Entrevista

“Vai haver uma competição pelos trabalhadores rurais na Europa”

Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, defende que, ao cooperarem, as organizações de produtores de frutas, legumes e flores em Portugal ganham espaço negocial com a distribuição no mercado interno. E mais clientes lá fora

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Sebastião Almeida

Com um orçamento anual de 600 a 800 mil euros para a promoção externa, o sector das frutas, legumes e flores exportou 1.472 milhões de euros em 2017, não muito atrás da fileira do calçado. À frente da associação Portugal Fresh desde Maio de 2017, Gonçalo Santos Andrade acha que é tempo de se debater uma organização interprofissional, como o vinho tem na ViniPortugal.

O que é a Portugal Fresh, na sua visão?
A Portugal Fresh é uma associação para a promoção das frutas, legumes e flores de Portugal. Serve como uma plataforma de cooperação empresarial, entre as principais empresas exportadoras que aproveitam não só a presença internacional que a Portugal Fresh tem em vários eventos, de cooperar e conseguir ganhar a escala que Portugal muitas vezes não tem, para conseguirmos atingir mercados que de outra maneira seria muito complicado. Estamos num mercado global, que ao nível do retalho e dos grossistas tem tido uma evolução muito grande nestes últimos 10, 15 anos.  É impossível satisfazer estes principais players a nível mundial se não tivermos uma escala adequada, se não houver cooperação entre empresas exportadoras a fim de satisfazer as necessidades destes clientes.

Do ponto de vista estatutário, a Portugal Fresh é uma associação de produtores?
Sim. A maioria são organizações de produtores (OP) e também participam empresas. Temos cerca de 80 associados, que representam mais de 4.000 produtores, a maioria OP.  Somos o sexto país ao nível da comunidade europeia com maior número de organizações de produtores (dados de 2014). Mas, em termos de valor (de vendas), são apenas 25% das frutas e legumes. A média europeia são 46%, embora tenha havido uma fantástica evolução nos últimos 15 anos. A Bélgica é o país que lidera, com 92%. As nossas OP, na maioria, facturam entre 3 e 30 milhões de euros. Algumas entre os 30 e os 50 milhões de euros, mas muito poucas. Na Bélgica, só uma organização (a BelOrta) factura mais de 450 milhões de euros. Temos tido uma evolução muito interessante ao nível das exportações, que no último ano cresceram 12,4%, atingindo 1.472 milhões de euros. Até 2020, para conseguirmos atingir 2.000 milhões, temos de crescer 10,8% ao ano. Nestes três anos que nos faltam (2018, 2019 e 2020) temos que ter uma média de crescimento de 175 milhões por ano. O que é um desafio muito ambicioso para o sector. Mas nós gostamos.

Porquê esta diferença entre sermos o sexto país em número de OP e só termos 25% do valor associado?
Tem a ver muito com a cultura que existe em Portugal. É muito difícil cooperar entre as empresas e este espírito de nos associarmos não tem sido fácil. Temos que criar prioridades para as nossas organizações, se queremos aproximarmo-nos da realidade europeia, e ter maior poder negocial. Na Áustria há uma organização de produtores de maçã que representa mais de 90% da produção. Os distribuidores que querem este fruto, ou se entendem com esta entidade ou não têm maçãs.

Isso dá-lhes um poder negocial…
Grande, sim. Mas não digo que precisemos de chegar a esse extremo. Temos é que arranjar sinergias entre as várias OP, para se reunirem, para ganharem escala, a uma dimensão europeia. Se olharmos para isto numa visão de mercado global, as nossas organizações são médias ou pequenas. Se não apoiarmos estas estruturas que melhor estão preparadas para atacar o mercado de exportação, será difícil que essas empresas consigam competir em igualdade, ao nível comunitário.

