Rússia acusa EUA de "chantagem colossal" à medida que as expulsões vão aumentando

NATO anuncia a expulsão de sete russos e corta a representação de Moscovo de 30 para 20 elementos. Secretário-geral fala em "resposta a um padrão de comportamento inaceitável e perigoso".

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Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros russo LUSA/LUONG THAI LINH / POOL

Ainda antes de revelar a sua resposta oficial à expulsão de mais de 100 diplomatas russos por 26 países, o Kremlin apresentou esta terça-feira o argumento com que vai tentar quebrar a aparente união entre os Estados Unidos e as potências europeias: se os países ocidentais mais pequenos aceitaram expulsar diplomatas russos, é porque foram alvo de uma "chantagem colossal" por parte de Washington.

"Quando um ou dois diplomatas são convidados a sair deste ou daquele país com pedidos de desculpas a serem sussurrados aos nossos ouvidos, ficamos a saber que tudo isto é o resultado de uma pressão colossal, de uma chantagem colossal, que é o principal instrumento de Washington na cena internacional", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, durante uma conferência sobre a guerra no Afeganistão na capital do Uzbequistão, Tasckent.

Na mesma ocasião, Lavrov prometeu que a resposta de Moscovo será "dura", mas poucos analistas esperam que ultrapasse os limites da habitual troca por troca – em apenas dois dias, segunda e terça-feira, 26 países anunciaram a expulsão de mais de 100 diplomatas russos, em números que variam entre os 60 nos Estados Unidos e um em países como Estónia, Croácia ou Finlândia. A causa directa é acusação de que o Governo russo ordenou o ataque contra o antigo espião Sergei Skripal no Reino Unido.

Mas o que tem acontecido nas últimas horas é o avolumar das críticas contra os países que se mantiveram de fora deste grupo.

Em Portugal, e depois de um primeiro comunicado publicado na segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse esta terça-feira que o Governo vai decidir "sem precipitação, com autonomia, com prudência, mas também com firmeza".

"A medida que em cada momento se revelar mais conforme aos interesses nacionais portugueses, aos interesses europeus e aos interesses da Aliança Atlântica, essa será a medida que nós tomaremos, porque são esses os três critérios: o nosso interesse nacional, enquanto país que fala com toda a gente no mundo e que tem uma enorme facilidade de contacto com todas as grandes regiões do mundo, e os interesses europeu e da Aliança Atlântica", disse o ministro em declarações à Agência Lusa.

A embaixada da Rússia em Lisboa recusa ir além daquilo que foi dito no comunicado oficial, publicado segunda-feira. Ouvido pelo PÚBLICO, o assessor de imprensa da embaixada russa, Alexander Briantsev, disse apenas que a representação "tomou nota do conteúdo do comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros português".

Mas é na Eslováquia que a recusa em alinhar com Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos está a criar mais problemas ao Governo do país – o Presidente, Andrej Kiska, recebeu o primeiro-ministro, Peter Pellegrini, e no final disse que não ficou convencido com os argumentos a favor da neutralidade. Em comunicado, o Presidente eslovaco disse esperar que o Governo do seu país dê resposta "a um pedido de solidariedade de um aliado importante".

Seja com embaraço e receio, seja com vontade e determinação, a lista de países que se tem levantado contra a Rússia continua a crescer – entre segunda e terça-feira, são já 26 os países que anunciaram a expulsão de diplomatas russos. A meio da tarde desta terça-feira, também a NATO anunciou que deu ordens de expulsão a sete dos representantes russos – para além disso, a aliança atlântica rejeitou os pedidos de entrada a três novos representantes, o que significa que a missão russa na NATO será reduzida de 30 para 20 elementos.

A NATO tinha tomado uma decisão semelhante em 2015, na sequência da anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, mas desta vez o secretário-geral, Jens Stoltenberg, sublinhou a ideia de união "na condenação desta violação imprudente das normas internacionais". E, ao mesmo tempo, procurou reforçar a ideia de que este movimento internacional já vinha a ser discutido há vários dias e que não é apenas uma resposta ao ataque contra um antigo espião russo em Salisbury, no Reino Unido.

"Temos de perceber que a causa directa foi o ataque em Salisbury, mas isto faz parte de uma resposta mais abrangente por parte dos países da NATO a um padrão de comportamento inaceitável e perigoso da Rússia", disse Stoltenberg. E deu exemplos: "Vimos a anexação da Crimeia, a desestabilização do Leste da Ucrânia, os ciberataques, os ataques híbridos, o grande investimento russo em equipamento militar moderno e a sua vontade de usar a força militar contra vizinhos."