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Os anos 80, uma década especial

Os anos 80 terão sido mesmo uma década diferente e especial ou apenas gostamos de relembrar — nós, os que crescemos nos anos 80 — a nossa infância/ adolescência e o tempo em que, sem saber, éramos muito felizes?

Durante o fim-de-semana passado assisti aos primeiros episódios da série criada por Nuno Markl, 1986. E assumo, sem pejo, que adorei. Ainda não tinham decorrido cinco minutos do primeiro episódio e já toda eu era sorrisos. Um sorriso que não me abandonou ao longo dos 40 e pouco minutos que cada episódio durou. Senti-me transportada para o Portugal dos anos 80, o Portugal que eu observava através dos olhos de uma criança com apenas 10 anos. Tudo foi pensado ao pormenor. Os tapetes, as colchas, os cortinados, os cenários são os das nossas casas nos anos 80. Os acessórios e as roupas também fazem parte do meu livro de recordações, exactamente como se apresentaram à minha frente. Sentimos que damos um mergulho profundo, abandonando 2018, não ficando qualquer rasto desse ano, e emergindo no ano de 1986 em que se disputavam as eleições entre Mário Soares, “que é fixe”, e Freitas do Amaral, “o facho”. E a banda sonora? É claro que terei de falar do fabuloso tema da Ana Bacalhau, Pensamos no futuro amanhã, que já andava a ouvir nas rádios nacionais antes de ter visto o primeiro episódio. É fantástico. Impossível ouvi-lo e não ficar a trautear a música o resto do dia (como era apanágio de grande parte das músicas dos anos 80). Mas assumo que, no que toca a música, aquela que me fez soltar um “Ena…há quanto tempo não ouvia isto?!” foi o magnífico Tarzan Boy dos Baltimore. Não me lembrava de ouvir tal coisa. Qualidade? Não lhe reconheço nenhuma à excepção da "sacana” da música praticamente nos obrigar a cantá-la a plenos pulmões. Quem se lembraria deste tema para ilustrar um episódio de uma série? A verdade é que soube bem ouvi-la e mais uma vez dei por mim com um sorriso enorme nos lábios.

Quando olho para trás e para tudo aquilo que ouvia na época, verifico que, ainda que algumas músicas fossem de uma qualidade algo dúbia, existem muitas que ainda hoje se ouvem muito bem e que nos fazem acorrer aos locais que prometem “uma noite de sucessos dos 80”. Quem não gosta de ouvir Dire Straits, U2, Queen, mas também Cindy Lauper, Pat Benatar, Bruce Springsteen, Talking Heads?

Fica então a questão no ar: os anos 80 terão sido mesmo uma década diferente e especial ou apenas gostamos de relembrar (nós, os que crescemos nos anos 80) a nossa infância/ adolescência e o tempo em que, sem saber, éramos muito felizes?

O certo é que todos temos tendência para olhar para o passado com um certo saudosismo. Eu olho para as séries dos anos 80, para os desenhos animados dessa época, para a música e não consigo deixar de pensar: “Raios, já não se fazem coisas como antigamente!” (Esquecendo, deliberadamente, que se fazem séries de uma qualidade imensa, que os filmes de animação têm produzido pérolas como Coco e que existe muita e boa música a ser apresentada ao público.) O interessante é perceber que, quando conversas com jovens de 20 anos, que viveram a sua infância/ adolescência em 1998/2000, o discurso deles é estranhamente colado ao meu. Também eles dizem que “Já não se fazem desenhos animados como antigamente”, sendo que o “antigamente” deles ronda a década de 2010.

Tudo isto me leva a acreditar que todos nós olhamos para o passado com saudosismo e nostalgia. Quase todos temos tendência para dizer que o passado era bem mais interessante e divertido do que o presente que vivemos. Fazemos isso com o nosso próprio passado, as nossas vivências e o passado da humanidade. Consideramos sempre que os tempos que passaram foram melhores e mais criativos do que os actuais. Esta ideia é magistralmente apresentada por Woody Allen no fabuloso filme Midnight at Paris — aconselho a quem não viu. O filme pretende transmitir a ideia de que, independentemente da época em que se vive, a vida é muitas vezes sentida de um modo pouco satisfatório (o trabalho, o amor, as relações nunca são exactamente aquilo que pretendíamos). Por isso, as pessoas tendem a achar que já foram mais felizes em determinado momento ou época ou a achar que seriam mais felizes num outro momento histórico.

Será essa a razão para gostarmos tanto dos anos 80? Será apenas um gostar de uma época que já passou? Estaremos nós a achar que o presente é pobre apenas e só porque nos sentimos pouco satisfeitos com a vida que levamos? Apenas porque a humanidade sempre se comportou assim?

Ainda que isso possa ter um fundinho de verdade, não será a razão maior.

Considero que a época dos anos 80 foi diferente a muitos níveis. Teve um tanto de kitsch (as decorações das casas meio estranhas, as almofadas ou os bonecos que decoravam a parte de trás dos carros, os chumaços nas camisolas, os grandes bigodes neles e os volumosos cabelos nelas) e outro tanto de genialidade e novidade. Não podemos esquecer que, em Portugal, esta é a geração pós-25 de Abril. A primeira em muitos anos a ter crescido num ambiente de liberdade, onde não se sentia o peso da guerra colonial e onde existia liberdade de expressão. As crianças dessa década terão sido, eventualmente, as últimas a crescer num clima de total liberdade: as bicicletas pela estrada fora, as brincadeiras no campo até ao cair da noite, os encontros com os amigos na rua, apenas e só para conversar. Nada disso é possível nestes dias. Ainda que tivéssemos tido as crises financeiras de 1977 e 1983, assistimos ao surgimento de uma classe média que tentava reproduzir padrões de consumo associados às sociedades europeias mais avançadas. Tudo tinha um gosto de novidade e era aceite de braços abertos. A novela Gabriela, Cravo e Canela conseguia parar o país. Os próprios horários do Parlamento foram alterados para que os deputados pudessem assistir ao último episódio desta novela. A nível mundial, foram os tempos das “grandes bandas”, como USA for Africa ou Band Aid. Acreditava-se no poder da música, acreditava-se que com ela se podia tornar o mundo um sítio melhor para viver. E a verdade é que se fez música, nessa época, intemporal. Quem não gosta de ouvir e quem não canta a plenos pulmões o We are the World nas muitas vezes que passa na rádio?

Foram tempos que caracterizaria por um enorme encanto em relação ao mundo. Uma época em que se acreditava que não havia limites e qe tudo era possível. E, neste momento, vivemos exactamente o contrário. Talvez seja por isso mesmo que os anos 80 continuem a encantar tantas e tantos. Éramos crianças maravilhadas e cheias de esperança. Hoje somos adultos, na sua maioria desencantados com o mundo e o rumo que ele levou.