Márcio Matos: quando a galeria são capas de discos ou o domicílio

Estudou artes, mas a vida levou-o para outros caminhos, até que a feitura das capas de discos da editora Príncipe lhe deram visibilidade. O sistema da arte não lhe interessa. Os afectos, sim. E vai daí, Márcio Matos inaugura agora uma exposição, em casa do amigo Tiago Miranda.

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Sebastião Almeida
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Uns conhecem-no do balcão da loja de discos Flur, a Santa Apolónia, em Lisboa. Outros de sessões DJ ou de ser o impulsionador de uma pequena editora, a Noisendo, que tem lançado CD-r ou cassetes. E alguns saberão que é ele que tem pintado à mão, em edições numeradas, os mais de vinte lançamentos da editora portuguesa Príncipe Discos que nos últimos anos tem tido mais impacto no exterior do que aqui.

Mas, convenhamos, a esmagadora maioria não conhece Márcio Matos de parte alguma. Nunca viram as suas pinturas, desenhos, colagens ou trabalhos gráficos. Em parte foi isso que levou Tiago Miranda, músico, produtor e DJ de muitas identidades e proveniências ao longo dos anos (Tiago, TNT Subhead, Slight Delay, Mendes & Alçada, Um Zero Amarelo, Loosers, CoolTrain Crew, Pop Dell’ Arte, Gala Drop), tanto no campo da música de dança como do rock mais livre, a propor-lhe que fosse feita uma exposição com alguns dos seus muitos trabalhos.  

E é isso que irá acontecer. A inauguração é esta quinta-feira, 22 de Março, prolongando-se até 24 de Maio. Onde? Bem, em casa de Tiago. Quem quiser ver ali os trabalhos expostos nas paredes do corredor, do quarto ou da sala, só terá que enviar-lhe um email ([email protected]) ou telefonar-lhe (211975524 ou 917773769) para marcar uma visita. Uma galeria convencional nunca foi opção.

“A ideia surgiu há cerca de um ano”, recorda Tiago, “e ainda houve uma temporada em que andei à procura de locais para a fazer, prédios abandonados, por exemplo. Existe até um sítio na internet de prédios devolutos de Lisboa e a alguns pode ter-se acesso pela Câmara de Lisboa. Nesse contexto ainda entrei em contacto com alguns sítios, mas depois era tudo muito burocrático, e pensei fazer aqui, em casa.”  

Di-lo com naturalidade. E quem o conhece sabe que não é pose, é assim. Quando pensa em algo, fá-lo. Não lhe interessa muito a escala ou o impacto. Quando lhe apeteceu lançar discos de jazz não convencional formou uma editora, a Ruby Red. Quando tem discos seus para lançar, ou de outros produtores nos quais se revê, numa linha dançante, fá-lo na sua editora Interzona 13, embora também já tenha editado pela DFA Records dos LCD Soundsystem ou pela Italians Do It Better dos Chromatics. Mas isso não lhe interessa. É DJ residente do Lux desde o início, viaja com regularidade para o Japão, mas sucesso para ele é ir fazendo o que aprecia e poder revelar pessoas de que gosta.

“Não sou curador. Queria apenas mostrar as coisas do Márcio porque um dia fui a casa dele e achei que aquilo que ele me deu a ver tinha de ser mostrado a outras pessoas”, afirma ele.

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Márcio Matos e Tiago Miranda Sebastião Almeida

Afecto e aspereza

Estão bem um para o outro. Márcio Matos tem uma atitude semelhante. Nasceu em 1979 e cresceu na ilha do Pico nos Açores. Um dia teve de partir. “Não havia escolas de arte por ali”, sorri, e acabou no Porto. Quando terminou Belas-Artes, há mais de dez anos, acabou em Lisboa. Não conhecia ninguém. “Fiz um portfólio com trabalhos meus e fui a algumas galerias de arte entregá-lo”, recorda, acabando por fazer uma exposição individual na galeria Trema. “Ainda se venderam algumas coisas, mas depois nunca mais tive paciência para ir mostrar a galerias. Não é o meu circuito, mas houve manifestações de interesse, inclusive de fora. Uns estrangeiros queriam que fizesse uma exposição, mas diziam que os meus trabalhos eram grandes e desejavam que os pintasse mais pequenos”, ri-se. “Acreditas nisto?! Que gigante falta de respeito!”

