Crítica

A extravagante música de Gesualdo numa maratona inesquecível

Os Graindelavoix estrearam em Lisboa a sua interpretação da integral dos Responsórios para o Ofício de Trevas da Semana Santa num só concerto.

KOEN BROOS
Foto
KOEN BROOS

O agrupamento vocal Graindelavoix, dirigido por Björn Schmelzer, tem em curso um dos grandes desafios da sua carreira: a interpretação da integral dos Responsórios para o Ofício de Trevas da Semana Santa, de Carlo Gesualdo (1566-1613) num só concerto, o que equivale a mais de três horas e meia de música, tendo em conta que as obras polifónicas do famoso Príncipe de Venosa são apresentadas em conjunto com as secções em cantochão previstas pela liturgia. A estreia desta maratona musical em torno dos ofícios de Matinas e Laudes de Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado de Aleluia (apresentada de seguida em vez de repartida por três dias como no seu contexto funcional) teve lugar em Lisboa, na Igreja de São Roque, no âmbito da temporada Gulbenkian, abrindo uma digressão que passa também por Varsóvia, Ghent, Middelburg, Mechelen e Hannover.

Com a igreja na penumbra, já que a iluminação se restringiu a algumas lâmpadas ténues estrategicamente colocadas em função dos espaços que iam sendo ocupados pelos cantores em cada um dos três Nocturnos que estruturam as Matinas, criou-se assim um ambiente evocador da antiga cerimónia, na qual as velas iam sendo apagadas uma a uma até à completa escuridão (daí a designação Tenebrae, ou Ofício das Trevas). O jogo com a “arquitectura imaginada do espaço”, para usar as palavras de Björn Schmelzer, incluiu três locais de execução ao longo da nave, com o público de cada um dos lados, e a Capela de Nossa Senhora da Piedade, proporcionando assim diferentes experiências acústicas. Em conjunto com a reconstituição do alinhamento da cerimónia através da inclusão de antífonas, salmos e lições em cantochão segundo o Cantus  Ecclesiasticus  (Roma, 1587), de Giovanni Guidetti, os diferentes tipos de relações espaciais contribuíram para criar uma ponte entre a memória das antigas práticas do repertório litúrgico e a apresentação a um público contemporâneo. Esta solução permite um outro entendimento dos repertórios e da sua vivência estética, emocional e espiritual, difícil de atingir quando obras desta natureza são transpostas de modo anacrónico para a sala de concertos convencional.

Carlo Gesualdo é hoje conhecido pelos seus originais madrigais e pelo ciclo dos Responsórios das Trevas interpretado em São Roque, mas também pela sua vida atormentada, que inclui entre outras sombrias facetas o assassinato da mulher (Maria d’Avalos) e do amante desta (Fabrizio Carafa, duque de Andria), pulsões masoquistas e tendência para o isolamento. Ao longo dos séculos, a sua biografia e o conteúdo da sua música foram objecto de numerosas especulações, dando-lhe uma aura mítica. Os textos penitenciais dos Responsórios do Triduum  Sacrum constituíram um forte estímulo para o dramatismo da sua linguagem musical, repleta de pungentes cromatismos e dissonâncias, ainda que alicerçada no estilo modal herdado da tradição polifónica renascentista, a partir da qual a sua liberdade criativa rasga novos horizontes.

As ousadias musicais de Gesualdo, frequentemente associadas à corrente do Maneirismo (veja-se o monumental estudo de Manuela Toscano, Maneirismo inquieto: os Responsórios de Semana Santa de Carlo  Gesualdo, publicado em três volumes pela Imprensa Nacional), emergiram da magnífica interpretação dos Graindelavoix e da óptima acústica da Igreja de São Roque como parte de um todo orgânico, assente numa estreita relação texto-música, e não enquanto bizarria, o que por vezes acontece nalgumas interpretações. Como é habitual, os cantores dos Graindelavoix (deliberadamente com percursos e vocalidades diversas, incluindo a formação clássica, mas também nalguns casos as músicas de tradição oral do Mediterrâneo e o canto bizantino) não se coibiram de acrescentar algumas ornamentações, mas sem cair em exageros. Estabeleceram mesmo uma diferença marcada entre a intensidade expressiva e o lado contemplativo da complexa polifonia dos Responsórios — com vários momentos sublimes em peças como Tenebrae  factae  sunt e Caligaverunt  oculi  mei, entre outras — e o cantochão, monódico ou com adição de vozes improvisadas segundo as práticas da época ou registadas em livros litúrgicos como por exemplo o “falsobordone” do Benedictus,  que consta da já referida colectânea de Guidetti. Assim, nas antífonas, nos salmos e nas lições, alternando solos e secções corais, o canto dissipava a tensão criada pelos Responsórios, fazendo emergir outro tipo de imagem tímbrica e de colocação vocal.

Interpretar os 27 Responsórios e restantes rubricas de uma assentada é um desafio à concentração e à resistência dos intérpretes, mas também do público. A música de Gesualdo é extraordinária e os Graindelavoix exercem habitualmente grande fascínio nos ouvintes, mas a nossa sociedade está cada vez mais rodeada de estímulos e solicitações constantes que diminuem a capacidade de concentração. Várias pessoas desistiram ao longo da jornada de três horas e meia, mas também foram muitas os que permaneceram até ao fim, usufruindo de uma experiência inesquecível.