Lulu e outras mulheres nos palcos do São João

No centro da programação do teatro nacional portuense para os próximos quatro meses, uma releitura da personagem mítica de Frank Wedekind. Mas haverá mais seis estreias, três das quais de dança. E muitos olhares no feminino.

<i>Lulu</i> é a produção própria do TNSJ para o quadrimestre Abril-Julho
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Lulu é a produção própria do TNSJ para o quadrimestre Abril-Julho Susana Neves

As artistas e criadoras Olga Roriz e Renata Portas, Shantala Shivalingappa e Joana Providência, Inês Barahona e Manuela Azevedo; mas também figuras da ficção, como a Lulu de Frank Wedekind e Ivone, a princesa de Borgonha, o Orlando de Virginia Woolf revisitado por Luísa Costa Gomes, a Maria do Frei Luís de Sousa ou a ‘mulher de génio volúvel’ de Marcos Portugal… As contas são de Nuno Carinhas, director artístico do Teatro Nacional São João (TNSJ): vai haver muitas mulheres, “e uma incidência muito grande da visão das coisas no feminino”, nos três palcos do teatro nacional portuense, nos próximos quatro meses.

Não se trata de “nenhuma preocupação com quotas, nem de entrar num ciclo feminino”, diz Carinhas, considerando que este quadro resulta da programação normal do teatro que dirige. Noutra perspectiva de leitura, chama a atenção para o facto de os espectadores irem também poder confrontar-se com a obra de grandes autores e dramaturgos: de Pirandello a Bergman; de Manuel António Pina à citada Virginia Woolf, de Shakespeare a Gombrowicz.

Estas são algumas das marcas da programação do TNSJ para o quadrimestre Abril-Julho, apresentada esta terça-feira numa sessão pública no próprio Teatro São João, incluída numa jornada de celebração do Dia Mundial do Teatro que contemplava visitas guiadas ao edifício projectado por José Marques da Silva e também, à noite, a projecção do documentário I Don’t Belong Here, de Paulo Abreu.

Uma história do capitalismo

O acontecimento da estação, no final da Primavera (Teatro Carlos Alberto, 13 de Junho), será contudo a estreia da única produção própria do TNSJ para estes quatro meses: Lulu, uma encenação de Nuno M Cardoso a partir de cinco actos das peças do alemão Frank Wedekind Espírito da Terra e A Caixa de Pandora – neste caso, o texto que esteve na origem de um clássico da história do cinema, A Boceta de Pandora (Georg W. Pabst, 1929), com Louise ‘Lulu’ Brooks a criar toda uma forte mitologia da mulher-objecto-de-desejo.

“É um grande texto, que não se pode impor a ninguém; é preciso que alguém o queira fazer”, diz Nuno Carinhas ao PÚBLICO, antes da sessão de apresentação pública do programa.

Neste caso, quem quis pegar no teatro de Wedekind foi Nuno M Cardoso, a quem o próprio Carinhas se associou responsabilizando-se pela cenografia e pelos figurinos. “Falámos de várias hipóteses, e eu achei muito bem que fosse a Lulu”, acrescenta o cenógrafo, especificando que o encenador vai desmultiplicar a protagonista por vários actos. Não haverá uma personagem fixa, mas “vários espectros da Lulu, uma mulher de alguma maneira submetida à quase exasperação alegórica do capitalismo, no seu confronto com os homens do dinheiro, da força, do poder”.

A Lulu de Nuno M Cardoso seguirá as leituras que da obra de Wedekind fizeram dramaturgos como Karl Kraus (o autor de Os Últimos Dias da Humanidade, que o TNSJ produziu no Outono de 2016, precisamente com encenação conjunta de Cardoso e Carinhas) e Edward Bond. O primeiro definiu-a como “uma sucessão de elementos clownescos e trágicos”; Bond viu nela “uma peça sobre sexo, dinheiro e violência”, “uma história profética do capitalismo”.

Mais seis estreias

Na dezena e meia de produções calendarizadas para os diferentes palcos do TNSJ até Julho, haverá seis outras estreias, resultantes de co-produções com grupos e companhias do país. E também da parceria com festivais como o DDD – Dias da Dança e o FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica).

A primeira dessas estreias acontece já na semana a seguir à Páscoa, dia 4 de Abril (TeCA), com A Minha Existência Involuntária na Terra, encenação de Renata Portas. Neste regresso ao Porto, a encenadora nascida em São Paulo foi desafiada a pegar em vários contos. Fê-lo recorrendo não só a Pirandello – de quem tirou o título da peça –, mas também a Robert Musil, Dostoiévski e Cesare Pavese, e, contornando a corrente do teatro documental ou biográfico, propõe “um fórum de discussão que transporta dentro de si a ambição vital de construir um ‘teatro-ensaio’”, escreve Nuno Carinhas nas notas do programa.

