Os pássaros estão a desaparecer dos campos da Europa

Nos últimos 30 anos, o número de aves nas zonas rurais dos países da União Europeia sofreu um decréscimo de 55%. Nos últimos 15, França perdeu 80% das suas perdizes. Em Portugal, entre 2004 e 2014, desapareceram mais de metade das populações de rola-brava e de picanço barreteiro. A situação "catastrófica" foi provocada pelos pesticidas, pela agricultura intensiva e pela extensão das monoculturas.

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Reuters/AMMAR AWAD

Não o perceberemos nas cidades onde a maioria das populações passa grande parte das suas vidas. Mas sabem os que habitam as zonas rurais, e irão percebê-lo os que as visitam regularmente. Irão perceber como, se nada for alterado, se tornarão progressivamente menos ricos em diversidade e menos variados os sons que enchem o ar. Esta semana foi dado o alerta: a biodiversidade das zonas rurais europeias está ameaçada. Nas últimas três décadas, os 28 países da União Europeia viram a sua população de pássaros nessas áreas sofrer um decréscimo de 55%. Em Portugal, os dados recolhidos apontam para o mesmo fenómeno. As causas? Os pesticidas, a agricultura intensiva e as monoculturas promovidas pela Política Agrícola Comum da União Europeia.

Na terça-feira, o Le Monde dava a notícia. Dois estudos franceses, um do Museu Nacional de História Natural, outro do Centro Nacional de Pesquisa Científica, feitos de forma independente e aplicando metodologias diferentes, apontavam para as mesmas conclusões. Nos últimos 15 anos, desapareceu um terço da população de aves nas zonas campestres do interior do país - a perdiz registou um decréscimo de 80%, a migratória petinha-dos-prados diminui a sua presença em 70% e um quarto das cotovias também desapareceu. Em Inglaterra, noticiava o Guardian na quarta-feira, a situação é igualmente alarmante: 56% da população de pássaros rurais perdida entre 1970 e 2015. A situação é descrita no jornal inglês como "catastrófica", o francês alerta para a "proximidade de uma catástrofe ecológica".

Em Portugal, diz ao PÚBLICO Joaquim Teodósio, coordenador do Departamento de Conservação Terrestre da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o panorama não será substancialmente diferente. “Confirma-se esse declínio das espécies associadas aos habitats agrícolas, embora, pela falta de recolhas no terreno, seja difícil ter dados robustos para a maioria das espécies”. Ainda assim, é possível classificar como “preocupante”, por exemplo, a situação da rola-brava e do picanço barreteiro: entre 2004 e 2014, registou-se um decréscimo de 54% e 65% nas respectivas populações de pássaros.

O declínio deve-se a um conjunto de factores, centrados nas políticas promovidas pela Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia (EU). A generalização de pesticidas, em particular os neonicotinóides, tem dizimado as populações de insectos de que muitas espécies de pássaros se alimentam. No ano passado era notícia o decréscimo na ordem dos 75% de insectos voadores nas reservas naturais alemãs e, no artigo do Le Monde, surge a informação de que a população das vulgares carochas decresceu 85% nos últimos 23 anos.

“Na última década e meia tem havido uma intensificação agrícola e políticas relacionadas com a floresta que contribuem para estas situações”, explica Joaquim Teodósio, referindo os “olivais intensivos, que têm substituído outras culturas”, ou “o desaparecimento das culturas de sequeiro”. As vastas áreas de monocultura contribuem também para a realidade actual. “As espécies [de pássaros] granívoras perdem a alimentação que lhes garantiam as culturas que produzem essas sementes”. Os efeitos nefastos das políticas promovidas pela PAC são evidentes quando comparados com outras realidades. “Nos países do Leste europeu e nos países que entraram há menos tempo na União Europeia ainda se mantém uma diversidade bastante elevada e os dados não são tão alarmantes”, aponta Joaquim Teodósio. Refere que algumas espécies de aves têm visto as suas populações aumentar, “especialmente espécies oportunistas, com maior capacidade de utilização dos recursos”. Tal situação, porém, “é um indicador do que se passa à nossa volta”: “Haver espécies oportunistas, que estão mais adaptadas às zonas urbanas, que se alimentam em aterros de lixo, mostra que os habitats naturais estão a desaparecer”.

Conseguir uma inversão desta realidade passará, defende o membro da SPEA, pelo “incentivo a culturas e práticas agrícolas que contribuam para a manutenção da biodiversidade” e pela “protecção de zonas importantes a nível de recursos naturais”. Protecção que terá que passar pelo apoio aos proprietários que as detenham. “Não têm retorno da manutenção dessas áreas e preferem criar amendoais ou olivais. É preciso que tenham incentivos e apoios para as manter”.

O desenvolvimento de estratégias que permitam combater esta perda generalizada em toda a Europa depara-se com obstáculos em Portugal. Um deles é a falta de informação detalhada da realidade local. “Temos muita falta de informação e de informação robusta. Era necessário ter uma boa cobertura do país, com dados de boa qualidade recolhidos anualmente, mas não é fácil consegui-lo quando não há investimento”, lamenta Joaquim Teodósio.

Os dados agora fornecidos ao PÚBLICO resultam do Censo de Aves Comuns que a SPEA lançou em 2004 e são actualizados por voluntários que se disponibilizam para fazer monitorização de áreas de terreno que lhes são atribuídas. “Em Espanha são mil voluntários, nós temos 40, 50 por ano a fazer um trabalho essencial e a recolher informação que o país é obrigado a fornecer”. Ocasionalmente, surgem possibilidades de candidatura a fundos de apoio rural, o que é insuficiente para um trabalho que exige continuidade. "Hoje em dia já se fazem coisas como a monitorização do ar nas cidades, mas outras são esquecidas, talvez por não ser tão evidente e próximo à maioria da população o impacto que têm. Depois, quando surgirem anos de seca mais prolongada, quando se sucederem as grandes chuvadas, aí que se ouvirá o 'ai Jesus'", alerta.