Louafi Larbi/Reuters
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Vacinação: cabe aos cientistas convencer a sociedade?

Nós, cientistas que lutamos diariamente por transparência científica e avanço no conhecimento, não podemos ficar calados e deixar que a ignorância se sobreponha à ciência

O tema é sensível e cheio de incertezas para a maioria da sociedade e, como tal, está na moda colocar em causa a obrigatoriedade das vacinas. Sendo um assunto de saúde pública, pelo qual todos queremos o melhor, não deveria ser algo a debater num programa de opinião como o Prós e Contras, da RTP. Ainda assim, deveria existir algum cuidado com os convidados e a linguagem escolhida para não criar ainda mais incerteza na sociedade em geral. Não me parece adequado que sejam utilizados argumentos como "Cabe aos cientistas convencer a sociedade de que as vacinas são importantes", até porque desde o século XVIII, quando Edward Jenner identificou a primeira vacina, o processo de vacinação foi reconhecido internacionalmente como um processo seguro, eficaz e capaz de extinguir doenças.

Porque é que não fazemos o comentário inverso, qual a base científica para que alguém venha pôr em causa dois séculos de avanço científico? Porque é que alguém diz, sem evidências científicas, que as vacinas são perigosas e toda a sociedade acredita, mas quando é algum cientista — alguém que estudou, estuda e trabalha na área — diz o contrário este é que está errado e ainda tem de convencer a sociedade? Não consigo entender como é que nós, cientistas, somos postos em causa e os jornalistas que nos descredibilizam, desinformam e enganam entram pela nossa casa adentro como se fossem heróis nacionais.

Não cabe aos cientistas convencer a sociedade, cabe aos cientistas informar, partilhar e transmitir conhecimento à sociedade.

Mais do que desiludida, fico triste quando vejo a minha profissão ser enxovalhada e posta em causa na praça pública por pseudo-doutores terapeutas de biomagnetismo — e por alguns jornalistas.

Não consigo entender o porquê de nós, cientistas, estarmos errados e estes pseudo-doutores estarem certos. Não consigo entender como certas pessoas têm opiniões sobre todas as áreas do conhecimento e ainda conseguem ter tempo de antena para andar a noticiar opiniões.

Não consigo entender como é que um canal público, pago pelos nossos impostos, permite debates que incentivam à ignorância das pessoas.

Não posso aceitar que ponham em causa os nossos deveres e obrigações, quando nós fazemos a nossa parte. O grande problema está quando a comunicação social vem desinformar a sociedade e dar voz a pseudo-doutores que mais não fazem do que vender ideias contrárias e sem justificação científica credível, que a ciência passou anos a provar. Não entendo o porquê de programas feitos para informar virem descredibilizar cientistas e médicos que passam anos e anos a fio a estudar, e darem voz e credibilidade a pseudocientistas do Google que mais não fazem do que inventar teorias, sem nada fazer para as comprovar.

A ciência não pode ser posta em causa. Pode haver dúvidas, pode e devem ser esclarecidas, mas não devemos pôr em causa anos e anos de ciência apenas porque alguém disse o contrário e nada faz para o provar.

A comunicação social tem de informar e não colocar a ciência em dúvida.

E nós, cientistas que lutamos diariamente por transparência científica e avanço no conhecimento, não podemos ficar calados e deixar que a ignorância se sobreponha à ciência.