Ex-estudantes de Coimbra exigem respeito pelo referendo que ditou fim da garraiada

Dos alunos, 70,7% optaram pelo fim do evento tauromáquico mas Conselho de Veteranos votou a sua manutenção na Queima das Fitas.

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SERGIO AZENHA

Um grupo de antigos estudantes de Coimbra juntou-se para defender o “espírito democrático” da academia e exigir respeito pelo referendo que determinou o fim da garraiada. Entre os 118 subscritores do texto intitulado “Carta Aberta pela Preservação da Tradição” estão ex-dirigentes estudantis bem como ex-elementos de órgãos de gestão de diversas faculdades.

O documento foi enviado ao PÚBLICO na sequência da decisão do Conselho de Veteranos (CV) da Universidade de Coimbra, que inverteu a escolha da larga maioria dos estudantes nas urnas. 27 Membros do CV decidiram na noite de quarta-feira manter a realização do evento tauromáquico, depois de 70,7% dos estudantes ter votado a sua abolição. No referendo participaram 5638 alunos.

Na carta, os antigos estudantes apelam a que o Conselho de Veteranos respeite o referendo e “reconheça o seu resultado como vinculativo”, bem como sugerem que sejam tomadas “todas as acções legalmente aceites” para que o nome ou recursos da universidade e da Associação Académica de Coimbra, não sejam utilizados neste evento.

O repto também é lançado às autarquias de Coimbra e da Figueira da Foz (onde tem lugar a garraiada), para que “não compactuem com este ataque a uma decisão democrática” e não colaborem “com a realização deste eventual acontecimento tauromáquico”.

O referendo em que os estudantes decidiram acabar com a garraiada teve lugar a 13 de Março e foi proposto pelo Conselho Geral da Queima das Fitas, entidade responsável pela organização da festividade e na qual estão representados o Conselho de Veteranos, a direcção-geral da AAC e os representantes dos conselhos cultural e desportivo da AAC. Teve um carácter consultivo.

“A decisão dos estudantes vai-se cumprir. Ponto final“, assegurou ao PÚBLICO o presidente da direcção-geral da AAC (DG/AAC), Alexandre Amado, já depois de ter considerado a decisão dos veteranos “surreal”.

O dux veteranorum, João Luís Jesus, frisa que só se pronuncia sobre o assunto depois de se reunir com a DG/AAC e com a Comissão Organizadora da Queima das Fitas, encontros que deverão acontecer ainda nesta quinta. Questionado pelo PÚBLICO sobre se a decisão do CV é reversível, o dux, que é o líder do Conselho de Veteranos, referiu que “todas as decisões do CV podem ser novamente votadas”.

Em comunicado enviado às redacções na tarde desta quinta-feira, a DG/AAC sublinha que “não admite, em circunstância alguma, qualquer desrespeito pela vontade democrática dos estudantes da Universidade de Coimbra”.

O organismo que dirige a AAC entende a posição assumida pelo CV como uma “afronta directa” à história colectiva dos estudantes da Universidade de Coimbra, mas ainda não anunciou ainda de que forma esta será revertida. A vontade dos estudantes, asseguram, será defendida “até às últimas consequências”.

O movimento Queima das Farpas, que foi criado com o objectivo de abolir a garraiada, considera que este é uma postura “autocrática sem precedentes na academia”. E acrescentam: “Com esta atitude inqualificável, o Conselho de Veteranos demonstra a sua inadequação ao papel que deve representar hoje na Academia.

A DG/AAC remete mais esclarecimentos para uma conferência de imprensa no dia 3 de Abril, onde “prestará informações relativamente às múltiplas questões de ordem financeira e programática” que esta e anteriores edições da Queima têm suscitado.

Recorde-se que recentemente a Secção de Fado da AAC disse à agência Lusa que não iria participar na Serenata Monumental da Queima das Fitas, alegando que não recebeu financiamento nos últimos dois anos. A distribuição de verbas a partir do lucro da festa académica é a principal fonte de financiamento das secções da AAC.