Ao ganhar escala à dimensão europeia, ganham escala no mercado doméstico. Esse é um fim em si mesmo ou é um bónus – ganhar espaço na mesa de negociação com a distribuição?
O mercado nacional é de extrema importância, significa mais ou menos 40% (de cerca de 2.673 milhões de euros de produção, do qual nós exportamos cerca de 60%). Temos que ter parcerias e criar pontos de entendimento também com a distribuição nacional.

Mas a ideia de equilibrar a balança entre distribuição e produção já está desactualizada?
Continua a haver algum desequilíbrio na balança comercial e isso é demonstrativo pelo nível de organização que temos em Portugal. As exportações ajudam muito ao nível da negociação das estruturas nacionais, porque ao exportarmos mais temos menos pressão ao nível de mercado interno. A vinda da Mercadona, agora, até pode ser um factor positivo. Porque é mais um player, mas que permite exportação, como a Jerónimo Martins (na Polónia, e Colômbia), a Auchan, ou o Lidl – onde já vamos quase com 10% da exportação de pêra rocha num cliente que tem 3.500 lojas no mercado alemão. O potencial destes grupos é muito grande. E se conseguirmos arranjar sinergias entre as empresas para conseguir concentrar a oferta, seguramente vamos conseguir remunerar melhor a produção, o objectivo principal que todos devemos ter.

A remuneração da produção é algo que Bruxelas quer acelerar no próximo quadro comunitário de apoio. O de 2007-2014 foi essencialmente benéfico para tudo o que não era cereais (hortofrutícolas, vinho, azeite). O que veio a seguir, visava dar um incentivo às organizações de produtores. Tendo em conta que pós-2020 vai haver uma redução das verbas, que expectativas têm?
A questão do Brexit lança uma série de desafios. Vamos ver como é que vai ser o envelope económico- financeiro a ser negociado. Em princípio, haverá uma redução. As OP são uma ferramenta essencial para o crescimento do sector, seria desastroso haver alguma alteração profunda na questão das organizações de produtores. Vemos como preocupante caso exista alguma alteração de fundo ao apoio das organizações de produtores. Seria muito complicado para as empresas, que já têm algumas dificuldades a recorrer a alguns investimentos, não o poderem fazer ao nível dos programas operacionais, que vêm de fundos 100% comunitários e que não têm qualquer influência com o Orçamento do Estado. 

Os 1.472 milhões de euros de exportações em 2017, como se dividem entre legumes, frutas e flores?
As frutas têm sido o sector que registam maior crescimento, atingindo 641 milhões de euros em 2017 (mais 22,8%), os produtos hortícolas atingiram 293 milhões de euros (mais 9,3%), os preparados/transformados de produtos hortícolas e de frutas 460 milhões de euros (mais 3,8%), e os produtos de floricultura e plantas 79 milhões de euros (mais 2,6%).

Onde irão buscar 175 milhões de euros de crescimento ao ano até 2020? Em que sector?
Espero que todos os sectores contribuam com algum aumento. Acredito que o das frutas continue a ser o que contribua mais. Mas não podemos esquecer que há desafios muito importantes no sector.

Desafios, não riscos?
Também poderão ser riscos para a actividade. Há três pilares fundamentais para ser possível conseguirmos consolidar esta trajectória positiva que tem sido feita pelos empresários do sector das frutas, legumes e flores: a disponibilidade de mão-de-obra; a questão do acesso à água; e o acesso ao investimento. A mão-de- obra não é um problema de Portugal, do sector agrícola, é um problema transversal. A Portugal Fresh está muito preocupada. Os nossos associados já começaram a fazer reuniões, com o SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras], com o Ministério da Agricultura, e os vários ministérios envolvidos, para tentar agilizar processos que são muito morosos e burocráticos, para conseguirmos garantir ter uma resposta atempada para os empresários. Para não estarmos em situação de desigualdade perante outros empresários ao nível da UE, para os potenciais trabalhadores não darem prioridade a outras geografias que são mais ágeis a resolver esses processos de contratação. Nos pequenos frutos, num hectare de framboesas precisa-se de 15 ou 16 pessoas. No mirtilo precisa-se de 17 a 20 pessoas por hectare. É assustador o número de pessoas que são precisas para colher esse género de produtos.

