Opinião

Portugal e Rússia: a “geringonça” tem as costas largas

Este, caros leitores, é o mais recente património diplomático do PS: a promoção, sem escrúpulos nem vergonha, de tiranos e ditadores.

A tese que começa a vingar na opinião pública é esta: o Governo português até estava com vontade de expulsar meia-dúzia de diplomatas russos na sequência do envenenamento de Sergei Skripal, alinhando com os seus aliados da União Europeia e da NATO — só que, infelizmente, os equilíbrios sensíveis dentro da “geringonça” não lhe permitiram tomar tal decisão. Segundo esta teoria, o mau da fita não seria o PS, mas o PCP e o seu amor mal resolvido com a Rússia de Putin. Esta é uma versão particularmente generosa para o PS, que ignora com dolo aquilo que foi a linha da diplomacia portuguesa da última vez que os socialistas foram governo. Sim, lamento, vou ter de voltar a falar de José Sócrates.

E não, não é nenhum prazer fetichista — é apenas uma necessidade imperiosa de recordar factos que não podem ser esquecidos, e de resistir a que o socratismo se transforme no grande impensado da democracia portuguesa, um conveniente apagão na história do PS, como se ele tivesse existido no limbo, sem estrutura, sem cúmplices, sem fiéis, sem partido. Portanto, vale a pena recuar até o ano da grande glória socrática: 2007, com Portugal na presidência do Conselho da União Europeia, seis meses de sucesso diplomático que culminaram na assinatura do Tratado de Lisboa, a 13 de Dezembro, no Mosteiro dos Jerónimos — momento selado com o famoso “porreiro, pá!”, dito por Sócrates a Durão Barroso.

Se todos se lembram do tour de force em torno do tratado, poucos se recordarão do que foi o rodopio diplomático da segunda metade de 2007, e quais os países que o governo de José Sócrates e de Augusto Santos Silva (então ministro dos Assuntos Parlamentares) promoveu enquanto esteve à frente da União Europeia. Apontem, que vale a pena. A 4 de Julho de 2007, realizou-se a primeira Cimeira Empresarial UE-Brasil, com a presença de Sócrates, Barroso e Lula da Silva. A 25 de Outubro, realizou-se a Cimeira UE-Rússia, com Vladimir Putin a passar por Mafra e Sócrates a declarar: “Nada contribuirá mais para a paz no mundo do que uma relação estável e duradoura entre União Europeia e Rússia.” Os resultados são conhecidos.

Meses antes, em Maio, Sócrates já tinha viajado até à Rússia para “descongelar” relações, com Putin a convidá-lo a ficar no Kremlin (uma honra) e a fechar só para si a movimentadíssima Praça Vermelha durante uma hora, de forma a poder praticar o seu jogging (a sério). As autoridades portuguesas garantiram que encerrar a praça foi “da exclusiva responsabilidade das autoridades russas”. Sócrates retribuiu com singelas declarações sobre direitos humanos: “Ninguém deve dar lições a ninguém: nem a Europa à Rússia, nem a Rússia à Europa”, até porque “as democracias são sempre obras inacabadas”. Que bonito.

Dentro dessa mesma filosofia, a 8 e 9 de Dezembro de 2007, quatro dias antes da assinatura do Tratado de Lisboa, Sócrates promoveu a inesquecível Cimeira UE-África, aquela em que a vinda do encantador Robert Mugabe deu origem a veementes protestos do Reino Unido (que acabou por ficar de fora da cimeira — os ingleses estão habituados a desilusões) e com o ainda vivíssimo coronel Kadhafi a montar acampamento berbere no Forte de São Julião da Barra. Este, caros leitores, é o mais recente património diplomático do Partido Socialista: a promoção, sem escrúpulos nem vergonha, de tiranos e ditadores. Na altura, o PS tinha maioria absoluta. Será que a culpa também foi do PCP? Se o país está esquecido, eu não estou.