Campeonato sub-23: um degrau extra para a transição dos jovens jogadores

A partir da próxima época, haverá uma nova competição para melhor aproveitar os jogadores que saem todos os anos da formação dos clubes. Indefinição quanto ao futuro das equipas B pode provocar alterações na II Liga.

Foto
André Silva é um bom exemplo de transição do futebol de formação para o profissionalismo Mário Cruz/Lusa

O modelo ainda não está fechado, ainda não há certezas quanto aos participantes, mas já é certo que a época 2018-19 vai ter uma grande novidade no futebol, um campeonato nacional de sub-23, visto como uma fase extra de transição para os jogadores que saem da formação dos clubes. Esta será uma competição organizada pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) cuja composição não será indexada às duas ligas seniores. E a sua realização terá implicações no futuro imediato da II Liga, tudo dependendo de quais os clubes que querem manter as suas equipas B nesta competição.

Pedro Proença estimava há poucos dias, no congresso internacional "The Future of Football" que todos os anos, em Portugal, cerca de oito mil jogadores ficam pelo caminho na passagem da formação para os seniores e é para baixar este número que se avança para uma competição de transição que tem como matriz a Premier League sub-23 (ver texto nestas páginas). “Portugal, por ter tradição na exportação de talentos e até pela dimensão que tem não pode dar-se ao luxo de abdicar de mais de oito mil atletas que encontram dificuldades na transição da formação para as camadas seniores”, resumia o presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP).

A proposta foi lançada pela FPF e recolheu desde o início um consenso alargado das equipas que estão nas duas principais divisões, embora haja algumas equipas que não queiram participar nesta competição, sobretudo pelos custos que as deslocações implicam. Quem quiser participar no campeonato sub-23 na próxima época, terá de inscrever uma equipa até 15 de Abril, sendo que o regulamento será entregue antes disso, no final de Março ou princípio de Abril.

De acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO, a estrutura deste campeonato será semelhante à da Liga inglesa, que tem duas divisões com 12 equipas cada, mas é provável que este modelo só surja numa segunda fase. Para o ano de arranque, está a ser estudada uma divisão única partida em duas zonas e ordenada de acordo com os méritos das equipas seniores nas duas divisões principais – a organização das zonas não deverá ter qualquer critério regional, apesar de haver uma proposta do Leixões de haver uma zona Norte e uma zona Sul na primeira época de sub-23. Este escalão de transição também deverá contar com uma competição tipo Taça de Portugal.

Desta primeira época ficariam definidas as duas divisões, com promoções e despromoções entre elas – está também em cima da mesa a possibilidade de ligas regionais também fazerem parte deste quadro competitivo. E assim haveria uma maior correspondência com a hierarquia do futebol de formação, já que não há uma correspondência total entre as equipas da I Liga e da primeira divisão de juniores – na fase de apuramento do campeão estão, por exemplo, duas equipas que não moram na I Liga, Leixões e União de Leiria.

Como serão compostas as equipas é outra componente que ainda não está fechada. É expectável que os plantéis sejam maioritariamente compostos por jogadores da formação dos clubes, com margem para contratações, mas ainda está por decidir a percentagem de jogadores formados localmente. Mesmo tratando-se de uma competição sub-23, haverá margem para a utilização de jogadores mais velhos, tal como acontece, aliás, na competição inglesa.

A ideia é que os jogos desta competição (que terá um patrocínio no nome) sejam abertos ao público, sem cobrar bilhetes, e que, pelo menos, um jogo por semana tenha transmissão em streaming na Internet. Outro aliciante para os clubes é a repartição das receitas das apostas online, com 50% das receitas a serem partilhados pelos clubes intervenientes em cada jogo. E os árbitros também terão nesta competição mais uma etapa de aprendizagem antes de chegarem à primeira categoria.

Que futuro para os "bês"?

A criação desta competição terá um impacto directo na II Liga, com a saída de várias equipas B. Para já, a única saída confirmada é a do Sporting B, com os “leões” a comprometerem-se em exclusivo com o projecto dos sub-23. Por saber está o destino das restantes. O Benfica também deverá avançar para o campeonato sub-23, embora esteja em cima da mesa manter a equipa B pelo menos durante mais uma época. O Sp. Braga também já garantiu a presença nos sub-23, mas ainda não tomou uma decisão sobre a B, embora Abel Ferreira, treinador da equipa principal (antigo técnico do Sp. Braga B), já tenha dito que gostaria de ter as duas equipas ao mesmo tempo. FC Porto e Vitória de Guimarães também ainda não tomaram uma decisão.

A equipa portista é a que tem tido maior sucesso desportivo com um título de campeão da II Liga em 2015-16 e é a que está mais bem classificada em 17-18. E, tal como todas as outras, tem sido uma boa plataforma para a afirmação de vários jogadores. Do plantel às ordens de Sérgio Conceição já por lá passaram, por exemplo, Diogo Dalot, Gonçalo Paciência e José Sá, já para não falar do milanista André Silva, que mostrou dotes de goleador na equipa B antes de o fazer na equipa principal e na selecção nacional.

O Benfica também tem feito da equipa B um espaço de transição importante – Ruben Dias, Renato Sanches, Bernardo Silva, Lindelöf e Nélson Semedo são alguns exemplos. O Sporting também tem aproveitado a sua equipa B para dar uma transição competitiva a jogadores como Cedric Soares, João Mário, Eric Dier ou Gelson Martins. Jogadores como Xadas ou Fábio Martins, figuras do Sp. Braga, também passaram pela B, e a comunicação entre equipas tem sido política no V. Guimarães desde os tempos de Rui Vitória – Raphinha é o maior exemplo actual desta estratégia.

Com ou sem equipas B, a II Liga irá mudar a partir da próxima época. O plano é reduzir o escalão do futebol português a 18 equipas, mas, com a possibilidade de várias equipas B não continuarem, pode dar-se o caso de não haver despromoções esta época na II Liga. Há uma proposta da parte de Pedro Proença de haver uma redução do segundo escalão para 16 participantes (que incluiria os dois promovidos do Campeonato de Portugal), mas esta é uma proposta que não colhe grandes apoios das equipas da II Liga e há um grupo de presidentes que está a ponderar pedir à FPF que passe a ser ela a organizar este campeonato.