O Senhor Pina, co-produção com o Pé de Vento, encenação de João Luiz sobre o livro homónimo de Álvaro Magalhães, chega ao TeCA a 10 de Maio. É uma dupla homenagem: às muitas coisas que Manuel António Pina (1943-2012) foi, poeta-dramaturgo-cronista-jornalista-advogado, “algumas delas ao mesmo tempo”; e também aos 40 anos da companhia que tem privilegiado o teatro para a infância, e que teve em Pina um dramaturgo cúmplice.

No seu primeiro projecto com a Ópera-Estúdio da ESMAE, o São João vai acolher no seu palco a produção La Donna di Genio Volubile (6 de Julho), uma ópera de Marcos Portugal, que tem a curiosidade de ter já sido apresentada no mesmo sítio – mas no anterior edifício do Real Teatro de São João – em… 1805. Desta vez, este “drama jocoso” em dois actos sobre a sedução de “uma mulher volúvel” tem encenação de António Durães, direcção artística de António Salgado e direcção musical de José Eduardo Gomes.

Caberá à co-produção com o Teatro Nova Europa A Chegada de um Comboio à Cidade, texto e encenação de Luís Mestre (TeCA, 12 de Julho), fechar o calendário anterior às férias de Verão. Depois de Eurípedes (Agora Sou Medeia, 2010) e Shakespeare (Do Princípio Tempestuoso de Ricardo III, 2013), Mestre encena agora “uma conversa inacabada” com Henrik Ibsen e a sua peça Quando Nós, os Mortos, Despertarmos. Para o encenador, “o diálogo com os clássicos não é um diálogo cerimonioso com os mortos, mas uma conversa viva com todos aqueles que ainda não acabaram de dizer o que têm a dizer”, escreve Carinhas.

Com os festivais

O DDD e o FITEI são os dois festivais que vão cruzar-se com o calendário do TNSJ nos próximos meses. O primeiro, com três produções no palco da Batalha: A Meio da Noite, a nova criação de Olga Roriz (27 de Abril); Impro Sharana, de Shantala Shivalingappa (4 de Maio), e Rumor, de Joana Providência, também em estreia (11 de Maio).

No seu regresso ao TNSJ após Síndrome (2017), Roriz confronta-se agora com o imaginário cinéfilo de Ingmar Bergman, em particular com o filme A Hora do Lobo (1968). A Meio da Noite inspira-se “nesses homens e mulheres assustadoramente reais, na solidão em luta constante com o interior, em busca incessante de entendimento de si próprios e dos outros”, diz a coreógrafa.

Desta vez, e depois de Paula Rego e Graça Morais, Joana Providência continua a dançar nos mundos das artes visuais, revisitando, em Rumor, a obra do pintor, escultor, fotógrafo e cineasta francês Christian Boltanski.

Já a bailarina indiana Shantala Shivalingappa sobe ao palco com o guitarrista e cantor catalão Ferran Savall para o espectáculo de um corpo em movimento sobre uma banda sonora imaginária.

Fora do DDD, mas ainda no âmbito da dança e no programa do FITEI, salienta-se também o regresso da Companhia Paulo Ribeiro com Walking with Kylián. Never stop searching (TNSJ, 14 de Junho), a homenagear o coreógrafo checo Jirí Kylián.

Outra produção deste festival será Mendoza (TNSJ, 20 de Junho), vinda do México numa encenação de Juan Carrillo a partir de Macbeth, de Shakespeare, criada em espaços não convencionais de bairros da capital desse país.

Nuno Carinhas chama ainda a atenção para duas produções com tradução e dramaturgia de Luísa Costa Gomes: Ivone, Princesa de Borgonha, de Witold Gombrowicz, encenação de António Pires (TNSJ, 11 de Abril); e A Grande Vaga de Frio, a partir da personagem Orlando, de Virginia Woolf, recriada em palco por Emília Silvestre numa encenação de Carlos Pimenta (TeCA, 19 de Abril).

Novamente em co-produção com o Ensemble, Maria, releitura da personagem Maria de Noronha do Frei Luís de Sousa, de Garrett, com encenação de Pedro Berdäyes (MSBV, 17 de Maio). E logo a seguir (31 de Maio) chega ao palco do São João Montanha-Russa, criação de Inês Barahona e Miguel Fragata e co-produção com a Formiga Atómica, que teve estreia a 9 de Março no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Com os músicos dos Clã Manuela Azevedo e Hélder Gonçalves em palco, este é “um espectáculo feito a partir da realidade da adolescência sobre uma geração a querer fazer-se ouvir ao som da música”.