Jazz em Agosto anuncia dez dias de “devoção absoluta” a John Zorn

O Jazz em Agosto da Gulbenkian celebra 35 anos com um programa especial: dez dias de concertos e filmes dedicados ao “fascinante universo” de John Zorn. Com ele, claro.

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John Zorn REUTERS
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Milford Graves ROSSETI-PHOCUS
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Thurston Moore GETTY IMAGES
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Ikue Mori ÓSCAR L. TEJEDA
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Marc Ribot BARBARA RIGON
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Mary Halvorson Quartet MARTIN MORRISSETTE/FIMAV
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Masada GONZALO GUAÑA

O festival Jazz em Agosto da Fundação Gulbenkian decorre este ano sob o signo de John Zorn, compositor e saxofonista norte-americano associado não apenas ao jazz mas a vanguardas que vão da música contemporânea ou improvisada a múltiplos géneros. No comunicado divulgado publicamente às zero horas desta sexta-feira, anunciam-se “dez dias de devoção absoluta ao fascinante universo de John Zorn”, com 18 concertos e cinco filmes apresentados em vários espaços da Gulbenkian de 27 de Julho a 5 de Agosto.

Rui Neves, programador do festival, justifica a escolha desta forma: “Entendemos que o John Zorn merecia ter uma projecção que o retrate de uma maneira mais completa na actualidade. Ele foi o primeiro a sugerir ideias, que nós completámos com ideias nossas. Mas na verdade estou supercontente com este ramalhete de opções que existem.” Assinalando que o músico “tem evoluído fantasticamente nas últimas três décadas”, acrescenta ainda: “Tenho uma relação pessoal com o John Zorn há mais de 20 anos, damo-nos muitíssimo bem e tenho uma grande admiração por ele desde que ele apareceu nos anos 1980. É um homem da Renascença: interessa-se por tudo, arte, literatura, cinema, e não é faccioso em música, faz uma mistura coerente e com muita lógica e criatividade, no bom sentido.”

Uma estreia mundial

O primeiro concerto, aliás (Anfiteatro ao Ar Livre, dia 27, 21h30), é inteiramente dele: “E é uma estreia mundial. Um grupo que o próprio John Zorn confeccionou, com o grande baterista Milford Graves e o guitarrista Thurston Moore, ex-membro e um dos fundadores dos Sonic Youth, e que reflecte bem toda aquela atitude que o John Zorn pode ter de misturar coisas de diversas origens para fazer algo de coerente e único.” Não só ele, há no programa mais ligações: “Todos estes diferentes grupos, que tocam música dele, e de alguns dos quais ele faz parte também, são o reflexo dele neste momento.”

Por exemplo: “A grande soprano Barbara Hannigan vai interpretar uma obra que o John Zorn compôs para ela, acompanhada pelo pianista Stephen Gosling. Um concerto muito interessante para quem conhecer melhor a música clássica. Ela é bastante fora de série.”

Voltando a Zorn: “É muito engraçado também o concerto que ele vai dar no órgão do grande auditório. Ele tem feito várias experiências com órgão desde há vários anos, já vai no quarto ou no quinto disco da série que ele denominou The Hermetic Organ, mas que não é tão hermético como isso. Improvisa sobre o órgão, mas curiosamente este é o primeiro instrumento que tocou ainda antes de ter tocado saxofone; começou a estudar música através do órgão e recentemente teve esse baque de querer voltar atrás.”

Rui Neves faz questão de destacar também o segundo dia. “Porque vamos introduzir uma modalidade nova, temos quatro concertos duplos, e no dia 28 temos o quarteto da Mary Halvorson e o quarteto Masada, o grupo histórico do John Zorn depois do Naked City. Vai ser um tanto inédito ver dois grupos seguidos a tocarem, cada um, meia hora. Também temos concertos no auditório 2, uma série de seis, e aqui temos a presença de dois grupos portugueses, o Slow is Possible e o The Rite of Trio, que começaram a tocar muito inspirados pelo John Zorn e que são os únicos que revelam este tipo de influência, o que não quer dizer que eles façam agora o mesmo que faziam no início.”

Um filme novo de Amalric

Quanto aos filmes, “são todos editados pelo John Zorn na label dele, a Tzadik, filmes nitidamente experimentais, alguns muito bonitos. A Ikue Mori vai-se apresentar tocando electrónica no seu laptop, com a projecção de um filme também [Pomegranate Seeds].”

A par destes, há ainda um documentário realizado por Mathieu Amalric: “Ele estreou um filme sobre o John Zorn na última edição do LEFFEST, mas este não é o mesmo, é a continuação desse filme. Ele filmou imensas coisas ao longo de sete anos, é muito amigo do John Zorn (tem, até, um disco com ele dedicado ao Rimbaud) e foi fazendo trabalho de campo. E ficou muito filme feito, o que deu para fazer dois filmes.”

Nos seis primeiros dias, diz Rui Neves, a presença de John Zorn é “muito intensa”. “Mas depois, em todo o resto, é sempre música dele. Excepto um flautista norte-americano, Robert Dick, um músico fora do normal que se exprime num instrumento bastante complexo que é a flauta contrabaixo. É um virtuoso, também da música contemporânea, mas como tem os seus discos na Tzadik, faz parte deste universo.”

