Neca e Manuel Serrão deram-lhe o Aves

Até então, tudo parecia confirmar que o clube de futebol seria uma fatalidade genealógica ou geográfica, herdado dos nossos, ou do lugar onde nascemos ou crescemos. Parecia. Pretérito imperfeito. Júlia Pinheiro obrigou-nos a deixar cair as nossas verdades absolutas.

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João Portugal e agência Glam Celebrity

Ao que parece, o amor clubístico pode nascer como qualquer outro amor: de um acaso, de um encontro, de um momento. “Um dia, há trinta e muitos anos, estou com o meu marido e ele compra um jornal desportivo da zona Norte do país. Eu não tinha nada para ler - e tenho de estar sempre a ler qualquer coisa - e aquilo acabou por me vir parar às mãos e dizia assim a primeira página do jornal: Professor Neca… ora, quando lês professor Neca, é logo uma pessoa que te interessa, não é? [risos] E na manchete: ‘Neca: vou levar o Aves à estratosfera do futebol, qual passarinho’. Quando lês isto, tu percebes: Neca, precisas de mim. Neca é para vida“.

Júlia era, a partir desse momento, simpatizante oficial do Desportivo das Aves. Estranhamente. “Eu nunca tive clube de futebol. Normalmente vamos sempre sendo do clube da família, mas em minha casa não aconteceu. O meu pai não ligava muito a futebol. Caso-me então com um sportinguista ferrenho - quase doente pelo Sporting - e nem assim a coisa me mordeu. O meu marido tentou uma vez levar-me a um jogo. Correu mal. Levei um livro para ler.”

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Júlia e o futebol

É preciso enquadrar Júlia. Ela, agnóstica de futebol desde sempre, que não se tinha deixado contagiar pelo amor virulento de Rui Pêgo, que levara um romance ao estádio para desaborrecer, que descobrira o Desportivo das Aves numa manchete, e que nunca tivera qualquer afinidade de sangue, ou outra, com a Vila das Aves, era agora, Avense.

Depois de ter tropeçado no Desportivo das Aves, Júlia abraçou-o em ‘segredo’, e um dia confessou-se. “Anos mais tarde chega um programa chamado ‘A Noite da Má Língua’, onde eu era constantemente massacrada pelo Manuel Serrão, que é mais ou menos doente - em paliativos - pelo Porto. Houve um dia que o Manuel massacrou-me tanto, tanto, tanto: ‘Porque tu tens que ter um clube, tu és do Sporting, tu não queres é dizer que és do Sporting’. Eu lembrei-me do Neca, e disse: “Eu sou do Desportivo das Aves”.

Júlia deve o Aves ao professor Neca e a Manuel Serrão, mas uma vez ali, bateu-lhe forte. Nasceu, entre ela e o Desportivo das Aves, uma ternura monstruosa. “Chega imediatamente um caixote de Vila das Aves com camisolas, cachecóis, um cartão como sócia honorária, uma bola de futebol toda assinada pelos jogadores à época do plantel, uma ternura completa e absoluta e uma gratidão imensa, daquelas pessoas, por eu ter dito que era do Desportivo das Aves. Agarrei no cartão do Desportivo das Aves e disse: és para a vida.”

Talvez este seja, para muitos, um clubismo improvável ou uma meia-verdade. Desenganem-se: a apresentadora que gostava de ter sido arqueóloga, e que tem – na verdade – um temperamento vocal bem mais sóbrio e macio do que se pensa, é conhecida de todos, mas - como se vê - nem todos a conhecem. É uma conversadora deliciosa, que fala por todos, mas que sabe retirar-se com gentileza para dar palco a quem mais precisa de falar. Como está exposta horas de mais, precisa de se recolher no silêncio de um livro. Tem uma cabeça rara, língua crítica, mas também come cabidela e chouriças, e é do Desportivo das Aves. E quem entendeu isto, já entendeu tudo. “Porque é que eu elegi a cabidela e as chouriças como elementos fundamentais da minha identidade, como figura da comunicação? Porque a comida e os alimentos são niveladores. Todos temos de comer e todos gostamos disto ou daquilo, e se tu falares às pessoas naquilo que é mais transversal, que é a alimentação, os produtos típicos e característicos de uma região, aquilo que é absolutamente da nossa geografia emocional, as pessoas identificam-se imediatamente. Se eu falar numa chouriça, toda a gente me entende e consegue ter uma conversa comigo, seja qual for o seu grau de diferenciação social, cultural ou intelectual. O Desportivo das Aves é exactamente a mesma coisa.”

Um não-sei-quê que não se explica

Júlia tem pelo Aves um não-sei-quê de afectividade maternal, de quem gosta, cuida, e só quer que corra tudo bem, sempre. E tal como dá voz às pessoas e às histórias mais simples, em belos e genuínos momentos de comunicação, que chegam a resolver vidas, também leva o Aves ao peito e para o palco. “Sempre que eles ganham eu apareço no programa com um cachecol. Na mesa que está ao meu lado, a minha caneca é do Desportivo das Aves. É uma questão de coerência com aquelas gentes. É um símbolo, é uma ligação minha. É uma maneira de eu comunicar, se quiseres.”

Chega a ficar numa “excitação imensa” quando ganha o clube da Vila das Aves. “Eu vibro - e fico feliz - pelas pessoas. Porque os conheci, porque conheci o presidente do clube, porque conheci as pessoas do clube, porque os juniores estavam lá, e os pais deles, porque percebi que aquele é um dos motores da terra. A minha ligação não é pelo fenómeno desportivo, pelos pontapés na bola, pela perícia, se o plantel vale 10 milhões ou se vale 50. Estou-me nas tintas para isso tudo. O que eu quero é que aquela gente se divirta. Que aquela terra tenha ali uma espécie de símbolo. E têm.”

Chamem-lhe comunicadora como poucas, ou Oprah daqui do sítio, mas a verdade é que este tipo de coisas, sabem ao melhor serviço público. “O desporto é uma coisa integradora, é uma coisa niveladora de classes, é uma coisa de comunidade, é por isso que eu sou do Desportivo das Aves. É um tipo de amor.”