O que querem os jovens católicos? Mais mulheres em posições de chefia

“Se é difícil para os jovens sentirem que pertencem e que lideram a Igreja, é muito mais difícil para as jovens mulheres”, lê-se no documento que elenca as conclusões dos jovens católicos, que estiveram reunidos ao longo da semana em Roma.

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O Papa Francisco vai receber o documento com as sugestões dos jovens este domingo Reuters/STEFANO RELLANDINI

Mais mulheres em posições de chefia na Igreja, maior poder de decisão para os jovens e uma presença mais forte em espaços de lazer como bares, cafés ou ginásios. São estes os pedidos dos mais de 1800 jovens católicos que participaram num encontro promovido pelo Vaticano ao longo desta semana. As conclusões serão apresentadas ao Papa Francisco este domingo e discutidas pelos bispos do Vaticano, no próximo Sínodo, em Outubro.

Durante uma semana, cerca de 300 jovens de todo o mundo — aos quais se juntaram mais de 1500 que deram a sua opinião através de grupos do Facebook — estiveram em Roma a discutir sobre a participação dos jovens na Igreja. Da reunião resultou um documento, dado a conhecer este sábado, que servirá de base à discussão do Sínodo de Outubro, uma reunião de bispos, sob o mote "Jovens, Fé e Discernimento Vocacional".

A sugestão mais repetida pelos jovens que participaram nesta reunião é a de uma maior inclusão das mulheres nas posições de chefia da Igreja — ao todo, foi repetida quatro vezes no documento de 12 páginas que elenca as conclusões do grupo. O grupo incita a Igreja a “empoderar jovens mulheres”, dando-lhes modelos a seguir. “Se é difícil para os jovens sentirem que pertencem e que lideram a Igreja, é muito mais difícil para as jovens mulheres”, lê-se.

O documento realça ainda o distanciamento da Igreja face aos jovens, que querem ser envolvidos nos processos de tomada de decisão. Pedem mais humildade e transparência e queixam-se do “moralismo excessivo” dos burocratas religiosos. Os jovens querem que a Igreja admita que é feita por humanos e que, por isso, comete erros. No documento, o grupo cita os escândalos de abuso sexual de menores como erros que afastaram as pessoas da Igreja: “Alguns mentores são postos num pedestal, e quando caem, a devastação impacta a capacidade dos jovens de se comprometerem com a Igreja”, escreveram.

Estes jovens querem uma Igreja mais próxima dos assuntos que costumam discutir, os meios que costumam usar e dos espaços que costumam frequentar. “A Igreja devia encontrar formas novas e criativas de encontrar as pessoas onde elas estão confortáveis e onde naturalmente socializam: bares, cafés, parques, ginásios, estádios e outros centros culturais populares”, lê-se. Querem uma instituição mais presente no mundo tecnológico, e pedem mais indicações sobre como usar a tecnologia de forma responsável, evitando "vícios" como a pornografia, por exemplo.

O grupo, que integrou alguns membros não-católicos, não-cristãos e ateus, não chegou a um consenso quanto aos temas da homossexualidade, aborto ou coabitação. Uns pedem que a Igreja mude os seus ensinamentos nestas matérias; outros dizem-se satisfeitos com a abordagem actual. Ainda assim, concordam que o um diálogo devia ser mais prático: “Nós, na Igreja jovem, pedimos aos nossos líderes para falarem em termos práticos acerca de assuntos como a homossexualidade e as questões de género, sobre os quais os jovens já falam livremente”, escreveram.

Os jovens responderam desta forma ao repto do Papa Francisco, que lhes pediu para falarem de forma livre e corajosa. Francisco notou que os jovens se afastavam da Igreja por encontrarem “indiferença, julgamento e rejeição” – posição confirmada por este grupo. “Precisamos de uma Igreja que seja acolhedora e misericordiosa, que aprecie as suas raízes e património e que ame toda a gente, mesmo aqueles que não seguem os standards”, pedem a Francisco.