Crítica

Uma história de violência

O western morreu e não vai ressuscitar, mas Hostis é um testamento mais do que apenas honroso.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

Já não é segredo para ninguém: o western morreu de morte natural faz umas décadas e não pode ressuscitar. A razão pela qual isso é impossível fica bem patente neste surpreendente Hostis: a simplicidade reconfortante da aventura mitológica dos bons contra os maus ficou lá para trás. Fazer um western hoje implica mergulhar de cabeça num ajuste de contas moral com uma história de violência, colonialismo, xenofobia. Os filmes “crepusculares” dos últimos 50 anos — da Quadrilha Selvagem de Peckinpah ao Imperdoável de Eastwood — não fazem outra coisa, assumem esse dilema moral no centro da epopeia do Oeste, e Hostis é uma das suas corporizações mais visíveis.

Adaptando um guião inédito de Donald Stewart, vencedor do Óscar do argumento por Desaparecido de Costa-Gavras, Scott Cooper (Jogo Sujo) coloca um oficial de cavalaria à beira da reforma, conhecido pela sua violência em combate, a escoltar contra vontade um chefe índio moribundo aos seus terrenos natais. Pelo caminho, resgatam uma mulher cuja família inteira foi morta num ataque índio. Esta viagem só de ida, onde ninguém tem razões para poder confiar uns nos outros, é filmada como uma viagem ao “coração das trevas” da ideia da América. O pelotão que acompanha o capitão Blocker inclui veteranos e novatos, negros e brancos, nativos e imigrantes, todos forçados pelas circunstâncias a reflectir nos seus próprios preconceitos, a questionar a lógica do ódio e da sobrevivência, a olhar para o equilíbrio impossível da natureza humana.

É verdade que Cooper carrega a traço grosso na dimensão épica, sensorial do filme. Aqui, atinge uma harmonia mística com a paisagem que faz pensar em Terrence Malick, noutros momentos relembra a grandiosidade do Leone de Aconteceu no Oeste. E o menos interessante é a sisudez, paredes-meias com o patudo, que estica a duração sem que o filme o justifique, como se Cooper não resistisse a dizer “sim, isto é um filme sério, não é uma coboiada das antigas”. Mas essa seriedade é tão certeira nas reflexões, e tão bem filmada e contada pelo realizador, que nos mostramos dispostos a desculpar esses excessos. Além do mais, Christian Bale é espantoso no seu oficial de poucas falas, usando o rosto e a presença física como alicerces de uma performance mais discreta e poderosa do que lhe é habitual. Não será uma obra-prima, e está muito longe de ser um qualquer regresso do western, antes un novo prego no seu caixão. Mas é essa dimensão de testamento, de fim de noite, que o torna tão fascinante.