O pior sexo do mundo acontece nas profundezas dos Açores

A estranha vida sexual de uma espécie de peixe da ordem dos Lophiiformes foi finalmente registada em vídeo. Não é uma história com final feliz — pelo menos para o macho.

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A fêmea Caulophryne jordani. de grandes dimensões, e o macho, preso à direita, no ventre da sua companheira DR/Fundação Rebikoff-Niggeler

Nas profundezas do Atlântico, há uma espécie de peixe que tem uma vida sexual curta e fatal: na sua primeira e única relação sexual, o macho da espécie Caulophryne jordani fica preso à fêmea para sempre. Não é que esse não seja o resultado desejado: ao encontrar uma fêmea, é o macho que a morde. Os seus corpos fundem-se depois, fazendo com que ele passe a receber nutrientes dela através da corrente sanguínea, como um parasita. Já se teorizava há muito que seria assim a peculiar forma de reprodução da espécie, mas um vídeo recentemente filmado nas águas dos Açores, partilhado na semana passada na revista Science, vem confirmar as suspeitas.

Tudo acontece no escurinho, a cerca de 800 metros de profundidade. Os lábios do macho ficam colados ao corpo da fêmea, bem maior, e ele passa a ser um “parasita sexual” — impossibilitado de se soltar, mas com capacidade para fecundar os ovos da fêmea. Os seus órgãos dissolvem-se, e, como num casamento, há uma comunhão total de bens: a pele dele passa a ser a pele dela, o sangue dela passa a ser o sangue dele. Pouco sobra do macho, além de um corpo vazio e dos seus órgãos reprodutores, que continuam a produzir esperma. Como se lê no comunicado em que é apresentada a descoberta, “o macho perde a sua individualidade por completo e o casal torna-se num único organismo funcional”.

O acto reprodutivo destes peixes que pertencem à ordem dos Lophiiformes foi filmada em Agosto de 2016 nas águas do arquipélago dos Açores, perto da ilha de São Jorge, pelo casal de fotógrafos de vida selvagem Kirsten e Joachim Jakobsen, em trabalho de campo para a fundação de investigação marinha Rebikoff-Niggeler. O vídeo só foi divulgado recentemente.

Os cientistas já suspeitavam que os encontros sexuais destes peixes assim eram – tinham visto cadáveres destes peixes em que os machos apareciam colados às fêmeas – mas só agora o puderam observar enquanto os espécimes estavam vivos e no seu habitat natural. “Os cientistas raramente os vêem vivos no seu ambiente natural”, lê-se no artigo publicado na semana passada.

No passado, para facilitar o entendimento de como funciona este processo, houve até quem exemplificasse com modelos humanos, através de uma montagem digital (o resultado é absurdo, mas dá para ter uma ideia do que se passa com o Caulophryne jordani).

O vídeo captado nas profundezas permitiu ainda aos cientistas constatar que a fêmea desta espécie tem filamentos bioluminescentes em torno do seu corpo, que a ajudam a identificar as presas, escassas a centenas de metros de profundidade. Como nota a National Geographic, esta descoberta só realça a necessidade de se saber mais sobre o que acontece no fundo dos oceanos.

Na natureza, há outros casos de encontros sexuais peculiares e pouco satisfatórios para os machos. As viúvas-negras e outras espécies de aranhas são conhecidas por comerem o macho depois de acasalarem. Também há casos de canibalismo sexual nos louva-a-deus, o que chegou a gerar preocupação em alguns investigadores neozelandeses, que colocaram a hipótese de o comportamento pôr em risco a sobrevivência de uma espécie.