Um português a desenhar (e pedalar) Nova Iorque

Hugo Barros Costa passou quatro meses em Nova Iorque. Deu aulas, andou de bicicleta e fez cerca de 300 desenhos. Essa viagem ilustrada deu um livro.

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"Não consigo ver um poste telefónico ou cabos eléctricos no céu sem pensar nos desenhos de Hugo." A frase é de Mark Leibowitz, presidente do grupo Urban Sketchers Nova Iorque, que se cruzou com o desenhador durante a sua estadia de quatro meses na cidade norte-americana. "Olhem para os seus esboços e verão o que quero dizer."

NYC - Relatos Gráficos (Editorial Universidade Politécnica de Valência), que será apresentado pelo autor na Escola Superior Artística do Porto (ESAP), este sábado, 24 de Março (18h), é um capítulo da vida ilustrada de Hugo Barros Costa, formado em Arquitectura pela Escola Superior Artística do Porto e desde 2005 em Valência, onde lecciona na Escola Superior Técnica de Arquitectura. É um resumo comprimido de uma colecção de cerca de 300 desenhos de vários estilos, escalas e técnicas que trouxe na bagagem.

Em 2015, Hugo foi dar aulas na Parsons School of Design. Tinha casa em Brooklyn, “uma bicicleta num Inverno especialmente quente” e um diário "exaustivo" alternativo. “Não fazia fotos, desenhava. O epicentro não seria Manhattan”, conta à Fugas enquanto percorre os fios entrelaçados dos cadernos carregados (a sua mochila transportava mapas, três cadernos de diferentes tamanhos e tipos de papel e um estojo repleto de lápis, canetas e pincéis) que resultaram numa exposição e no livro premiado na 18.ª edição do Encontro de Cadernos de Viagem de Clermont Ferrand (França).

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O diário gráfico tem como tema central a cidade de Nova Iorque — mas "pedala" pelos boroughs Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island. "Parece que desenhou em todos os lugares e desenhou continuamente", assinala Leibowitz. "Percorri com a minha bicicleta e material gráfico cada área da metrópole", explica Hugo, que apresenta os seus desenhos como "viagens". "São viagens dentro do meu próprio quotidiano, dentro da minha própria vida."

Tendo o bairro de Bushwick/Ridgewood, uma das zonas na actualidade artisticamente mais activas de Nova Iorque, como núcleo, Hugo deambulou pelos distintos bairros, constatando diferentes características sociais, culturais e económicas. "O diário construiu-se através do desenho in  situ, uma vez que a interacção com pessoas, sons, clima e cheiros era uma parte integral e determinante de cada momento registado. Estar fisicamente em certos espaços, cheios e vazios, conviver com eles, capturar o que aparece e desaparece da nossa frente, faz com que nos infiltremos no nosso próprio desenho."

As impressões inscritas em cada uma das páginas do seu Moleskine passam a fazer parte da sua vida, confessa Hugo, "enfeitiçado" por todo o mobiliário e ambiente urbano (pelos sinais, anúncios publicitários, cabos, semáforos, escadas e pilares "que complementavam a adrenalina visual") e "desassossegado" ("gosto de estar desassossegado para desenhar") na sua missão nova-iorquina. "Ia a Nova Iorque e desenhava o Guggenheim. Achava que era o mais interessante que podia desenhar”, justifica. Até que descobriu que “NY sem pessoas não é NY”. Também por isso decidiu viajar unicamente de bicicleta, meio de transporte que lhe permitia "uma relação diferente com o tempo (cronológico e atmosférico), a cidade e a suas gentes". "Gastei parte da minha estadia nestas deslocações, chegando a fazer percursos de oito horas para fazer um desenho. Não obstante, ganhei liberdade para poder parar em qualquer ponto e desenhar, assim como desfrutar dos trajectos, assimilando lentamente as diferentes paisagens."

Ao longo do livro é possível detectar as duas bicicletas que fizeram companhia ao desenhador compulsivo. A primeira, dos anos 1970, fabricada pela Schwinn, foi substituída por uma japonesa (Myata), menos cómoda, mas bastante mais ligeira.

Diariamente o autor publicou os desenhos no blogue que mudou a sua vida “a fresh drawing everyday” e no Instagram @yolahugo.