Crónica

Os telhados

Por vezes, sinto o desamparo. Onde me agarrar? E o jovem ateu que colocava a estrela no peito, agora com barbas brancas, necessita de um altar. E eu encontrei o meu. O telhado

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As videiras continuavam secas. Caídas. Mortas. E a grua continuava ali, como um objecto estranho. Encolhida. O tempo foi passando e a ansiedade aumentando. Até que, numa manhã, homens arrancaram as cepas, atulharam o poço e começaram a fazer betão. A grua esticou-se na vertical e na horizontal. Depressa começaram a nascer paredes laranja. Depressa comecei a fazer visitas regulares ao que seria a cozinha, o quarto, a garagem, a sala. Num desses dias, acompanhado pelo construtor, que falava em cerâmica de primeira, em corte térmico, em domótica, em piso radiante com um entusiasmo igualmente radiante, eu só tinha olhos para o telhado. Foi uma descoberta. Era ali que eu queria estar. É ali que eu estou.

Entregues as chaves depois de entregue o cheque, senti um prazer agridoce. Fiquei cliente-refém por 30 anos de um banco, mas ganhei o meu telhado. Já lá vão 11 anos. Serei cliente-refém por mais 19 anos. Mas o telhado tem feito magia. Arregacei as mangas em dias de sol e plantei no telhado laranjeiras, pessegueiros, bananeiras, figueiras, pereiras, ameixoeiras, diospireiros, nespereiras, papiros, loureiros, mirtilos e uma borracheira. Coloquei duas espreguiçadeiras.

Sou um ateu baptizado. Não sei se para as estatísticas sou considerado cristão, mas pouco importa. Os números nunca foram o meu forte. Os meus pais decidiram que eu devia receber o amor de Deus. Assim foi. E se durante a rebeldia da juventude, indignado, os questionava por tal atrevimento, agora o sacramento do Senhor não me incomoda. Foi feito com amor e isso é o mais importante. E se na juventude transformamos o mundo, com a velhice, ou melhor, na pré-velhice, começamos a compreender o mundo. Eu estou nesse estádio. Já construi uma vida. Agora começo a ter medo da morte. Da perda. Já vi tanta coisa. Tanto sofrimento. Tanto desencanto. Por vezes, sinto o desamparo. Onde me agarrar? E o jovem ateu que colocava a estrela no peito, agora com barbas brancas, necessita de um altar. E eu encontrei o meu. O telhado.

É lá que me refugio. Bem no alto, mais perto do céu. Falo com as árvores e elas retribuem com o fruto. Rego as raízes e elas dão sinal de vida na Primavera. Mas do que mais gosto é da noite. O silêncio. Enquanto os vizinhos dormem para retemperarem as forças para a manhã seguinte, eu deito-me numa espreguiçadeira e fico a contemplar as estrelas, a seguir os aviões e a imaginar quem vai lá dentro, de onde e para onde vão. De quando em vez, um gato vadio olha para mim desconfiado, um morcego ronda as paredes à procura de alimento e vozes vagueiam no passeio. Ali fico mergulhado em pensamentos.

No meu telhado, no meu altar, ornamentado com árvores, olho o céu de barriga para o ar. Estranha forma de rezar. Numa espreguiçadeira. Rezar a que Deus? A nenhum. Talvez não seja uma reza porque não tenho fé. Será mais convicção. Convicção cheia de dúvidas, mas convicção. E o céu está estrelado. Bonito. Só existe um céu. O céu é de todos e para todos. Não é fé, é convicção. As crianças do subúrbio de Damasco deviam ver o céu que eu vejo. Mas lá, o céu é riscado com objectos de metal. Lá chove maldade. Nos telhados de Ghouta Oriental, não existem árvores. Só pó e buracos. Nos telhados de Ghouta Oriental, são colocados prisioneiros. Serão escudos humanos. Outros são lançados para morrerem esmagados na rua.

As imagens que nos chegam, ou seja, as imagens que nos querem mostrar fazem doer o corpo e a alma. Na cozinha está uma televisão que muitas vezes faz com que o garfo fique à beira do prato. Aquelas pessoas do subúrbio de Damasco presas nos labirintos de betão e ferro torcido, entregues às barbaridades da Al-Qaeda e aos obuses das autoridades, fazem-me subir as escadas o mais depressa que consigo, até ao telhado. Ali fico, preso às minhas convicções, cheio de dúvidas. O céu é agora um fosso negro. Sem estrelas. Sem aviões. Sem morcegos. Só o gato teima em aparecer. E como um castigo, uma chuva forte começa a cair. As árvores abanam, algumas tenras flores caem. Fico ali a sentir a chuva a cair como se de um chuveiro grande se tratasse. Um banho que leve de vez a vergonha que tenho. Vergonha por aqueles rostos de inocência. Vergonha por aquela violência. Vergonha porque na Síria não existem telhados como o meu. Só pó e buracos. Em Mossul também. Em Cabul também. Em Bagdad também. Em Jerusalém também.

Com a janela meio aberta, uma voz chama por mim. Estou doido, a apanhar chuva?! Vou ficar doente. Sinto ainda mais vergonha. O que é uma gripe ao pé da morte? Resta rezar. Resta lutar. Talvez a salvação esteja na união de ambas.