Zorn até no grafismo

A “devoção” a Zorn é tal que até a imagem gráfica do festival estará a ele associada: “Convidámos a designer gráfica que faz as capas dos discos da Tzadik, a Heung-Heung Chin, para fazer a linha gráfica do Jazz em Agosto na edição 35. Vai parecer quase uma capa do John Zorn. Há uma coerência nisto, e um desejo de fazer as coisas com rigor.”

Rigor é também o do calendário, e, a par dos 35 anos do Jazz em Agosto, há outros números “redondos” a coincidirem em 2018: John Zorn faz 65 anos; Rui Neves trabalha profissionalmente em música há 45 anos; e faz 70 anos, o dobro da idade do festival. Mas não é de números que vive o Jazz em Agosto, é de música. E de John Zorn.

O PROGRAMA COMPLETO

27 JULHO

Zorn / Moore / Graves
John Zorn: saxofone alto, Thurston Moore: guitarra eléctrica, Milford Graves: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

28 JULHO

Mary Halvorson Quartet / Masada
The Book of Angels
Mary Halvorson Quartet
Mary Halvorson: guitarra eléctrica, Miles Okazaki: guitarra eléctrica, Drew Gress: baixo eléctrico, Tomas Fujiwara: bateria
Masada
John Zorn: saxofone alto, Dave Douglas: trompete, Greg Cohen: contrabaixo, Joey Baron: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

29 JULHO

John Zorn (2016 - 2018), documentário de Mathieu Amalric
(Grande Auditório, 18h30)

Jumalatteret
Barbara Hannigan: voz & Stephen Gosling: piano
(Grande Auditório, 19h30)

The Hermetic Organ
John Zorn: órgão de tubos, Ikue Mori: laptop
(Grande Auditório, 21h30)

30 JULHO

The Rite of Trio
André Bastos Silva: guitarra eléctrica, Filipe Louro: contrabaixo, Pedro Melo Alves: bateria
(Auditório 2, 18h30)

Nova Quartet / Asmodeus
Bagatelles 1
Nova Quartet
John Medeski: piano, Kenny Wollesen: vibrafone, Trevor Dunn: contrabaixo e baixo eléctrico, Joey Baron: bateria
Asmodeus
Marc Ribot: guitarra eléctrica, Trevor Dunn: contrabaixo, Kenny Grohowski: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

31 DE JULHO

Ikue Mori – Pomegranate Seeds (filme-concerto)
Ikue Mori: laptop
(Sala Polivalente, 18h30)

Simulacrum
John Medeski: órgão Hammond, Matt Hollenberg: guitarra eléctrica, Kenny Grohowski: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

1 AGOSTO

Robert Dick
Robert Dick: flauta contrabaixo
(Auditório 2, 18h30)

Kris Davis Quartet / John Medeski Trio
Bagatelles 2
Kris Davis Quartet
Kris Davis: piano, Mary Halvorson: guitarra electrónica, Drew Gress: contrabaixo, Kenny Wollesen: bateria
John Medeski Trio
John Medeski: orgão Hammond, Dave Fiuczynski: guitarra eléctrica, Calvin Weston: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

2 AGOSTO

Bhima Swarga, de Ikue Mori, 2006 (filme)
(Sala Polivalente, 17h00)

Slow Is Possible
João Clemente: guitarra eléctrica, Ricardo Sousa: contrabaixo, Bruno Figueira: saxofone alto, André Pontífice: violoncelo, Duarte Fonseca: bateria, Nuno Santos Dias: piano
(Auditório 2, 18h30)

Highsmith Trio
Ikue Mori: laptop, Craig Taborn: piano, Jim Black: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

3 AGOSTO

John Zorn The Book of Heads - 35 etudes for solo guitar performed by James Moore, de Stephen Taylor, 2015 (filme)
(Sala Polivalente, 17h00)

Dither
plays Zorn Game Pieces
James Moore: guitarra eléctrica, Taylor Levine: guitarra eléctrica, Josh Lopes: guitarra eléctrica, Gyan Riley: guitarra eléctrica
(Auditório 2, 18h30)

Insurrection
Matt Hollenberg: guitarra eléctrica, Julian Lage: guitarra eléctrica, Trevor Dunn: baixo eléctrico, Kenny Grohowski: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

4 AGOSTO

Celestial Subway Lines / Salvaging Noise, de Ken Jacobs, 2005 (filme)
(Sala Polivalente, 17h00)

Trigger
plays John Zorn Bagatelles and Apparitions
Will Greene: guitarra eléctrica, Simon Hanes: baixo eléctrico; Aaron Edgcomb: bateria
(Auditório 2, 18h30)

Craig Taborn / Brian Marsella Trio
Bagatelles 3
Craig Taborn
Craig Taborn: piano
Brian Marsella Trio
Brian Marsella: piano, Trevor Dunn: contrabaixo, Kenny Wollesen: bateria
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)

5 AGOSTO

Between Science and Garbage de Pierre Hébert com música por Bob Ostertag, 2004 (filme)
(Sala Polivalente, 17h00)

Julian Lage and Gyan Riley
play John Zorn
Julian Lage: guitarra eléctrica, Gyan Riley: guitarra eléctrica
(Auditório 2, 18h30)

Secret Chiefs 3
plays Masada
Trey Spruance: guitarra eléctrica, Matt Lebofsky: teclados, Jason Schimmel: guitarra eléctrica, Eyvind Kang: violino, Shanir Blumenkranz: contrabaixo e baixo eléctrico, Kenny Grohowski: bateria, Ches Smith: percussão
(Anfiteatro ao ar livre, 21h30)