Opinião

Nós, os que esperámos à porta do Lux

A morte de Manuel Reis – fundador de espaços tão emblemáticos quanto o Lux, o Frágil, o Pap’Açorda, a Loja da Atalaia ou a Bica do Sapato, todos eles em Lisboa – deu origem a uma longa série de obituários e textos celebrativos da sua existência, adoptando invariavelmente um tom de tal forma íntimo, encomiástico e hiperbólico (tipo: Manuel Reis para o Panteão!) que algumas pessoas acharam que talvez houvesse ali um certo exagero. Carlos Vaz Marques escreveu a esse propósito: “Confundir o cu com as calças: achar que Manuel Reis (empresário) foi Salgueiro Maia.” Houve quem lhe tivesse respondido que Salgueiros Maias havia muitos e Manuel Reis só um.

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Não pretendo, de forma alguma, desvalorizar o papel que Manuel Reis teve na noite de Lisboa, e das duas ou três vezes que falámos, a propósito do projecto de reconversão do Mercado da Ribeira em Time Out Market Lisboa – eu estive inicialmente envolvido e Reis desempenhou um papel importante –, só posso confirmar tudo o que de bom foi dito acerca dele. Era, de facto, um magnífico cavalheiro, com um gosto impecável e um prazer evidente em ajudar pessoas novas a investir na cidade. Ainda por cima, fazia-o de forma absolutamente desinteressada. Tudo junto compunha um homem de qualidades raras, e por isso compreendo muito bem a comoção dos seus amigos.

A estranheza está na desproporção das reacções, e na capacidade que uma certa elite lisboeta tem de transformar o particular em universal. Manuel Reis não transformou o país, nem sequer Lisboa. Manuel Reis – sobretudo para aqueles que lhe chamavam Manel – transformou as vidas da elite artística, jornalística e cultural de Lisboa, e de todos os que fazem da noite burguesa, intelectual, endinheirada e libertina (não é uma crítica) uma primeira casa. Foram estes, e só estes, que reagiram na semana passada como uma tribo que acabou de perder o seu xamã. Não há mal nisso. É até muito compreensível – desde que a tribo saiba que é apenas uma tribo. Ou, para citar a mais famosa frase da carreira de Mário de Carvalho, desde que não confunda o género humano com o Manuel Germano.

Infelizmente, esta tribo em particular, até por estar muito habituada a pôr-se ao lado dos “excluídos”, tem nítidas dificuldades em admitir o quão elitista é o seu mundo. Ela nunca teve de esperar nas filas do Lux, e pode chamar Guida Gorda a Margarida Martins sem ser acusada de body shaming, mas não percebe que o elogio exorbitante a Manuel Reis é também uma autocongratulação pelos seus próprios privilégios. O texto mais emblemático que li sobre Reis foi escrito por José Couto Nogueira no Sapo24, e é muito revelador quanto a isso: “E os que não conseguiam passar da porta [do Frágil]? Uma amiga que viveu esses tempos contou-me o que era passar a franquia da zona dos comuns para o espaço lá dentro – e como, ao entrar, se sentia a validação de fazer parte do clube exclusivo da elite cultural.”

Manuel Reis era um elitista – só que teve a sorte, e o mérito, de trabalhar para a elite certa. Couto Nogueira, mais uma vez: “O critério [de entrada] era sobretudo estilo – não um estilo em particular, mas um estilo diferente, pessoal, original. Uma atitude. Coisas difíceis de definir, sobretudo para quem não as tem.” Lamento: João Carlos Espada poderia dizer o mesmo da gentlemanship. As homenagens a Manuel Reis são muito bonitas de ler, mas põem a nu este terrível paradoxo: até o nosso mais vistoso cosmopolitismo é tristemente paroquial.