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Estação espacial chinesa Tiangong-1 vai cair na Terra dentro de dias

Aparelho vai desintegrar-se ao entrar na atmosfera, devido às elevadas temperaturas. Destroços deverão cair no oceano, diz a Agência Espacial Europeia.

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A estação espacial Tiangong-1 vista do céu em 2017, numa região francesa Alain Figer/Estação Espacial Europeia

A estação espacial chinesa Tiangong-1 vai cair na Terra entre os dias 30 de Março e 2 de Abril, de acordo com informações divulgadas pela Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla inglesa). O Departamento de Detritos Espaciais da ESA, que está a monitorizar a estação, anunciou que, de acordo com as estimativas, ela deverá reentrar na atmosfera durante o próximo fim-de-semana. É, no entanto, uma estimativa “altamente variável”, sendo que o Gabinete de Engenharia Espacial para Voos Tripulados da China (China Manned Space Engineering Office, em inglês) espera que o laboratório espacial reentre na atmosfera entre 31 de Março e 4 de Abril, segundo a estação televisiva CNN.

A estação irá desintegrar-se quando atingir a atmosfera terrestre, sendo destruída pelas elevadas temperaturas que se atingem durante o processo de reentrada na Terra. Os especialistas espaciais afirmam que o perigo potencial para os humanos é mínimo – estima-se que a probabilidade de fragmentos atingirem um humano seja inferior a um em um bilião, de acordo com um relatório da empresa norte-americana Aerospace Corporation.

Cerca de 70% do planeta Terra é coberto por oceano, o que diminui a probabilidade de os destroços caírem no solo terrestre. “Existe mais probabilidade de se ser atingido por um carro ao atravessar uma rua de Sydney hoje do que de ser atingido pela estação espacial chinesa”, disse o engenheiro espacial Warwick Holmes, director executivo do Departamento de Engenharia Espacial da Faculdade de Aeronáutica da Universidade de Sydney, citado pela estação televisiva australiana ABC News.

William Ailor, engenheiro no Centro de Estudos de Detritos Orbitais e de Reentrada da Aerospace Corporation afirmou à revista Time que destroços espaciais do mesmo tamanho caem na Terra múltiplas vezes por ano. “Tivemos três objectos a reentrar aleatoriamente em 2016 e quatro em 2017 do mesmo tamanho. Não existiram relatos de danos e, no geral, não existiram relatos de terem sido vistos”, acrescentou.

A estação espacial, de 8,5 toneladas, “deixou de funcionar” a 16 de Março de 2016, comunicou a China às Nações Unidas em Maio de 2017, sem especificar o motivo. Uma vez que a comunicação com a estação foi interrompida, tornou-se impossível controlar a sua descida, pelo que a reentrada será inteiramente conduzida pelas forças atmosféricas. Contudo, continua a ser possível monitorizar a sua trajectória e a probabilidade de “pôr em perigo e causar danos à aviação ou actividades terrestres é muito baixa”, lê-se no documento

Alan Duffy, investigador do Centro de Astrofísica e Supercomputação da Universidade de Tecnologia de Swinburne, na Austrália, afirmou que o sigilo da China em torno da missão espacial dificultava a avaliação dos riscos. “A comunidade internacional não sabe do que a nave é feita e, por isso, estimar o perigo é mais desafiador, já que os reservatórios mais duros do combustível podem atingir o solo, enquanto os painéis mais leves não”, disse à CNN.

Um “palácio celeste”

A Tiangong-1 – cujo nome significa Palácio Celeste – foi a primeira estação espacial chinesa a ser lançada no espaço, em Setembro de 2011. Mede cerca de 12 metros de comprimento e estabeleceu-se em órbita a cerca de 350 quilómetros de altitude da Terra, alguns quilómetros abaixo da Estação Espacial Internacional, cuja altitude média se mantém a 400 quilómetros, refere o site noticioso especialista em astronomia Space.com. Essa primeira estação chinesa é constituída por dois módulos: um que continha os sistemas de energia solar e de propulsão, e outro destinado aos astronautas e experiências científicas. A estação espacial recebeu várias missões tripuladas e não tripuladas, sendo que, em 2012, recebeu, pela primeira vez, três astronautas a bordo da cápsula Shenzhou-9. No ano seguinte, outros três astronautas visitaram a Tiangong-1, na cápsula Shenzhou-10, tendo passado 15 dias em órbita da Terra. 

Já em 2016, foi lançada a estação orbital Tiangong-2, que recebeu a missão espacial Shenzhou-11 com dois astronautas, a missão tripulada mais longa da China no espaço. Abriu-se, assim, o caminho ao principal objectivo da China para o seu programa espacial – o desenvolvimento de uma estação espacial habitável, prevista para 2022, altura em que a Estação Espacial Internacional deverá deixar de funcionar. No entanto, a falha na Tiangong-1 constitui um entrave à tentativa por parte da China para alcançar as outras potências espaciais como os Estados Unidos, a Rússia e a Europa. 

Talvez algures na Austrália

A China tem vindo, nos últimos dias, a actualizar diariamente a altitude da estação que, no domingo, se encontrava a uma altitude média de 216,2 quilómetros, em comparação com os 286,5 quilómetros a que se encontrava em Dezembro de 2017, de acordo com dados da CNN. O director técnico do Centro Internacional de Investigação em Radioastronomia da Austrália, Markus Dolensky, afirmou à estação televisiva norte-americana que, caso o céu esteja claro, poderá eventualmente ser possível ver uma “série de bolas de fogo a cruzar o céu”, dependendo da hora do dia, condições de visibilidade e da localização do observador. 

A Tiangong-1 vai diminuindo gradualmente a sua velocidade à medida que se aproxima da atmosfera terrestre. Os investigadores dizem que é difícil estabelecer o lugar exacto onde vai cair, mas estimam que caia algures entre uma latitude de 43 graus a norte e 43 graus a sul da linha do equador, havendo mais probabilidade, caso atinja solo terrestre, de ser algures na Austrália. “Algumas partes da camada superior da atmosfera são mais espessas do que outras, o que significa que a nave abrandará a velocidade de forma imprevisível e, uma vez que viaja em torno da Terra em apenas 90 minutos, até uma imprevisibilidade de dois minutos significa que pode cair em qualquer lugar ao longo de um percurso de mil quilómetros”, acrescentou Alan Duffy à CNN.

Não é incomum detritos espaciais caírem na Terra, nomeadamente satélites e partes de foguetões, embora seja mais raro em estações com capacidade para sustentar a vida humana. O último posto espacial preparado para acolher astronautas a cair na Terra foi a estação espacial russa Mir, em 2001, que se desintegrou ao reentrar na atmosfera terrestre e caiu sobre o Pacífico. No entanto, essa foi uma operação controlada, o que não acontece neste caso.

Texto editado por Maria Paula Barreiros