Indústria da cortiça disposta a financiar expansão dos sobreiros

Os industriais da cortiça querem sair das fábricas para dar uma mão à produção florestal. Com as exportações em alta, o cenário de carência de matéria-prima é provável e, com mais 50 mil hectares de montado, a produção de cortiça pode crescer 30%.

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Daniel Rocha

A indústria da cortiça vai sair do seu casulo e preparou um plano para ficar mais próxima da produção florestal. “Não podemos ficar à espera que as coisas aconteçam”, diz João Rui Ferreira, presidente da APCOR, a associação que reúne uma parte significativa dos industriais do sector. Ou, por outras palavras, ficar à espera que o abastecimento de matéria-prima caia até níveis que ponham em causa o futuro da indústria. No horizonte próximo, o objectivo é fazer crescer a área do montado de sobro nacional em mais 50 mil hectares (os dados actuais indicam que os sobreiros ocupam actualmente 737 mil hectares, 35% do total mundial). Para esse efeito, a indústria mostra-se disposta a usar três trunfos: co-financiar as novas plantações, celebrar contratos de longo prazo com os produtores que lhes garantam a previsibilidade dos seus rendimentos no futuro e criar uma rede de aconselhamento técnico que lhes permita aceder à técnica que antecipa para metade o ciclo da produção de cortiça: a “micro-irrigação”.

Não é ainda caso para um alerta vermelho, mas a indústria transformadora sabe que uma das principais ameaças à sua sustentabilidade se encontra na disponibilidade de matéria-prima. Os números são expressivos: numa campanha normal, o montado português é capaz de produzir em média 100 mil toneladas de cortiça (75.400 toneladas em 2017), quando na década de 1960 podia disponibilizar 221 mil. Para suprir essa redução da oferta, as empresas viram-se forçadas a aumentar as suas importações de 41 mil toneladas em 2009 para 87 mil no ano passado – o que se explica também pelo forte aumento da procura mundial de produtos de cortiça na última década. A reforçar a mudança de atitude das empresas há ainda a registar um aumento dos preços da arroba de cortiça em cerca de 10% no ano passado, até cerca de 30 euros. Os preços ainda estão longe dos valores registados em 2000 (35 euros por arroba), mas estão a crescer de forma rápida (chegaram a rondar os 26 euros).

Os novos montados ambicionados pela indústria não contemplam a zona tradicional (a sul do Tejo) e deverão ser instalados principalmente na região Centro. João Rui Ferreira já visitou a serra da Lousã e diz ter encontrado “boas condições para novas plantações, até porque é uma zona onde já há sobreiros”. As áreas do pinhal interior, em concelhos como Pedrogão Grande ou Castanheira de Pera, muito devastadas pelos incêndios do ano passado, serão igualmente estudadas. As novas localizações desejadas pela indústria são explicadas por duas ordens de factores: pela antecipação dos impactes do aquecimento global e pela necessidade de haver água para instalar sistemas de “micro-irrigação” capazes de alimentar as plantas durante os seus primeiros anos de crescimento.

O caminho traçado está já a ser desbravado pela Corticeira Amorim, o gigante do sector. E tem como exemplo de referência a ousadia de um produtor florestal da zona de Avis, Francisco Almeida Garrett, que em 2003 decidiu avançar com um montado experimental de dois hectares nas imediações da barragem do Maranhão. Os resultados foram surpreendentes. Num montado tradicional, a primeira extracção de cortiça acontece ao fim de 25 anos, a segunda extracção (secundeira) depois de 20 ou 25 anos e só após mais um ciclo de nove anos é que se obtém a chamada cortiça “amadia”. Com a “micro-irrigação”, as extracções podem efectuar-se muito mais cedo. “Consegui retirar a cortiça virgem ao fim de oito anos, a ‘secundeira’ ao fim de 12 e a amadia ao fim de 16”, diz Francisco Almeida Garrett, que gere a Herdade da Conqueira.

Esta aceleração do ciclo, acreditam os industriais, pode alterar por completo a relação dos produtores florestais com os sobreiros. Tradicionalmente, “o montado era uma cultura transgeracional”, diz Francisco Almeida Garrett e o investimento a muito longo prazo deixou de ser prática corrente no mundo rural português. As últimas grandes plantações, que ocuparam áreas estimadas em 53 mil hectares, foram feitas entre 1986 e 1995, no âmbito dos programas financiados pela União Europeia de florestação de terras agrícolas. Desde então, o montado estabilizou. E a qualidade e produtividade das áreas existentes entraram em claro recuo. As árvores mortas não foram replantadas, a densidade reduziu-se e erros no cultivo (uso de grades para limpar o montado que danificavam as raízes, por exemplo) debilitaram os povoamentos existentes.

Ao acelerar o ciclo do sobreiro, “podemos garantir a sua competitividade em comparação com as outras espécies e conseguimos suscitar o interesse dos produtores florestais”, diz Carlos Jesus, director de marketing da Corticeira Amorim. Com estes trunfos na mão, a empresa conseguiu já instigar a plantação de 100 hectares em Portugal e na região espanhola da Andaluzia e acredita que, até ao final do ano em curso, poderão ser instalados mais 500 hectares. Para o efeito, a Corticeira Amorim dispõe de um “gabinete de apoio” à produção que se serve do exemplo de sucesso dos montados de Francisco Almeida Garrett e do apoio científico da Universidade de Évora. Para lá do aconselhamento, a Corticeira não exclui a possibilidade de haver apoios ao co-financiamento da instalação de novos montados, que podem implicar um investimento até 2500 euros por hectare. “Não descartamos essa possibilidade”, diz Carlos Jesus.

É esse modelo pioneiro que João Rui Ferreira, reeleito para um terceiro mandato na APCOR, quer multiplicar. Na sua percepção, “os líderes das empresas estão sensibilizados para a importância desta estratégia”, afirma. “Nós não queremos ser produtores florestais, mas temos de olhar não apenas para a cortiça mas também para o sobreiro”, explica. Nos 50 mil hectares de novos povoamentos ambicionados pela indústria, equaciona-se a instalação de redes para regas de pequenos volumes apenas nos primeiros anos de crescimento, o que pode significar a garantia de um prazo de retorno de investimento para os produtores florestais similar ao dos eucaliptos ou do pinhal – embora a produtividade e rentabilidade do eucalipto seja imbatível uma década após a primeira plantação. Em termos médios, o consumo de água nos sobreiros é baixo, embora ainda faltem estudos para determinar as quantidades exactas. Francisco Almeida Garrett gasta 2 mil metros cúbicos por hectare, quando um amendoal pode consumir 12 mil.

Determinar áreas com potencial, a disponibilidade de água e produtores com vontade de abraçar o montado vai ser a grande tarefa do novo mandato de João Rui Ferreira. “A floresta é o meu eixo prioritário”, explica, numa atitude que revela a nova forma como a indústria encara a necessidade de desempenhar um papel activo em toda a fileira. Ainda que os estudos da Universidade de Évora sobre as características físicas da cortiça de zonas de regadio não estejam concluídos, ainda que as quantidades de água estejam por afinar, o sucesso da experiência de Francisco Almeida Garrett prova que o montado de sobro em Portugal pode voltar a crescer em área. Os industriais da cortiça, que dominam um mercado em forte crescimento, sabem dessa possibilidade e estão dispostos a investir para que esse crescimento se concretize.