Motim seguido de incêndio aumenta longa lista de tragédias mortais nas prisões venezuelanas

Revolta numa esquadra de Valência culminou na morte de pelo menos 68 pessoas. É o segundo incidente mais grave do género dos últimos 25 anos.

Valência fica a cerca de 150 quilómetros da capital venezuelana
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Valência fica a cerca de 150 quilómetros da capital venezuelana Reuters/CARLOS GARCIA RAWLINS
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Pelo menos 68 pessoas morreram na noite desta quarta-feira (madrugada de quinta-feira em Portugal Continental) durante um motim, seguido de um incêndio, na sede da polícia regional do estado venezuelano de Carabobo, em Valência.

O número de vítimas mortais foi adiantado pelo procurador-geral Tarek William Saab e pode ainda vir a aumentar. Para além disso, inclui duas mulheres, que pernoitaram no estabelecimento prisional por se tratar de dia de visitas conjugais. O incidente entra na galeria das tragédias mais mortíferas das últimas décadas em prisões da Venezuela.

Tudo terá começado quando um grupo de reclusos capturou um guarda prisional e fez dele refém. O líder dos amotinados apresentou às autoridades uma série de exigências para soltar o guarda e ameaçou detonar uma granada nos calabouços. Face ao silêncio da polícia, os revoltosos decidiram queimar colchões, acabando por pegar inadvertidamente fogo ao edifício.

Tarek Saab anunciou no Twitter que foi aberta uma investigação para averiguar mais a fundo a tragédia e para se “esclarecer de forma imediata os dolorosos acontecimentos que enlutaram dezenas de famílias venezuelanas”. Muitos desses familiares protestaram de forma violenta em frente à esquadra e tiveram de ser afastados pela polícia, que recorreu a gás lacrimogéneo. 

ONU pede investigação

O gabinete do Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos instou as autoridades venezuelanas a realizarem uma “investigação efectiva” para “estabelecer a causa das mortes”, “indemnizar as famílias das vítimas” e “levar os responsáveis à justiça”.

Os motins em prisões venezuelanas não são raros e resultam em grande medida do facto de grande parte dos estabelecimentos prisionais do país estarem sobrelotados.

Um membro da associação Una Ventana a la Libertad refere que dessa generalizada falta de espaço para acomodar criminosos resulta que praticamente todas as esquadras de polícia venezuelanas são, na verdade, prisões sem condições mínimas de segurança. Citado pela BBC, Carlos Nieto diz que existem 45 mil prisioneiros distribuídos por 500 esquadras do país e que, por isso, uma tragédia como a de Valência pode acontecer “a qualquer hora, em qualquer lado e com resultados piores”.

A revolta desta quarta-feira entra para o segundo lutar da lista dos motins mais mortíferos dos últimos 25 anos em prisões venezuelanas, composta por quase 20 casos. Apenas é suplantada pela tragédia de 1994, na prisão de Sabaneta, em Maracaibo, onde 108 pessoas perderam a vida – nessa ocasião, também ocorreu um incêndio.

Se se tiver em conta apenas o consulado de Nicolás Maduro, o motim de Valência é mesmo o mais mortífero, superando as tragédias de Uribana (2013), Sabaneta – outra vez – (2013) e Amazonas (2017).