Alexander Nix é um Vilão de Bond, génio da tecnologia ou vigarista?

Quão eficientes eram os métodos vendidos pela empresa Cambridge Analytica, acusada de abusar de milhares de perfis do Facebook para ajudar a eleger Donald Trump e outros políticos? Há muitas dúvidas. O Parlamento britânico quer voltar a ouvi-lo.

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Alexander Nix guarda a sua privacidade ferozmente Joshua Bright/Washington Post

A imprensa do Reino Unido e os deputados britânicos – e até os seus antigos funcionários – não se entendem quanto à caracterização do misterioso, sofisticado e aprumado Alexander Nix, o fundador da Cambridge Analytica, a empresa mastigadora de dados que se gabou de ter ajudado Donald Trump a vencer as eleições e que agora é suspeita de ter violado a privacidade de dezenas de milhões de utilizadores do Facebook.

Muitos deputados britânicos, norte-americanos e de outros países querem ouvir mais explicações da boca de Nix. Mas ele desapareceu dos radares desde que foi suspenso da empresa – foi afastado depois de ter sido apanhado por uma câmara escondida a gabar-se de que os seus funcionários conseguiam chantagear rivais políticos em terras distantes com mulheres ucranianas.

Nix deverá agora prestar declarações no Parlamento britânico a 17 de Abril.

Na terça-feira, foi descrito como uma espécie de Dr. Evil por um deputado da comissão do Parlamento britânico que investiga a Cambridge Analytica (bem como o Facebook e as notícias falsas), enquanto se questionava em voz alta, na Câmara dos Comuns, se Nix não teria encarnado o papel de líder da SMERSH, a némesis de James Bond nos primeiros livros de Ian Fleming.

Na mesma audição na Câmara dos Comuns, o antigo director de pesquisa na Cambridge Analytica que agora aponta o dedo acusatório às actividades da empresa, Christopher Wylie, disse que não via muito de 007 em Nix – via, isso sim, um vigarista.

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"Nix é um vendedor, não tem qualquer experiência em psicologia, tecnologia, marketing ou política", disse Wylie Toby Melville/REUTERS

Um vendedor

“Ele é um vendedor; gosta de vender coisas”, disse Wylie aos deputados britânicos, explicando que a função de Nix enquanto director executivo da Cambridge Analytica era atrair clientes, e não escrever algoritmos.

“Ele não tem qualquer experiência em psicologia, tecnologia, marketing ou política”, disse Wylie ao Washington Post.

O antigo funcionário da Cambridge Analytica disse também que Nix e a sua empresa não queriam saber se estavam a violar a lei em países em desenvolvimento, desde que conseguissem dar vitórias eleitorais aos seus clientes – na Nigéria, no Quénia, no Gana e nas Caraíbas.

Questionado sobre qual será o futuro próximo de Nix, Wylie – um apoiante do "Brexit" com o cabelo pintado de cor-de-rosa e brinco no nariz – sugeriu: “A cadeia?”

Christopher Wylie disse também aos deputados da comissão parlamentar que aquilo que Nix lhes contou no mês passado sobre o uso de dados do Facebook pela sua empresa foi “excepcionalmente enganador e desonesto”.

A empresa nega ter feito algo de errado e Nix garante que não usou dados do Facebook de forma imprópria. O Washington Post tentou falar com Nix através de mensagens de texto e chamadas telefónicas, mas o fundador da Cambridge Analytica não respondeu.

Um janota de Eton

Alexander Nix chegou em 2003 ao Grupo SCL, a empresa-mãe da Cambridge Analytica, que foi fundada em 2013 com dinheiro do mega-doador do Partido Republicano Robert Mercer, em parceria com Steve Bannon, antigo conselheiro do Presidente Trump.

O homem que liderou a polémica empresa até à sua suspensão, tem fama de ser um comunicador refinado, um perito em fechar negócios que usa fatos de Saville Row como se fossem armaduras para travar batalhas em hotéis na África e na Ásia – e para vender de forma agressiva o seu produto, que, segundo o seu discurso, estava a influenciar pessoas e a ganhar eleições.

“Ele tem um discurso formatado, que passava por dizer que a empresa tem os melhores e os mais geniais funcionários a trabalhar nos melhores escritórios das melhores ruas de Londres e Cambridge – e aproveitava sempre para dizer que estudou em Eton”, disse Wylie.

“Era tudo pensado para apresentar aos clientes uma aparência muito refinada, o que cai bem em países em desenvolvimento da Commonwealth.”

“Apenas trabalhamos para os partidos políticos instituídos”, disse Alexander Nix numa entrevista ao site Tech Crunch imediatamente após a vitória de Trump, em Novembro de 2016. “Conservadores, trabalhistas, republicanos, democratas. Mantemo-nos longe dos partidos extremistas ou de grupos de minorias. Não estamos a tentar promover uma revolução.”