Depois, conta, a vida foi tomando outras direcções. "A loja de discos, a editora Noisendo, a Príncipe e todas essas coisas foram acontecendo fortuitamente, mas pintar é a coisa de que mais gosto, apesar de nunca ter tido a preocupação de fazer disto a minha actividade, até porque não me dou com o sistema de arte.” Ainda assim a visibilidade aconteceu. A sua galeria foram as capas de discos da Príncipe.

“Isso foi o meu maior desgosto”, reflecte, sem se perceber exactamente se fala ou não a sério, “porque foi tudo ao contrário do que desejava, não acredito muito nessa coisa de ter visibilidade lá fora ou ter um diploma e depois regressar para se ser conhecido aqui e na verdade com a história da Príncipe foi isso que aconteceu.” Por outro lado, tanto as capas, como os cartazes que vai fazendo, são trabalhos de design: “trata-se de dar resposta a algo.”

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Pintadas à mão, as mais de vinte capas dos discos (entre máxi-singles e álbuns) tornaram-se objectos de culto, até porque por norma são edições limitadas. Não são reproduções. São únicas. E a esse propósito conta histórias curiosas. “A capa do álbum da Nídia [Nídia é má, Nídia é fudida], com a rosa vermelha, existem cerca de 15 exemplares diferentes, porque assim me apeteceu fazer. Enviei-as pelo correio a algumas pessoas com uma carta a explicar que era uma edição especial com um desenho que não havia sido aprovado para capa”, ri-se, recordando um processo semelhante com a capa de um dos discos dos Niagara com unicórnios, da qual só existirão oito exemplares. “Quando isso acontece, por norma escrevo às pessoas a quem dou esses discos, porque sei que elas vão entender esse meu gesto.”  

Há dois anos, alertados pelas capas da editora, mas não só, os artistas João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, acabaram por incluir alguns trabalhos da sua autoria numa colectiva (Gente Feliz com Lágrimas) que a dupla comissariou no festival Walk&Talk nos Açores. Mas essa foi apenas uma pequena excepção, no longo deserto expositivo. E não porque lhe faltem trabalhos. “Pinto quase todos os dias, daí que tenha uma enorme quantidade de trabalhos, o que dificultou o processo de escolha. Não foi nada fácil. Numa primeira fase escolhemos uma série deles e montamos, mas depois não gostei do resultado e fizemos uma outra selecção.”

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Todos os trabalhos, sejam pinturas de grande dimensão ou pequenas colagens, são feitas em papel, o material de eleição. “A última vez que expus tive que comprar uma tela gigante para colar folha de papel, apesar de com o tempo ela estragar-se. Mas não quero mudar por causa disso. O papel destrói-se, tem um tempo de duração finito, mas eu também. Para que quero eu que o meu trabalho se prolongue para além de mim? Não faz sentido. A especulação é algo em que não participo.”

Nas suas obras, diz, existem dois vectores. “Por um lado interessa-me a matéria em si, a tinta, a plasticidade, e o acto físico de pintar. Por vezes é apenas isso: trabalhar a tinta, a exploração da matéria. Mas também tenho trabalhos onde deixo transparecer uma mensagem. O actual processo da Catalunha é algo que me enoja, por exemplo, a violência, as chantagens políticas, a democracia totalmente na sarjeta.”

Em todas as suas criações existe um traço de aspereza mas também de afecto. É provável que quem conhece as capas dos discos, recheadas de simbolismos e alegorias, nem sempre o reconheça nas pinturas que mostra agora, mas nem ele, nem Tiago, estão muito preocupados com isso. “Quando ele me mostrou os inúmeros trabalhos que tinha, o que me tocou foi essa diversidade e qualidade. E depois comecei a aperceber-me que para além dele, existem muitas mais pessoas por aí que não têm exposto, nem têm estruturas, e que gostava de mostrar.”

Foi assim que nasceu a 10627156. A sua primeira exposição chama-se Trust Nada Lies Tudo, por Márcio Matos. Telefonem antes, mas apareçam. O Tiago vai estar lá para vos receber. “Vai estar tudo à venda”, afirma ele. “Bem, tudo, menos a casa, como é evidente.”

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Algumas das capas de discos da editora Príncipe Discos criadas por Márcio Matos