Opinião

Mais atividade física, menos diabetes. É assim tão simples

O controlo da diabetes tipo 2 em Portugal passa inevitavelmente, e em larga medida, pelo aumento da atividade física na população e por uma maior participação das pessoas com esta doença em programas de exercício físico.
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Nuno Ferreira Santos

A diabetes tem-se revelado como um dos maiores desafios para os sistemas de saúde em todo o mundo. Atualmente existem 425 milhões de pessoas a viverem com diabetes e estima-se que o número de casos aumente para 629 milhões em 2045 (aumento de 48%). Portugal ocupa um lugar na linha da frente dos países europeus com maior prevalência desta doença crónica – as estimativas apontam para uma prevalência entre 9,8% e 13,3% na população adulta e idosa (mais de um milhão de portugueses).

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A diabetes está associada a uma elevada mortalidade prematura por doenças cérebro-cardiovasculares (acidentes vasculares cerebrais e enfartes agudos do miocárdio) e é das principais causas de amputações dos membros inferiores, de cegueira, de insuficiência renal crónica e de perda de anos de vida com qualidade.

De todos os casos de diabetes, cerca de 95% são de diabetes tipo 2, cujos principais fatores de risco são o excesso de peso/obesidade e a inatividade física. Não é coincidência que Portugal seja um dos países europeus com níveis mais elevados destes dois fatores de risco.

Para além de ter um papel fundamental na prevenção da diabetes tipo 2, a atividade física demonstrou ser altamente eficaz no controlo agudo e crónico dos níveis de glicose no sangue e na redução dos níveis de colesterol, da pressão arterial, do excesso de peso/obesidade, da insuficiência renal e do risco de pé diabético, levando a um menor risco de complicações associadas e de mortalidade cérebro-cardiovascular. É ainda reconhecido o papel crucial da atividade física na diminuição do risco de quedas, no aumento da aptidão funcional e na melhoria da qualidade de vida destas pessoas.

Todas as sociedades científicas internacionais recomendam a atividade física como um dos pilares da prevenção e tratamento da diabetes tipo 2. No entanto, os níveis de inatividade física nesta população são alarmantes.

Se a inatividade física fosse eliminada como fator de risco da população portuguesa, cerca de 10% de todos os casos de diabetes tipo 2 seriam evitados, para além do efeito na incidência de outras doenças crónicas não transmissíveis e na mortalidade global (figura em baixo). Qualquer aumento de atividade física é positivo, mas exceder as recomendações mínimas de atividade física (150 min/semana) conduz ainda a maiores ganhos em saúde por um efeito de dose-resposta, que está comprovado.

O que levará esta população a não praticar atividade física, apesar de tanta evidência científica dos seus benefícios? Para além das barreiras mais comuns como a falta de tempo e a falta de interesse/motivação (principais motivos apontados, também, pela população em geral), os estudos apontam para o medo de agravamento do estado de saúde, nomeadamente medo da ocorrência de hipoglicemias, medo do risco de pé diabético e medo de queda e, ainda, para a falta de apoio à prática de atividade física. Algumas destas barreiras podem ser ultrapassadas com um sistema simples de avaliação e aconselhamento breve para a atividade física, por médicos e outros profissionais de saúde; e por um maior envolvimento de profissionais de exercício físico, quer na prescrição de atividade física em articulação com os serviços de saúde, quer na condução de programas de exercício físico na comunidade ou em contextos clínicos. Apesar do reconhecimento da atividade física como um dos objetivos das consultas de diabetes nos cuidados de saúde primários (e também nos hospitais) e da referência à figura do “promotor da atividade física” como um elemento da equipa multidisciplinar de abordagem à diabetes nos Centros de Saúde (Despacho n.º 3052/2013, de 26 de Fevereiro de 2013), a atividade física continua a ser uma área do combate à diabetes com reduzido investimento. Urge a implementação de soluções concretas de atividade física para estas pessoas, comparticipadas pelos sistemas de saúde, como acontece com outros tipos de tratamentos (por exemplo, farmacológicos ou via aconselhamento nutricional). Urge a integração e articulação de profissionais do exercício físico nos sistemas de saúde, como se de profissionais de saúde se tratassem.

A diabetes custa ao país cerca de 12% de toda a despesa em saúde, equivalente a 1% do PIB de Portugal (Observatório Nacional da Diabetes, 2016). Dados da Organização Mundial de Saúde referentes a alguns países vizinhos (figura em baixo) alertam para os custos no tratamento da diabetes diretamente atribuíveis à inatividade física, por comparação com outros fatores de risco como a alimentação pouco saudável.

Problemas graves de saúde pública controlam-se com estratégias de intervenção baseadas na melhor evidência científica, com elevada efetividade, baixo custo e boa aceitabilidade pela população. É este o potencial da atividade física no controlo da diabetes.

Romeu Mendes, médico de saúde pública na ARS Norte, professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, e investigador no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto.

Pedro Teixeira, professor da Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa, e diretor do Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física, Direção-Geral da Saúde