Opinião

Samba-canção, um amor de Zuza

Zuza Homem de Mello apresenta esta quinta-feira em Lisboa a sua mais recente obra de fôlego, sobre Copacabana e o samba-canção. Na FNAC Chiado, às 18h30.

O título parece sugerir um enigma proustiano, mas aqui não há tempo perdido, só tempo ganho. Zuza Homem de Mello juntou à sua valiosa lista de obras um novo livro e vem agora apresentá-lo em Portugal. Chama-se Copacabana: a trajetória do samba-canção (1929-1958), tem chancela da brasileira Editora 34 e lançamento nacional esta quinta-feira em Lisboa, na FNAC Chiado, às 18h30.

Quem é Zuza? Alguém indispensável à história da música brasileira. Jornalista, crítico, investigador, radialista, musicólogo, produtor e, em início de carreira, também contrabaixista (estudou nos Estados Unidos, na School of Jazz e na Julliard School of Music), nascido em São Paulo em 20 de Setembro de 1933, tem vindo a publicar ao longo dos anos vários títulos que se tornaram referência: Música popular brasileira cantada e contada (1976), A canção no tempo (em dois volumes, em co-autoria com Jairo Severiano, 1997-98), João Gilberto (2001), A Era dos Festivais (2003), Música nas veias: memórias e ensaios (2007), Eis aqui os bossa-nova (2008), Música com Z (2014) e agora, dando finalmente corpo a uma ideia surgida em 2002, Copacabana: a trajetória do samba-canção (1929-1958), editado em 2017.

A ideia nasceu, explica ele a abrir o livro, quando o desafiaram “a montar o repertório de um CD com canções dos anos 1950. À medida que me embrenhava ouvindo minha coleção de discos, fui revivendo com inebriante prazer os sambas-canção que faziam parte da minha memória desde a juventude. Ali estava o tema para um estudo que constituía uma grande lacuna da nossa literatura especializada, um livro sobre o samba-canção. Seu título já piscava flagrante na minha frente como uma manchete de jornal: Copacabana. Em 2004 ataquei o projeto.” Mas meteram-se outros livros pelo meio (“isso para falar só de livros”, porque houve muito mais coisas que fazer) e ele foi adiando. E, claro, melhorando. Porque Zuza, aqui como noutros escritos, é dono e senhor de uma escrita burilada, de palavra ponderada (já aqui, em crónica anterior, ele foi descrito como “um perfeccionista informativo e formativo”) e rigor enciclopédico. Mas que é também uma escrita apaixonada, bem-humorada, musical, provando que é possível aliar o rigor ao gozo, ao entusiasmo, à empatia. Querem saber o que é o samba-canção? Ele explica. Mas conta, pelo caminho, múltiplas histórias, curiosidades, pequenos feitos, passeia-se por memórias que sentiu ou viveu de perto e leva-nos a percorrer cafés, teatros, rádios, casinos, vidas.

A escrita é, orgulhosamente, brasileira (sem indesejáveis “traduções” ou “adaptações”): “Quando posposto a um gênero musical estabelecido”, escreve Zuza a págs. 51, “o termo ‘canção’ passa a definir o substantivo composto que sugere música em andamento mais lento. Assim valsa-canção, tango-canção e choro-canção pressupõem valsas, tangos e choros mais arrastados ou dolentes. O mesmo entendimento deveria se aplicar para o samba-canção: um samba romântico mais lento. Bastaria então retardar o andamento para um samba vir a ser samba-canção?” A resposta está no livro, tal como estão os muitos passos e protagonistas deste género musical que antecedeu no Brasil a bossa nova. E que nasceu a partir do teatro de revista, com Linda Flor, de Henrique Vogler, que de insucesso passou a sucesso com umas mudanças de letra (a música era a mesma) e de voz, de Candido Costa para Luís Peixoto, e de Dulce de Almeida para Aracy Cortes, com uma outra variação pelo meio. Escreve Zuza, a rematar: “Tomam parte na história do primeiro samba-canção quatro títulos, três letras, três gravações com três cantores, quatro autores e a mesma melodia. Como se não bastasse, um tema de harmonia refinada era cantado com sotaque caboclo por uma vedete carioca num espetáculo burlesco. Que tal para começo da história?”

Mas há muito mais do que o começo. Copacabana é, nas suas 500 páginas, mais um daqueles livros que, depois de se começar a ler, dificilmente se abandona. Além disso, e porque o samba-canção tem um som e múltiplas vozes e autores, foi posta na internet uma selecção de 184 canções compiladas por Paulo Malta (e acessíveis no Youtube) que acompanham bem o livro, e onde se incluem temas como Volta (Lupicínio Rodrigues por Linda Batista), A noite do meu bem (Dolores Duran) ou A camisola do dia (Nelson Gonçalves). Demos, pois, as boas-vindas a Zuza e ao seu amor pela história musical do Brasil.