Nix frequentou o exclusivo Eton College e, depois disso, a Universidade de Manchester. Trabalhou na banca e na finança, na Cidade do México e em Londres, entre os 20 e os 30 anos de idade.

Mas, ainda assim, há alguns espaços em branco na sua biografia.

A Internet diz-nos que ele joga pólo, até muito bem, numa equipa chamada Libertinos. Há muitas fotografias dele montado nos seus cavalos. Mas os seus amigos do pólo deixaram de atender os telefonemas dos jornalistas.

É casado? Tem filhos? O jornal Daily Mail noticiou a existência de uma “grande casa na zona Oeste de Londres, que ele e a namorada, a herdeira norueguesa Caroline Paus, compraram por 4,5 milhões de libras [5,1 milhões de euros] em Fevereiro de 2012”.

No seu depoimento no Parlamento britânico, a 20 de Março, Christopher Wylie disse que, numa ocasião, a equipa da Cambridge Analytica teve de adiar uma reunião porque Nix ia comprar um lustre no valor de 280 mil libras (319 mil euros).

Três dos seus antigos funcionários disseram ao Washington Post que Nix era, alternadamente, agressivo, ameaçador, mentor, encantador, impostor e genuíno. Um antigo funcionário, que recusou ser identificado porque assinou um contrato de confidencialidade, disse que Nix era um dedicado homem de família.

Um sócio que trabalhou com Nix em 2012, na preparação para as eleições no Quénia, disse que “ele era muito agressivo, um daqueles tipos que dizem ‘sou extremamente fino e, por isso, sei muito bem o que estou a fazer’”.

Em perfis publicados nos media antes do escândalo da Cambridge Analytica, Nix era aclamado como “um génio”. Mas extremamente reservado. Uma vez, ameaçou abandonar uma entrevista que começara com perguntas básicas sobre família e formação, queixando-se de que ninguém queria saber que tipo de cereais comia ele ao pequeno-almoço.

Banha da cobra?

Apresentado como uma estrela de rock no círculo das conferências sobre tecnologia, Nix dizia de forma provocatória que tinham chegado ao fim os dias dos anúncios inteligentes feitos por criativos para atrair consumidores, e que tinha começado uma nova era em que era possível isolar os eleitores através dos perfis psicológicos dos seus medos e esperanças mais profundos.

Em contraste, os concorrentes diziam que Nix era apenas um vendedor ambulante a tentar vender banha da cobra. Ou, como escreveu um colunista do Financial Times: “Um tipo dos anúncios que inflaciona o valor da sua empresa de recolha de dados. Há muitos deles por aí.”

Nix foi suspenso do cargo de director executivo da Cambridge Analytica, “enquanto não chega ao fim uma investigação completa e independente”. A decisão foi anunciada horas depois de o Channel 4 britânico ter transmitido um segmento em que Nix é filmado a gabar-se de que a sua empresa conseguia pôr funcionários a fazerem-se passar por magnatas para subornar políticos estrangeiros.

Em declarações à BBC, Nix disse que tinha usado muitas hipérboles, e que apenas tinha feito a vontade à equipa do Channel 4 – que se fez passar por potenciais clientes. Foi uma desculpa que não correu bem.

A comissão parlamentar que está a investigar as notícias falsas e o Facebook pediu a Nix que regresse ao Parlamento britânico, dizendo que o testemunho de Fevereiro pode ter sido enganador – o regresso deve ser a 17 de Abril. “Também estamos interessados em questioná-lo, mais uma vez, sobre a sua afirmação de que ‘não trabalha com dados do Facebook’, que foi contestada pelas recentes revelações na imprensa britânica e norte-americana.”

A carta termina com um aviso: “Prestar falsas declarações perante uma comissão de investigação é um assunto muito sério.”

O Supremo Tribunal britânico concedeu um mandado de busca ao comissário da Informação para vasculhar os ficheiros e servidores da Cambridge Analytica em Londres. Os investigadores passaram sete horas nos escritórios da empresa.

Horas antes das primeiras denúncias, Alexander Nix disse à BBC que a Cambridge Analytica foi abordada em 2014 por “um académico muito respeitado”, o psicólogo Aleksandr Kogan, da Universidade de Cambridge, “que disse que tinha meios, legítimos e legais, para recolher dados sobre utilizadores do Facebook que nós poderíamos usar no nosso modelo”.

No decorrer da investigação académica de Kogan, o Facebook deu-lhe acesso aos dados de 57 milhões de utilizadores do Facebook (cerca de 300 mil utilizadores que instalaram uma aplicação sobre perfis psicológicos e os amigos deles), de acordo com o que o professor de Cambridge escreveu num resumo da sua investigação. 

O fundador e director executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, acabou por pedir desculpa pela “quebra de confiança”.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post