Crónica

Larguem-me as horas

Quando é que deixarão as horas em paz? Quando é que será crime manipular assim o nosso querido tempo, já de si tão excessivamente curto e comprido como é?

Costumo deitar-me à 1h e meia da manhã. Senti-me roubado quando a hora avançou automaticamente da 1h para as 2h da manhã. E agora? O que é que aconteceu à 1h e meia? A Maria João diz que passou para as 2h e meia. E as 2h e meia? Passaram para as 3h e meia. Mas isso não pode continuar assim.

Fico acordado até às 2h e meia mas é tarde demais para dormir. O meu organismo foi enganado: pensa que eu vou fazer uma directa.

Atrapalhado por me deitar tão tarde, faço questão de acordar às horas a que sempre acordo — às 9h — para não ficar com o dia estragado, depois de uma noite completamente estragada.

Antigamente só mudava a hora quem queria. Agora os apetrechos actualizam-se sozinhos numa sinistra conspiração à distância indiferente à nossa vontade.

A esperteza saloia de marcar para a 1h da manhã parte do princípio que a essa hora estamos a dormir. A sério? Num sábado à noite?

Os que têm a sorte de estarem a dormir põem o despertador para as 8h da manhã e acordam mal dispostos, com uma hora a menos de sono, sem perceber por que é que se sentem tão mal.

Os que se deixam dormir acordam quase ao meio-dia e não sabem se hão-de comer o pequeno-almoço ou avançar logo para o almoço. Se comem o pequeno-almoço só almoçam lá para as 4h da tarde, ficando sem vontade para lanchar e jantando tardíssimo — o ideal na véspera de voltar para o trabalho.

Quando é que deixarão as horas em paz? Quando é que será crime manipular assim o nosso querido tempo, já de si tão excessivamente curto e comprido como é?

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