O “filet mignon” da parentalidade

Se puderem adoptem logo uma criança de seis anos. Eu estou até a pensar montar um negócio de adopção de crianças dessa idade chamado “Crianças chave-na-mão”. Por isso, se estiverem interessados, falem comigo. Até já tenho slogan: “Parentalidade com menos ralação, crianças chave-na-mão.”

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Kelly Sikkema/Unsplash

Cada vez gosto mais de ser pai. Porquê? Porque os meus filhos me dão cada vez menos trabalho. Pode dizer-se que o meu amor parental cresce na mesma proporção do meu descanso parental.

Ao que me dizem, estou a atravessar o filet mignon da parentalidade. É uma altura que coincide mais ou menos com a escola primária. Nesta fase, as crianças ainda são palermas o suficiente para nos idolatrarem e já não reagem à mera sugestão de vestirem o pijama a espernear e a guinchar como um porco na matança. Já passaram a turbulência trabalhosa e parva dos primeiros anos, repletos de logística e birras, e atingem agora uma etapa aparentemente calma. Da perspectiva do copo meio vazio, não é que as criancinhas tenham atingido a maturidade. Estão simplesmente a estagiar para se tornarem ainda mais parvas. Para atingirem o grau de super-guerreiros da irritação parental. Quando vejo os meus filhos a cogitar imagino-os a desenvolver armas, como quem desenvolve arsenal nuclear, para nos dar cabo da paciência de forma mais refinada daqui a uns anos.

Já ouço falar dessa fase ameaçadora que é a adolescência. Dizem-me “Aproveita agora!”, como quem nos aconselha a acumular mantimentos e treinar a musculatura, antes de enfrentar o dragão no átrio da montanha. Há mesmo quem diga que já tem filhos de sete anos numa fase pré-adolescente, com tiques de desprezo filial. Criaturas que batem com portas e mostram uma carranca de boi enfadado. São pais que não tiveram tempo para usufruir de qualquer filet mignon ou sequer de um mísero bife do pojadouro. É tudo nervo na parentalidade.

Os mitos e lendas que rodeiam a adolescência são tais que parece que, ao pé dos adolescentes, as crianças de seis anos são mestres orientais de lucidez e sabedoria. De repente, um simples petiz de 13 anos, frágil e inseguro, já se transformou num ogre borbulhento de sete metros, que come miolos de pais ao pequeno-almoço.

Enquanto os meus filhos não atingem esse patamar mitológico de Adamastores parentais, vou aproveitar para gozar este mar de rosas momentâneo, que comecei a vislumbrar quando o meu filho mais velho tinha cinco anos. Mal podia acreditar, depois de anos de guerrilha constante com aquele minorca endemoninhado, que chegou a ter surtos birrentos em que batia com a cabeça nas paredes, parecia que de repente as FARC, as brigadas assassinas da Colômbia, tinham deposto as armas. Estava mais calmo e até parecia que já ouvia o que eu dizia. E sem eu ter de fazer nada, que é o mais extraordinário. Não foi preciso nenhum acordo de paz, nada. Foi só deixar o tempo passar. Um autêntico milagre. Que todos os conflitos mundiais se resolvessem assim.

Quer-me parecer que só aos cinco ou seis anos é que nos transformamos em pessoas ou em seres minimamente racionais. Até lá os pais estão a criar chimpanzés. Se calhar as crianças já deviam nascer com seis anos de idade. Porque vinham num formato muito mais amigo do utilizador. Enquanto a ciência não se aperfeiçoa a esse ponto, se puderem adoptem logo uma criança de seis anos. Eu estou até a pensar montar um negócio de adopção de crianças dessa idade chamado “Crianças chave-na-mão”. Por isso, se estiverem interessados, falem comigo. Até já tenho slogan: “Parentalidade com menos ralação, Crianças chave-na-mão.”