Uma pessoa não aceita um emprego porque não está no lugar certo, o salário não é bom o suficiente, as condições de trabalho não lhe dão garantias de futuro ou porque o considera desadequado. Porque é que acha que há falta de mão-de-obra na agricultura?
Para ser interessante ocupar um posto de trabalho, é preciso que exista um casamento entre a expectativa do trabalhador ao lugar e a expectativa da entidade patronal. Que às vezes não é fácil. Temos que respeitar, porque as pessoas podem não querer fazer exactamente aquelas funções — são trabalhos que não são propriamente leves, são duros, e em que nem todas as pessoas têm aptidão e disponibilidade para o fazer. Sobre a questão do trabalho, nos próximos anos, a nível europeu, a reflexão vai ser mais profunda. Porque as dificuldades que estamos a ter, estão a ter espanhóis, italianos, belgas, franceses, holandeses, ingleses, e vai haver quase que uma competição…

Pelo trabalhador rural?
… entre os países, pelos trabalhadores rurais. Temos que estar cientes que temos de ter negócios que permitam remunerar um bocadinho melhor esses trabalhadores a fim de os conseguirmos atrair. Se não tivermos essas margens, vai ser muito complicado atraí-los.

É uma questão de remuneração, não é uma questão de sazonalidade e portanto, de falta de garantia de remuneração anual?
A questão da sazonalidade é evidente que também é importante. Pode haver situações em que Portugal até esteja em vantagem sobre outros países, porque se calhar consegue garantir uma janela de maior número de meses do que outros países em termos de produção. Hoje em dia, os salários são melhores do que eram há uns anos, mas não estão muito acima do salário mínimo nacional, se tivermos a falar de colheitas. Muitas entidades, muitos sócios da Portugal Fresh o que fazem são prémios ao nível da produtividade, também de acordo com os quilos de colheita que conseguem fazer. Isto também se torna um desafio com alguns riscos, porque neste momento somos menos competitivos do que algumas geografias em termos de remuneração deste trabalho.

As reuniões que têm com o SEF são neste âmbito?
Não é a Portugal Fresh, mas os nossos associados, ao nível do sector — de tentar transmitir as dificuldades, para o SEF também perceber de que maneira podemos agilizar processos em embaixadas ao nível de recrutamento das pessoas, etc., para termos tudo certinho. O que queremos ter são os processos todos correctos. Esses trabalhadores que estejam ilegais, que sejam identificados e denunciados. Porque  isso não faz parte do processo profissional que temos nas nossas empresas.

Quem é que gosta das nossas frutas, legumes e flores?
Nos últimos anos não têm havido grandes diferenças: os maiores compradores são os nossos vizinhos espanhóis, que têm levado cerca de 30% do valor das exportações. (...) Outro dia estava a ver uma notícia sobre o sector do calçado, que exporta cerca de 1.800 milhões de euros [1.979 milhões em 2017] — já vão um bocadinho à nossa frente, mas não assim tão à frente. Ao nível de promoção internacional, a fileira do calçado investiu 80 milhões nos últimos 10 anos, e tem para os próximos dois anos previstos mais 30 milhões. São bons exemplos de promoção internacional, que dá para reflectirmos. A Portugal Fresh tem um orçamento de promoção de 600 a 800 mil euros por ano. Se queremos realmente dar a conhecer mais os nosso produtos e ter uma estratégia de promover a sério ao nível do consumidor no mercado externo, temos que ter uma reflexão grande sobre que passos queremos dar. Há que pensar ou não se está  na altura de criar uma [organização] interprofissional para promover o sector. Estamos completamente disponíveis para debater a questão.