir do século, a emoção tornou-se crescentemente individualizada. Foi apropriada pelo terapeuta ou pelo movimento contemporâneo da “auto-ajuda”. Como consequência, nós sentimo-nos incapazes de tomar medidas para neutralizar ou escapar do perigo de modo consciente. 

A expansão de direitos sociais, políticos e económicos de acordo como categorias de género, de classe ou de “raça” sempre despertaram respostas alarmistas. Porque é que acha que isto sucede?
Este processo de identificar um outsider – alguém “no outro lado do perímetro do arame” – tem consequências horríveis. A pessoa ou o grupo culpados pela ameaça podem ser insultados ou mesmo atacados como resultado. No século XX existiram vários bichos-papões, sobretudo diversos tipos de “estrangeiros”. Esta é uma das contradições no coração do medo.

Pode desenvolver?
No processo que envolve lidar com ameaças atemorizadoras, através da definição de quem está “dentro” e quem está “fora”, as pessoas assustadas aumentam o risco de serem ainda mais ameaçadas. Respostas alarmadas a ataques terroristas são exemplos claros: fechando fronteiras, cessando ajuda e promovendo ataques preventivos, antagonizando um número crescente de indivíduos em Estados hostis. Muitos outros exemplos podiam ser mencionados. Em tempos de guerra, por exemplo, os militares eram mais susceptíveis de cometer atrocidades quando estavam aterrorizados. Isto levou os seus inimigos, igualmente assustados, a responder com uma violência semelhante ou superior.

As “políticas do medo” estiveram muito ligadas à expansão da esfera pública e foram fomentadas pelas inovações tecnológicas na comunicação. Qual foi o impacto dos media na sua propagação como instrumento político?
Em vez de nos educar e tranquilizar, a revolução comunicacional das últimas décadas tornou-nos mais ansiosos. A vasta expansão dos media ao longo dos séculos XX e XXI permitiu publicitar perigos numa escala sem precedentes. Fazem-nos parecer quase sem limites. Ansiedades sociais relativas à reputação cresceram à medida que as relações mais íntimas com vizinhos e com a comunidade local se expandiram ao ponto de incluir uma massa anónima de estranhos navegando na Internet.

Mas qual é a responsabilidade dos media?
Os media não podem ser culpados sozinhos. O medo é manipulado por inúmeras organizações interessadas no seu fomento, enquanto prometem poder erradicá-lo. O medo circula no interior de uma abastada economia de poderosos grupos de interesse que dependem da sua capacidade de nos manter amedrontados. Teólogos, políticos, jornalistas, médicos e serviços psicológicos dependem do nosso pavor. Apesar da proliferação de discursos sobre o medo, a sua erradicação nunca foi verdadeiramente promovida: a substituição de discursos incitadores do medo tem sido o objectivo, não a sua extinção.